Ana Terra (Erico Verissimo)

em 21 de junho de 2012

Nascido no Rio Grande do Sul em 1905, Erico Verissimo colaborou por muito tempo com os jornais Diário de Notícias e Correio do Povo, nos quais publicava seus desenhos e escritos. A primeira edição do autor foi o livro Fantoches, em 1932. O nome de Verissimo, contudo, só se tornou popular em 1938, data da publicação de seu best-seller Olhai os lírios do campo.

Durante os últimos anos de sua vida, Verissimo passou a se dedicar a um projeto audacioso, que deixou, no entanto, inacabado; uma trilogia que, atrelando os laços da ficção com a realidade, reconta o passado glorioso do Rio Grande, como era conhecido o estado do Rio Grande do Sul antes do século XIX.

Publicada em três tomos (O Continente, O Retrato e O Arquipélago), a trilogia O Tempo e o Vento reconta o histórico do Rio Grande do Sul a partir da epopeia vivida pela família Terra Cambará.

Em meio a tantas outras histórias, numa sucessão de gerações, a grandiosidade de Ana Terra, que fora originalmente concebido por Erico Verissimo como um capítulo da primeira parte da trilogia, exigiu um espaço particular. Logo, o que outrora era apenas um capítulo de O Continente se dissociou da publicação, assumindo as formas de livro (romance) e filme.

A narrativa que acompanhamos com o movimento das páginas do livro é das mais viscerais e trágicas. Ana Terra, silenciosa, sonha com o dia em que o vento soprará em direção ao norte, para Sorocaba. A mãe da moça, d. Henriqueta, conhecedora do temperamento imperativo e teimoso de seu marido, Maneco Terra, procura a todo custo desencorajar as utopias da jovem, tentando privá-la de um sofrimento tão certo quanto iminente.

A despeito do tempo e das condições de vida da família, o sonho da moça resiste junto à esperança de dias melhores. Esses fatores dão à Ana Terra a consistência necessária para vencer quaisquer adversidades que porventura se imponham em sua monótona labuta diária.

Num dia de grandes rajadas de vento, Ana Terra encontra ferido em meio a mata o mestiço Pedro Missioneiro. A surpresa da descoberta deixa a moça em êxtase, perdida entre o assombro e o interesse despertado por aquela figura humana que mais parecia uma resposta do mundo, talvez uma solução, acerca da possibilidade de uma vida além dos hectares de terra pertencentes à família.

Com a permissão de Maneco Terra, Pedro Missioneiro passa a morar e trabalhar nas dependências da família, junto aos irmãos e ao pai de Ana Terra, que entre o asco e o desejo, sucumbe ao que parece a primavera de seus instintos carnais.

Meses se vão até Ana Terra sentir fortes contrações no interior de seu ventre. A gravidez da moça, então, leva a família a uma atitude desesperada. Maneco, alegando temer pela honra do nome da família, ordena que os irmão de Ana Terra executem o mestiço. Como a moça se lembrará mais tarde, aquela foi uma noite de grandes, terríveis vendavais.

Ana Terra, sem os cuidados da mãe, que falece subitamente, vê-se desamparada. Decorrido algum tempo, Pedrinho nasce e cresce, mas continua sendo ignorado pelo resto da família. O destino trágico da moça se insinua ainda mais quando repentinamente um bando de saqueadores castelhanos invade as propriedades da família e assassina Maneco, seus filhos homens e alguns servos. Na ocasião, para salvar a vida de Pedrinho e de sua nora, que já a algum tempo morava com eles, Ana Terra envia-os para um esconderijo no meio do matagal, enquanto ela mesma padece os abusos dos castelhanos.

Depois do episódio, a moça parte com o filho e a nora para Santa Fé, lugar onde vê Pedrinho se tornar homem e casar, até que, enfim, ao servir por muito tempo como parteira, regressa ao pó de onde veio, à terra.

No decorrer do romance, o realismo e a verossimilhança impressos pela história de Ana Terra advêm tanto do viés histórico-social da narrativa, por meio do entrelaçamento de histórias ficcionais com a reprodução de acontecimentos referentes ao passado do Rio Grande do Sul, quanto dos traços culturais exibidos e de uma construção linguística singular aplicada a cada personagem.

