Gatos Empoleirados – O clube dos cavalheiros

em 8 de novembro de 2011

Como parte de ser um bom anfitrião, recebi uma amiga em missão pela prefeitura de São Paulo para ficar aqui em casa. No primeiro dia, adaptamos uma brincadeira brasileira para as terras do Tio Sam. Creio que todos já brincaram de Fusca Azul (para quem não sabe: ao ver um fusca azul, não vale New Beetle, a pessoa grita FUSCA AZUL e dá um soco no braço da(s) pessoa(s) ao seu lado). A brincadeira era JEW (judeu) e se resumia a toda vez que encontrar um judeu nas ruas de NY, a pessoa tinha que dar um murro no outro, imagine como os braços ficariam se passássemos por sinagogas. O trabalho dela por aqui era conversar com a divisão de Parks and Recreations da prefeitura de NY e saber sobre os projetos de revitalização de parques e espaços públicos. Nessa empreitada eu, o guia, acabei me tornando o guiado e conhecendo a ponte do Brooklyn (não conhecia ainda) e um parque que beira o rio e dá para ver Manhattan e a Estátua da Liberdade – um lugar muito belo bem no pôr-do-sol. A grande surpresa, na verdade, foi ir até o Harlem e conhecer de verdade a multidiversidade de uma das maiores cidades do mundo (aliás, vocês sabem quem é maior? NY ou SP?)

Muitas pessoas se sentem deslumbradas ao chegarem aqui, quase todo lugar que se passa é um cartão postal ou uma locação cinematográfica, tudo parece familiar e curiosamente belo e novo. Mas na verdade existem muitas pessoas que não conseguem encontrar o grande “Q” que é a cidade por ela, justamente, se parecer com qualquer outra grande cidade em sua familiaridade, e a culpa disso é da diversidade multicultural. Por onde se anda é possível encontrar brasileiros que vêm para visitar ou moram aqui por um tempo, ou seja, não há grandes mistérios para perambular pela cidade sozinho, fale português algumas vezes e logo encontrará alguém para ajudar. Há o grande peso latino que torna a cidade bilíngue, muitos anúncios são em espanhol, muitos canais de televisão tem dublagem em espanhol (a HBO 2, que no Brasil é o canal dublado para os brasileiros, aqui é para quem tem como língua mãe o idioma da Espanha). E não só isso, em Flushing, um dos bairros mais afastados do Queens, se concentra grande parte de uma comunidade de coreanos – tudo (e tudo é muita coisa) lá é escrito em coreano, e pedir um lanche no McDonald’s pode ser o maior desafio da sua vida (Royale with Cheese é muito anos 90 mesmo). Sem contar os pequenos “bairros” cujo nome já denucia suas origens: Chinatown, Little Italy, Korean Town; ou as ruas como a Little Brazil – onde a maioria é cubano, vai entender…

Voltando ao Harlem, uma vizinhança predominante pelos afro-descendentes, há um espaço para os latinos chamado Spanish Harlem e lá apareceu uma das maiores surpresas da minha viagem: os shows locais. Imagine quando você anda pela cidade e vê aqueles posters anunciando eventos de Batom na Cueca, Aviões do Forró, Calcinha Preta, entre outras, só que aqui são essas bandas “locais” (vindas predominantemente da República Dominicana) que lotam casas de show no final de semana. Um dos destaques, pelo que minha pesquisa pode apurar, é El Varon de la Bachata, uma espécie de Roberto Carlos com Latino:

Meanwhile (Arrested Development feelings), fizemos os passeios turísticos básicos: Times Square, Central Park, Herald Square, Union Square e até no Planetário, etc; e saímos à noite para o Fat Cat, um bar de jazz que naquela noite específica tinha uma banda de ritmos latinos e um bar onde há jams de bluegrass (os instrumentistas chegam, veem o que sabem tocar em comum e tocam, simples assim). Não satisfeitos com esses roteiros culturais, fizemos o que bons americanos fazem depois de um dia de trabalho: ir a um stripclub (conhecido aqui como Gentlemen’s Club) chamado Private Eyes. Metade das dançarinas eram tão antipáticas que eu só dava gorjeta para ela parar de dar chutes no ar, outras pareciam travestis, mas a mais simpática, uma loira chamada Angel (que parecia uma menor, devo confessar), fazia um ótimo truque de agarrar a nota de um dólar com as nádegas. Infelizmente, a agenda e o curto tempo não nos deu oportunidade de ir a Coney Island e comer um cachorro quente – referência tirada do livro Só Garotos, de Patti Smith (aliás, a capa do livro é uma foto de Patti e Robert na orla da ilha que abriga um parque com a montanha-russa mais antiga dos EUA). No sábado, era hora de se despedir e levá-la até o aeroporto e me sentir sozinho (os amigos da NYFA voltaram para seus países) na cidade por duas semanas – apesar de eu ter prolongado a estadia para ver Foo Fighters no Madison Square Garden e John Forgety (fundador do Creedance).

Todavia, minha família saiu do mundo sem luz e água de Connecticut e vieram passear de uma vez por todas em NY. Encontramos uma prima que trabalhará a partir desse mês em New Jersey e fizemos o mesmo roteiro turístico da minha semana em um dia e meio até chegar a hora da despedida no aeroporto.

A única missão que me resta ainda é ver Woody Allen & The Eddy Davis New Orleans Jazz Band tocar na próxima segunda (o que ocorre toda segunda de setembro a dezembro, uma tradição de décadas) no The Carlyle – espero que isso seja o tema da próxima coluna!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.