Não me abandone jamais (Kazuo Ishiguro)

em 24 de março de 2011

Qualquer pessoa que já tenha se empenhado no esforço de escrever uma resenha literaria saberá que é possível escrever dois tipos de textos. Um dirigido àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler a obra, na qual se revela parte do enredo, com cuidado para deixar as pontas mais nebulosas ainda ocultas, e aponta-se quais são suas impressões gerais sobre o livro, de maneira que o leitor fique instigado a ler a obra. Um segundo tipo de resenha pode ser escrita a quem já tenha terminado o livro e então, longe das amarras de detalhar o enredo do livro, passa-se a fazer uma reflexão sobre a obra, revelando sua interpretação pessoal de cada um dos acontecimentos narrativos.

Como outros colaboradores que escreveram aqui sobre Não me abandone jamais, livro cuja adaptação chegou às telas esta semana, enfrento o dilema de tentar agradar o primeiro grupo, sem revelar nada que possa comprometer a leitura dos futuros leitores e, ao mesmo tempo, debater o livro com aqueles que já o leram.

Infelizmente, no presente caso, os dois grupos são praticamente inconciliáveis. Pois, Não me abandone jamais trás, ao longo de sua narrativa, algumas revelações que, se antecipadas, podem, não estragar a leitura, mas prejudicar a percepção dos leitores. Ainda assim, posso afirmar que foram exatamente esses tais “segredos” que me instigaram a ler a obra, após duas indicações aqui mesmo no site.

Mas não vá o leitor esperando alguma grande surpresa, ao estilo M. Night Shyamalan. Ao contrário, Kazuo Ishiguro nos trás de maneira tranqüila a história de Kathy, uma mulher de aproximadamente 30 anos, que cresceu no orfanato Hailsham e relembra sua vida, em especial sua relação com um casal de amigos. As surpresas se revelam aos poucos e, por isso mesmo, são tortuosas. Assim, a cada nova informação, os eventos do passado ganham uma nova interpretação, fazendo com que o livro ganhe uma riqueza impressionante. O próprio leitor percebe que a dimensão da narrativa que se desacortina sob seus olhos cresce a cada gota de percepção que ganhamos sobre a natureza da vida de Kathy.

Se isso não fosse suficiente para deixar qualquer leitor instigado, posso revelar, ainda, sem prejudicar ninguém, que as questões habituais sobre crescer e envelhecer são abordadas no texto, mas, que da forma como colocadas na narrativa, ganham um distanciamento em face de nossa realidade e, por essa razão, nos levam a reflexões muito mais interessantes do que a maioria das obras sobre o mesmo tema.

Enfim, chego a um inevitável ponto em que devo advertir ao primeiro grupo, daqueles que ainda não leram Não me abandone jamais, para que encerre o texto por aqui e, preferencialmente, agarre o exemplar do livro mais próximo para começar imediatamente sua leitura.

Agora que estamos em um ambiente mais intimista, só com o grupo dos iniciados em Não me abandone jamais, posso fazer minha reflexão sobre a obra.

As grandes obras ficção científica são permeadas pelo inconformismo. Tome-se como exemplo as distopias de 1984 ou Admirável Mundo Novo, nos quais os personagens de debatem contra a realidade que os cerca. Em Não me abandone jamais, apesar de toda brutalidade presente na condição de Kathy e seus colegas de Hailsham¸não há, em momento algum, uma rebelião contra o “sistema”.

Como cuidadora, a protagonista/narradora viajava de carro por toda a Inglaterra e poderia facilmente ter empenhado uma tentativa de fuga de seu trágico destino. Mas não. Mesmo quando busca alguma espécie de salvação, Kathy procura apenas postergar suas doações por mais alguns anos, para viver a plenitude de seu amor. Mesmo a iminência da morte não parece assustar ou revoltar os doadores do livro, que cresceram conformadas com sua função do mundo.

Em verdade, Não me abandone jamais nos mostra que o condicionamento vivido em toda infância nos torna incapazes de enxergar nossa realidade com precisão e, principalmente, perceber as alternativas que nos cercam. Sem conhecer outra alternativa de vida, as crianças de Hailsham, por mais evoluídas culturalmente que fossem, não tiveram o treinamento sequer para questionar sua condição e se rebelar.

Mas, por outro lado, em que diferem de nós as crianças de Hailsham? Elas estão amarradas a viver um triste destino de doações e morrer. Nós, apenas a receber doações e, de uma forma ou de outra, morrer. Ao fim, estamos todos sob a mesma condição da finitude da existência humana. Diante disso, tudo o mais se torna acessório.

ISHIGURO, Kazuo. Não me abandone jamais. Companhia das Letras, 2005 (1ª edição). Tradução: Beth Vieira. 344 págs. Preço sugerido: 55,00

Sobre o autor: Formado em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Carlos Goettenauer é mineiro de hábitos paulistanos. Leitor compulsivo desde a era antediluviana, atualmente está na vanguarda da leitura eletrônica. Dedica-se a escrever crônicas no blog Estado Crônico e atormentar seus seguidores no twitter (@cadugoette).

3 comentários para “Não me abandone jamais (Kazuo Ishiguro)

  1. Carlos: li Não Me Abandone Jamais em janeiro e gostei bastante. Mesmo sabendo de toda a história, estou aguardando para ver o filme com expectativa. Não é bem uma discordância em relação a sua análise, mas acho que o livro se enquadra menos em ficção científica (por isso mesmo é que não há o inconformismo dos personagens) e mais em ficção mesmo, mas com um pé na realidade. A venda de órgãos (ou até mesmo a retirada criminosa deles)as clonagens e determinados procedimentos médicos (embrionagem, etc.), mapeamentos de códigos genéticos, são todas indicações de que o “mundo” do Ishiguro não é um tão fantasioso assim. Você não acha?

  2. Jair, não concordo que a ficção científica seja tão fantasiosa. Ao contrário, é o pé na realidade que torna essas narrativas interessantes e permite que elas antecipem os questionamentos morais que ainda entrarão na pauta.

  3. Eu não estava me referindo à ficção científica como um todo, mas a sua colocação no texto. É claro que a FC tem bases na realidade. O que eu estava querendo dizer é que a “realidade” apresentada (ou representada) no livro doIshiguro é bem diferente (mais próxima das instituições que temos hoje), por exemplo do que aquela de 1984, Admirável Mundo Novo, O Planeta dos Macacos, Eu Robô, etc. Nesses quatro exemplos a imaginação (“fantasiosa”, mas que não significa absurda, pois apresenta uma coerência interna) dos autores foi bem mais longe do que no caso do Ishiguro. Nos EUA e Inglaterra o livro foi classificado como romance. Alguns falam em “romance sobre ética na ciência”, etc. Quanto ao outro problema, do tamanho da fonte do seu blog, aqui neste site está tudo normal para mim. Eu estranhei aquilo na hora, mas tudo bem. Também quis fazer uma brincadeira aproveitando o contexto daquela postagem. É isso aí.

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