Objecto quase (José Saramago)

em 27 de março de 2013

Informações

  • Autor: José Saramago
  • Tradutor: -
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 136
  • Ano de Lançamento: 1994
  • Preço Sugerido: R$ 38,00

Sou fã de epígrafes. A posição estratégica que elas ocupam num texto faz borbulhar a imaginação do leitor ao mesmo tempo em que, de alguma maneira, indica o que virá a seguir. Estando entre o título e o texto propriamente dito, as epígrafes são uma espécie de preparação para o texto, sínteses acerca do ponto central do texto ou emblemáticas palavras que resumem, a seu modo, aquilo do que o texto irá tratar como problema essencial.

Escrevo isso porque a coletânea de contos Objecto quase, de José Saramago, possui uma epígrafe que ajuda a conduzir a leitura do livro como um todo. Devido a seu peso em relação à análise da obra – e muito provavelmente a sua escritura –, reproduzo aqui as palavras de Karl Marx e Friedrich Engels, retiradas da obra A sagrada família e citadas por Saramago: “Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente.”

Levando em consideração tanto essa epígrafe e o título da coletânea quanto a ideia que parece conduzir cada um dos contos, é possível perceber que Objecto quase é uma coletânea que se volta à humanização das coisas. Por “humanização das coisas” entendo a processo pelo qual o trabalho humano altera o mundo objetivo – natureza, se preferirem –, transformando-lhe em cultura, isto é, como os homens, dialética e socialmente, criam o seu mundo na medida em que atuam sobre a realidade concreta, transformando-a.

Saramago possui um talento todo especial para fazer isso. Em Memorial do convento, por exemplo, através da narrativa que conta como o Convento de Mafra foi construído, o escritor português consegue investir de sentido humano cada simples tijolo ou pedra que foi usada para erguer uma parede ou pavimentar uma calçada. Através da história de como uma pedra foi minerada, removida, transportada, esculpida, lapidada, polida e, finalmente, posta no lugar onde deveria ficar, o escritor já não fala mais de uma pedra qualquer, mas de um objeto humanizado, que não faz parte do reino da natureza, mas sim do reino dos homens, o mundo que eles criam por meio de seu trabalho.

Narrativas com um senso parecido são encontradas em Objecto quase. Saramago, por exemplo, escarafuncha em cada mísero possível detalhe descritível de uma cadeira sendo corroída por um inseto e, por fim, se partindo ao contato de um traseiro humano. Após descrever cada circunvolução da cadeira, seu processo de produção, a história de como um besouro veio a roer suas fibras e como ela veio a se esfacelar, sabemos que ela continua sendo um objeto, mas passa a ser um objeto quase, quase algo mais do que uma simples cadeira genérica ou hipotética.

Algo parecido com isso se dá quando, num conto surreal, peças de mobília e outros objetos começam a manifestar sintomas humanos, como febre, velhice e comportamentos aparentemente dotados de vontade – ou seja, de consciência. Por uma narrativa meio tresloucada, Saramago nos conduz por um mundo em que objetos inanimados ganham uma semi-vida que serve ao escritor como artifício expressivo. Um artifício expressivo que mostra, na medida em que tais e tais objetos entram na alçada da ação humana, tornam-se elementos da História e, consequentemente, ganham alguma parcela de humanidade, ainda que secundária e intrinsecamente ligada a seus criadores.

No conto Refluxo, no qual um rei resolve que ao invés de vários cemitérios, espalhados por toda a extensão do reino, deverá haver somente um, gigantesco e planejado, percebemos como mesmo quando se trata de elementos post mortem, a significação humana acontece. Pensando a logística de tão mirabolante operação de exumação, transporte, catalogação, organização e múltiplos ressepultamentos, Saramago vai transformando aquela paisagem supostamente morta em algo muito vivo, vivo e, nesse sentido, humano.

Mesmo quando fala sobre um centauro – sob um ponto de vista, aliás, genial – Saramago leva a cabo sua galharda tarefa de mostrar a investidura de potencial humano que as coisas carregam. Um centauro, apenas parcialmente humano, vive os dilemas de sua dualidade no choque entre sua metade hominídea e sua metade animalesca. A pitoresca condição do animal mitológico enseja uma belíssima exploração literária de Saramago, que expressa, na dialética com a metade cavalar, como se constitui o caráter humano do centauro. As possibilidades metafóricas da criatura lendária são apresentadas brevemente, mais como um olhar para dentro da riqueza que elas possuem potencialmente.

Assim, retomando a epígrafe, Saramago “humaniza as circunstâncias”. Humaniza não no sentido de que elas se tornam humanas pela ação de sua prosa, mas sim porque sua prosa evidencia sua humanização. O escritor não cai no erro de hierarquizar humanos e coisas, voltando-se mais aos objetos do que aos homens; mas, sim, mostra como as circunstâncias e os objetos têm sua substância modificada quanto são tocadas pelos homens e passam a integrar sua realidade.

Se essa resenha possa parecer muito pontilhada de discussões pesadas e truncadas, não atribuam a culpa a Saramago, uma vez que a prosa desse sabe mostrar tudo aquilo de que eu falo aqui com perspicácia e expressividade. Mesmo quando o escritor se estende na descrição minuciosa dos objetos e das situações, ele não perde o fio condutor, retomando-o constantemente para situar o leitor naquele oceano de informações.

Objecto quase é mais uma daquelas obras que embora não figurem entre as obras principais da lavra de um autor, encerram detalhes fundamentais para que as “grandes obras” tenham seu sentido ampliado e aprofundado, às vezes até realçado. Através de histórias breves e misteriosas, Saramago parecia estar consolidando seu estilo narrativo, pois Objecto quase, de 1978, é a última obra antes de um de seus mais aclamados romances, Levantado do chão, de 1980. Antes da coletânea, embora vários livros seus já tivessem sido publicados, não figuravam entre eles livros célebres e já clássicos como O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Memorial do convento (1982) e O ano da morte de Ricardo Reis (1986).

Na minha opinião trata-se de uma obra capital para os apreciadores de Saramago, para os que querem aprofundar-se nos meandros de suas ideias e seu pensamentos, e também para aquelas que querem ter um gostinho de sua exótica e deliciosa narrativa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.