O brasileiro está acostumado a esquecer de seu produto nacional quando o assunto são histórias em quadrinhos. Poucos dão valor as HQs que são produzidas por essas bandas, e a situação só tende a piorar quando o enredo como a ambientação da história se passam em lugares considerados banais ou comuns no cotidiano do cidadão. O problema está na clara falta de divulgação e muito provavelmente foi o mesmo elemento que faltou quando lançaram a HQ Estação Luz.

Escrita por Guilherme Fonseca e ilustrada por Renoir Santos, Estação Luz conta a história de Wagner, um professor de faculdade que tem uma vida desinteressante e parada, até que se conhece um “malandro paulistano” que vive nas imediações da estação ferroviária que dá nome a HQ. Seduzido pelo andarilho sem nome, Wagner passa a conhecer uma São Paulo antiga, mal explorada e cheia de becos psicológicos capazes de transformá-lo em um novo homem, porém esse envolvimento com estranhos e novos comportamentos acabam levando Wagner a uma situação onde um pacto é feito e ele tem que pagar sua parte.

Estação Luz deixa pode não deixar claro logo de prima que tem fortes relações com o conto germânico do Dr. Fausto, porém a influência do mito literário fica impressa nas próprias palavras do autor no final da HQ. O fato não chega a ser um “corta tesão”, porque é de conhecimento geral que nada se cria (tudo se adapta), só é estranho porque parece ser completamente contraditório usar uma história clássica européia para apresentar lugares e perfis comuns no dia a dia do paulista.

O ponto positivo é que “o Fausto brasileiro” ficou bem feito e consegue convencer nos textos e nas ilustrações, mostrando sempre uma São Paulo e suas características menos explorada. Acontece de criar aquele sentimento de verticalização com outras captais recorrentes em histórias em quadrinhos de temática mais adulta, atribuindo um valor cultural ainda maior.

Talvez o único problema com a obra esteja na forma como o roteiro foi colocado no papel para ser ilustrado, deixando os pontos e viradas previsíveis e ritmados por características secundárias, como a presença das letras de músicas que deveriam servir como trilha sonora das cenas. Mas o erro não apaga a qualidade impressa e nem diminui o esforço de trazer para dentro da realidade nacional uma idéia que já havia sido imortalizada dentro do conceito medieval.

Estação Luz foi editada pela Devir, lançada em 2009, tem 80 páginas com miolo em papel couchê, lombada rígida e páginas adicionais explicando o processo de criação e um pequeno estudo psiquiátrico sobre o conto de Fausto assinado pelo médico Bernardo de Gregório. O preço varia de entre 25 e 30 reais, infelizmente não é aconselhado para menores de idade, mas se você é adulto e quer conhecer mais dos quadrinhos escritos por aqui, Estação Luz fica de indicação.

Sobre o autor: Sem títulos à ostentar, o Breno largou duas faculdades e gastou seu tempo lendo HQs. Hoje tenta escrever para o Artilharia Cultural, Vortex Cultural e (quando dá) Meia Palavra. Pode ser encontrado também no @brenocs.

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