O traço de modernidade da obra de Erico Verissimo está em apresentar “a vida como ela é”, negando os formalismos ao afirmar as variantes linguísticas e os traços socioculturais na apropriação e no uso da língua por uma determinada comunidade. Assim, as poucas falas de Pedro Missioneiro são marcadas pela mesclagem entre o castelhano e o português; já dos Terra brota um linguajar tipicamente “gauchesco”.

Além disso, colaborando para a encenação do romance, elementos do folclore e da cultura gaúcha são retomados no texto, num discurso de revalorização das raízes culturais do povo gaúcho.

Em todo o tempo, cada um dos acontecimentos importantes na vida de Ana Terra e sua família são impressos pela marca do vento. Sensível à voz muda — ora mansa ora agressiva — dos vendavais, ela sabe ouvir e sentir a aproximação das mudanças anunciadas por essa força invisível. Tal capacidade de entender os sinais do tempo concede à Terra uma visão singular dos fenômenos naturais. Para ela, o vento se tornou uma propriedade quase mística do tempo para anunciar algum acontecimento marcante; uma força impulsora que conduz e transforma tragicamente a trajetória humana. Com o vento, vão-se as coisas passadas, se limpa o terreno e prepara-se o caminho para outro futuro vendaval.

É assim que a ventania, como agente do tempo neste romance, vai delineando a matéria de geração a geração, trazendo à luz as formas outrora obscuras, ou ainda, como bem apresenta Salomão em Eclesiastes 1:4-6:

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.

            A visão da vida como um acontecimento efêmero, tal qual um sopro, é incorporada por Verissimo para comunicar aos seus leitores o estado imutável da existência. Acompanhando as sucessivas gerações da família Terra Cambará ou mesmo o microcosmos de Ana Terra, observa-se que, a despeito da passagem do tempo, “o que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol”, ou, de acordo com as palavras do romance:

Porque quanto ao resto, um dia era a cópia de outro dia, em que ela [Ana Terra] trabalhava de sol a sol, em casa e na lavoura, fazendo serviço de homem. Para Ana não havia domingo nem dia santo. De vez em quando ela saía com sua tesoura para cortar algum cordão umbilical. Ou então ia a algum enterro. Por que pessoas continuavam a nascer e a morrer naquele fim de mundo#.

Verissimo, dessa forma, celebra e valoriza o Brasil por intermédio do louvor ao Rio Grande do Sul. Mesmo com o regionalismo indissociável de sua obra, o autor deve ser entendido como nacional, no sentido de que recupera traços da cultura sulina para tecê-los na grande cultura nacional. Seus personagens, por isso, são brasileiros muito antes que rio-grandenses; dessa maneira, eles se configuram como símbolos universais (e não apenas regionais) da identidade de nossa nação, característica esta que torna possível que ainda hoje os leitores de Verissimo se identifiquem e reconheçam tanto elementos humanos quanto outros tipicamente brasileiros nas narrativas do autor.

A personalidade singular e múltipla de Ana Terra bem mereceu uma publicação própria. O livro, assim, elogia a figura feminina ao apresentar uma protagonista como Ana Terra, mulher de força inabalável, ávida por continuar respirando, e que, mesmo oprimida e enclausurada pelo machismo e patriarcalismo de sua geração, não se deixa afetar pelas tribulações e tragédias sucessivas, antes continua, de sol a sol, carregando o seu fardo sob o ímpeto do tempo e o vento.

Sobre o autor: hugo otávio cruz reis sonha com o dia no qual se tornará editor. Enquanto isso, estuda (muito) no curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), trabalha como estagiário durante as tardes frias e quentes de São Paulo, estuda inglês duas vezes por semana, planeja iniciar um blog profissional, e, quando a noite finalmente vence sua resistência, volta a sonhar.

Ana Terra

Páginas: 112

Sugestão de Preço: R$ 25,50

4 comentários para “Ana Terra (Erico Verissimo)

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