Como tantas garotas iugoslavas de sua época, os pensamentos de Zlata Filipović, nas primeiras entradas de seu diário, são dedicados às brincadeiras com as amigas, as férias no interior, o mundo da moda e os programas da MTV (“Nº1: New Kids on the Block”, ela anota). É também uma boa aluna e se preocupa em manter suas notas altas. Mas subitamente tudo isso é interrompido, e ela se vê transformada em uma das “crianças da guerra”. São os tempos da dissolução da Iugoslávia, em que os conflitos separatistas se sucedem pelos Balcãs, e Sarajevo, a cidade onde Zlata vive com sua família, se torna um dos principais palcos na disputa pela criação da atual Bósnia e Herzegovina.

Em 5 de abril de 1992, ela escreve: “Digamos simplesmente que se sente que alguma coisa vai acontecer, já está acontecendo, uma terrível desgraça.” Não por acaso, essa é considerada a data de início do Cerco de Sarajevo, o mais longo dos tempos modernos. Após a declaração de independência, que teve apoio da maioria bosníaca e também dos croatas, as forças sérvias (que controlavam a maior parte do exército), haviam se deslocado para as colinas próximas à cidade, de onde passaram a atacar com canhões, morteiros e rifles de longo alcance.

A partir daí, O diário de Zlata passa a ser principalmente um relato do cotidiano de ataques, do alívio (mas também da saudade) pelos amigos que conseguem deixar a cidade e da maneira como aqueles que permanecem são obrigados a se adaptar a condições cada vez mais graves. Aos poucos, passa a faltar de tudo: comida, eletricidade, água, gás. Parte dos quartos são considerados inseguros, porque estão voltados para as montanhas, e têm que ser abandonados, e várias noites são passadas no porão. O risco é constante e imprevisível. A certa altura, Zlata comenta que ao menos seu tio mora em uma região mais segura da cidade; alguns dias depois ele recebe um tiro a caminho do trabalho e quase precisa amputar uma das pernas.

Quando fala da guerra, a descrição de Zlata assume um tom mais objetivo, quase adulto. Mas ela mostra também muita sensibilidade para perceber os horrores da guerra além dos seus problemas imediatos. Chega a ser realmente tocante a maneira como lamenta o desaparecimento da sua própria história e da história de seu país. Primeiro é o antigo prédio do Correio que se perde, vítima de um grande incêndio. Depois a Vila Olímpica (das Olimpíadas de Inverno de 1984) e mesmo a maternidade em que ela nascera. Tudo isso ela precisa assistir: a destruição de uma das mais belas cidades da Europa.

Aos poucos, o conflito que se esperava provisório vai se estendendo, com sinais que se acumulam até nas menores coisas: após conseguir finalmente autorização para visitar seus avós, depois de meses de afastamento, Zlata percebe que seus sapatos já estão apertados. E mesmo as circunstâncias da guerra vão se tornando quase habituais. Ter luz ou gás passa a ser a exceção, e ela faz anotações como: “Uma boa notícia: O GÁS VOLTOU! YESSS!”

Na parte publicada de seu diário, que abarca quase 2 anos de guerra em Sarajevo, e tirando os momentos em que adoece – e são vários – Zlata consegue manter em geral uma atitude positiva. É possível também que seus pais lhe tenham poupado das situações mais duras. A certo ponto, Zlata comenta que seu pai já emagrecera 25 Kg e que tanto ele como sua mãe já pareciam envelhecidos e cansados. Com a continuação dos atritos entre bósnios, sérvios e croatas, mesmo o otimismo de Zlata vai se esgotando. Em alguns momentos ela se desespera e acredita que a guerra não terá mais fim.

Mas afinal, qual o sentido de usar um diário infantil como relato de guerra? Acredito que O diário de Zlata pode responder a essa questão em diversos pontos. Primeiro, Zlata mostra que na perspectiva inocente de uma criança é absurdo que os horrores da guerra não possam ser evitados de maneira diplomática. Para ela, os políticos de seu país se comportam como “moleques”. Ela deplora discussões políticas, para ela, como para todas as crianças, a necessidade da paz é auto-evidente. Segundo, mesmo sob as piores circunstâncias, ela é capaz de mostrar alegria. No período em que diminuem os ataques, ela rapidamente volta a se engajar nas atividades da escola e a comentar, por exemplo, sobre a rotina de sua nova gatinha. Na foto que ilustra a capa do livro, Zlata aparece sorrindo frente a um soldado de capacete azul (provavelmente das forças da ONU): é essa capacidade de continuar sorrindo que também se busca nas crianças. E por fim, tanto por uma disposição natural quanto pela conjunção dos dois pontos anteriores, as crianças são símbolo de esperança. Não é à toa, portanto, que Zlata tenha sido procurada para que se publicasse seu diário: buscava-se enviar uma mensagem às forças envolvidas no conflito e ao mundo como um todo, um apelo a favor da paz.

Se a comparação com o diário de Anne Frank é inevitável, esse é um ponto que vale a pena destacar: no caso da adolescente alemã, suas anotações foram publicadas apenas quando já havia terminado a guerra, como um marco na história, para que as pessoas não se esquecessem do Holocausto. Talvez por isso, ao perceberem que a mensagem de Zlata havia falhado e que as hostilidades continuariam (e de fato o cerco a Sarajevo só terminaria em 1996), os responsáveis pela sua divulgação tenham se dado conta que seria terrível criar um novo precedente. Com isso, no final de 1993 a garota bósnia foi levada a Paris, e dali a Dublin. No final, percebeu-se que seria imoral manter uma criança como correspondente de guerra. Claro, convenhamos, deveria ser imoral manter qualquer criança em uma guerra.