Melhores Leituras de 2012 II

em 28 de janeiro de 2013

No dia da estreia do nosso sítio colocamos as melhores leituras por escritores, editores, jornalistas, entre outros convidados. A única regra era escrever um parágrafo sobre a melhor leitura no ano de 2012, não era necessário ser lançamento tampouco um clássico. E como queremos manter essa tradição acesa por muito tempo não poderíamos, é claro, deixar de compilar a lista da equipe que escreve aqui para o Posfácio. Sem mais delongas, nossas melhores leituras de 2012:

FelippeOs enamoramentos, de Javier Marías. Li livros geniais no ano de 2012, passei de Matadouro 5 para o clássico minimalista de Juan Rulfo Pedro Páramo, depois um novo livro de Enrique Vila-Matas após conhecê-lo, o primeiro romance de Leonard Cohen, antes de ele ser Leonard Cohen. Contudo, eu tenho meus vícios e um deles é Javier Marías. Os enamoramentos é arrebatador. Romântico, tenso, tocante e repulsivo. O que é o amor afinal? O que é estar apaixonado? Quais as consequências que se faz por um amor? Javier Marías passa do platônico ao amoroso sem errar a mão. Momentos de humor e “oun” estão presentes, mas não dá pra se enganar: há sempre mais nos textos do Marías. Podemos julgar os personagens como inescrupulosos e também como ultra-românticos. As menções honrosas ficam com a grata, e minha, surpresa de Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, e da tradução de ensaios de David Foster Wallace Ficando longe do fato de já estar meio longe de tudo.

LucasMemorial do convento, de José Saramago. Num ano em que conheci ótimos escritores e obras excelentes, tais como Nicole Krauss, Bruno Jasiénski, Henri Barbusse, Honoré de Balzac e outros mais, meu voto vai para Memorial do convento, do português José Saramago. A escrita é intrincada e ao mesmo tempo popular, juntando falas, ditos populares, eventos históricos, histórias de amor, um talento absurdo na pontuação e na narração. Eis então que temos um grande romance, uma obra que, para mim, é um dos melhores romances históricos, quiçá um modelo. Flexibilizações de gênero à parte, Memorial do convento é um livro que consegue tratar do amor de uma forma diferente, fazendo a relação de Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas ao mesmo tempo realista e romântica, e juntando o melhor de dois mundos. O livro consegue inserir esse romance nas tramas da História, e fazê-lo florescer ao mesmo tempo em que o Convento de Mafra e Portugal são construídos, processos, aliás, que são tratados primariamente como eventos humanos, que envolvem homens de carne e osso, suas mazelas, seus dissabores, suas alegrias e seus sonhos. É tão subversivo quanto belo, é capaz de ser, a um tempo, acidamente crítico e profundamente sensível. Enfim, uma recomendação de leitura e tanto.

infinite-jest-coverSimoneInfinite Jest, de David Foster Wallace. É até chato escolher um livro que te faça sentir burro, que canse os braços de tão pesado, que quase mate de desespero com as infinitas notas de fim que possuem notas elas mesmas… mas não existiu outro livro pra mim em 2012 (quase literalmente, pois o desgraçado ocupou várias semanas). Nele existem milhares de conexões perdidas e ligações entre dúzias de personagens, e ainda assim existe espaço suficiente para se apegar até ao mais desprezível deles. Além disso, é cheio de humor cruel e inesperado, que faz enfiar a cara no travesseiro no meio da madrugada pra não acordar ninguém com as risadas em um trecho que, supostamente, era trágico. Nada fará muito sentido e você não vai ter certeza do que está acontecendo por muito tempo, mas ao fim vai saber que David Foster Wallace era incrível e Infinite Jest, onde ele esbanja sobre vários temas, não decepciona em demonstrar isso.

