Waking Life

em 11 de dezembro de 2010

Waking Life incita discussões. Talvez seja pelas opções do diretor e roteirista Richard Linklater. Aqui o diretor norte-americano opta por utilizar a técnica da rotoscopia (desenhar sobre imagens pré-existentes). Essas imagens oscilantes, quase turvas, parecem já funcionar como um argumento, pois Linklater nos coloca exatamente  no foco da narrativa, os SONHOS. Um foco desfocado, que permeia toda história, mantendo o espectador hora desperto, hora sonhando, imbuído pelas reflexões que mais parecem o livro da vida, uma espécie de tratado de todas as idéias ocidentais que tiveram destaque no grande roteiro da humanidade.

Além das imagens distorcidas, a trilha sonora é devidamente ajustada às ações dos personagens e sugere um clima lisérgico tão lugar comum para quem sonha! A personagem que amarra as cenas, literalmente falando, é um viajante, um Onironauta, termo para designar um explorador do mundo dos sonhos. Se tivéssemos que encaixar a estética deste filme em umas das gavetas da história da arte, jamais poderíamos colocá-lo na gaveta do cinema realista. Não, definitivamente Richard Linklater não está interessado que fiquemos iludidos pelo real. Isso pode soar contraditório para os mais céticos, eu sei. Mas o fato é que o grande paradoxo humano talvez seja um dos melhores argumentos para um roteiro cinematográfico. O que exatamente é real? Traçar um paralelo entre o mundo dos sonhos e o mundo da vida real não tem sido uma tarefa fácil para a humanidade.Os neurofisiologistas se debruçam em cima de seus livros e provavelmente caem em sono REM (sigla que significa, em português, “movimento rápido dos olhos”. É  uma fase em que o cérebro está ativo e o corpo ativamente paralisado). Sim, os neurofisiologistas ainda sonham entender este processo.

Em todas as épocas na história, tanto para os orientais quanto para o mundo ocidental, este tema serve como narrativa, seja como mensagens dos deuses egípcios ou para registrar que Maria mãe de Jesus estava grávida do Espírito Santo, mensagem enviada por um anjo através de um sonho.

Pulando algumas cenas importantes e outras meramente ilustrativas, chegamos ao ano de 1900, inicio do século XX, momento em que Sigmund Freud tenta alcançar manifestações do inconsciente através de sonhos. Em seu livro A interpretação dos Sonhos, ele lança questões importantes para a psicanálise, que não por acaso preenche rolos e rolos da história do ocidente.

A partir daí, é fácil perceber que todos os mecanismos psicológicos, sejam eles os desejos reprimidos ou a necessidade de remover alguns conteúdos da nossa memória ou para fixar aprendizados primitivos em nossas mentes, isso tudo faz parte da intenção cinematográfica de Waking Life. Um dos grandes méritos de Linklater e de sua equipe é justamente manipular o nosso papel enquanto platéia. Seja pela tensão intertextual que nos coloca em dúvida se o que presenciamos é um sonho do personagem ou cinema dentro do cinema, seja pelo próprio questionamento do quanto a narrativa cinematográfica pode ser manipuladora – e aí mora o grande barato do filme. O diretor, que também é responsável pelo roteiro, mostra o quanto não sabemos o que é e o que não é real, o que é e o que não é sonho, o que é e o que não é cinema. É por isso que aqui eu abandono essa barca… Entretanto antes devo-lhes chamar atenção de que, segundo Frederico Garcia Lorca, “sonhos não existem, tome cuidado, tome cuidado, tome cuidado”.

Sobre o autor: Sol Sloboda é Licenciada em Teatro pela FAP, Especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR, professora da Rede Municipal de Curitiba e mãe. Participa como organizadora do Clube de Cinema ”Terça tem cinema” da UTFPR. E ainda sonha em viver como dramaturga em qualquer lugar desse planeta que faça muito frio.

COMENTE ESTE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.