Tuca: Seu corpo figurado, de Douglas A. Martin. Como é contra a minha religião escolher um livro de um de meus autores favoritos vivos (na real, só quero manter a sanidade evitando escolher entre Norwegian WoodLuna Clara & Apolo OnzeBarba ensopada de sangueAs iniciaisQuem poderia ser a uma hora dessas?Extremamente alto & incrivelmente pertoPó de parede, Dans mes yeuxA máquina de GoldbergRYOTIRAS Omnibus, Cigarros na cama e n.d.a — sim, esse é um livro de verdade: são poemas do Arnaldo Antunes), vou de Seu corpo figurado, de Douglas A. Martin. Um livro que não é exatamente fácil, mas que me fez ter vontade de mergulhar fundo em suas possíveis ressonâncias, o que resultou em uma grande multiplicidade de interpretações como há muito um livro não suscitava. E não é num paragrafinho que vou falar sobre todas elas — falei mais sobre o livro na minha coluna intitulada TOC do Tuca: Cinquenta tons de cinza e numa resenha para o Jornal Rascunho intitulada Máquina de sentidos. Tentando resumir, o livro é uma espécie de biografia em segunda pessoa de um poeta, um pintor e um “muso” (na medida em que um modelo passa a ser o principal tema da pintura de alguém), todos eles pessoas que existiram realmente; uma das principais recorrências entre as três narrativas é a questão da representação do corpo na arte. É, basicamente é isso. Mas, como disse antes, é muito mais. Outros destaques do ano: A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan; A culpa é das estrelas, de John Green; Fama: um romance em nove histórias, de Daniel Kehlmann; Um homem só, de Christopher Isherwood; Antonio, de Beatriz Bracher; e Meio intelectual, meio de esquerda, de Antonio Prata.

VolcofEnsaio Autobiográfico, de J.L. Borges. Entre os romances e as novelas, entre os contos e as poesias, foi essa fragmentada compilação de pensamentos-sentimentos borginianos que fizeram meu ano literário mais feliz. Borges é amado, é reverenciado e, sobretudo, incita em cada leitor um desejo por decifrá-lo. Borges, a Esfinge argentina, o oráculo quase-cego, entrou em minha vida há pouco, mas de forma impactante tal qual Guimarães Rosa com suas Primeiras Estórias (leitura que também realizei nesse ano de 2012 em que o mundo não acabou). Nessa obra do argentino, a delicia que ler seu primeiro poema, de ouvir sua cálida voz contar estórias da infância, de pulsar com suas narrativas de viagens, de acompanhar sua formação intelectual e senti-lo perto de nós, ao menos por um tempo, quebrando os limites do paradigma tempo/espaço como só um mago como ele conseguiria fazer. Um livro para beijar a capa ao finalizar a leitura.

GigioAmanhã, na batalha, pensa em mim, de Javier Marías. Pelo apuração parcial das escolhas do censo Posfácio, o livro mais amado em 2012 foi Os Enamoramentos, que devo oferecer também como candidato a melhor leitura, em 2017. Sei que desde comecei com o Marías não passei um ano sem que seus livros estivessem entre os mais queridos, até inventar essa tradição parte obsessão parte reverência (não digam “mania doida”) de um Marías por ano. E em 2012 foi a vez de Mañana en la batalla piensa en mí (y caiga tu espada sin filo: desespera y muere). Mais uma história sobre estranhos relacionamentos, sobre um homem que pretende se deixar envolver numa traição conjugal e acaba sendo a única testemunha dos momentos finais de sua ex-futura-amante. Mais uma oportunidade para seguir sua narrativa envolvente, na sua sensibilidade para as sutilezas que nos ligam às outras pessoas, que vai tomando corpo e formando recorrências do que antes eram apenas coincidências (e caia tua espada sem fio: desespera e morre).

Michael Swanwick

Michael Swanwick

GigioTales of Old Earth, de Michael Swanwick. Volto para eleger especialmentte um favorito em 2012 do lado mais livre, aquele em que vale falar também de magos-cientistas que habitam gafanhotos gigantes e trens expressos noturnos para o inferno. Nesse campo poucos são tão criativos quanto Swanwick, que é capaz de entregar várias ideias mind-blowing na sequência de contos de Tales of Old Earth (infelizmente sem tradução para o português, como todas as suas obras). Em um ambiente em que alguns poucos “tipos” são repetidos exaustivamente (pós-apocalíptico, zumbi, pós-apocalíptico COM zumbi, etc), é bom descobrir um livro que ainda preze pela variedade e a originalidade.

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