Leitores de poesia estoniana do século XVIII e seus amigos

em 7 de março de 2013

É estranho como às vezes as pessoas desenvolvem interesses muito específicos. São vontades sistemáticas de se apropriar de hábitos, culturas e habilidades especiais, referentes a um hobby ou um campo de conhecimento. É só um pensamento que me ocorre com frequência e pensei para esta coluna. São muitos os que, desde a infância, procuram memorizar capitais de países, colecionar jogos de uma determinada série, saber todos os planos de um filme ou algo do tipo. Pode ser real interesse no assunto ou só uma obsessão, dependendo da pessoa. Em muitos casos, parece que quase chegamos à demência de tanto gostar de alguma coisa.

O fato é que isso se estende para a literatura, o cinema, a música. Há exemplos entre escritores e colaboradores deste site, o que com certeza me dá mais razões para pensar nisso o tempo todo. Por exemplo, o Luciano desde que o conheço está obstinado a ler tudo que é escritor do leste europeu, de preferência os marginalizados socialmente (judeus, homossexuais, libertários). Muitas vezes me pego pensando: “será que é só uma obsessão ou ele realmente vê algo em tudo que é autor desses países?” Logo depois, olho para mim mesmo e percebo que também tenho meus interesses específicos demais. Afinal de contas, eu mesmo fui uma daquelas crianças que decorava capitais.

Já me perguntei algumas vezes quais são meus interesses. Seriam eles únicos? Ou só eu não conheço gente que também gosta das mesmas coisas que eu? Difícil dizer que sou único. Cada vez mais tenho consciência dessa dificuldade. Ainda mais agora que me mudei para a maior cidade do país e que vejo tanta diversidade cultural acontecendo na minha frente. A primeira reação, a mais instintiva, parece ser sempre a de repulsa para várias pessoas; já eu tenho fascinação pela peculiaridade de cada um. Além do Luciano, conheço aficionados em filmes italianos de suspense dos anos 60 e 70, leitores assíduos de qualquer texto de Roberto Bolaño, conhecedores de vários idiomas de uma mesma família linguística. Eu mesmo constantemente sou lembrado do fato que pesquiso um autor que as pessoas mal conhecem, mas que, na minha cabeça, é dos mais importantes do século XX; ou ainda de que me fascino demais pelas fotos coloridas do set de um filme em preto-e-branco que quase ninguém mais considera tão especial.

Desenvolvemos sistemáticos processos de aquisição de conhecimento sozinhos, como que por autodidatismo, e sentimos muito prazer com isso. Algumas vezes, até conseguimos transmitir essa sensação a outros, que também começam a gerar certa obsessão pelo assunto. Nessas horas, aquela velha afirmação de que todos nós sabemos algo muito bem quase vira verdade. Ainda assim, por quê? Por que não nos interessamos pelas mesmas coisas? Só sei que hoje, em São Paulo, com livros de Robbe-Grillet ao meu lado, ouvindo música feita com sintetizadores dos anos 70 em pleno século XXI, só sinto vontade de seguir com isso adiante e conversar com meu amigo colorido que não para de ver filmes com Carroll Baker e ouvir canções pop italianas dos anos 60. Esse tipo de relação misteriosa que estabelecemos com os outros é só o que me parece certo no momento.

p.s.: caso mais alguém se interesse, as fotos coloridas do set de um filme em preto-e-branco são de L’année dernière à Marienbad (1961), dirigido por Alain Resnais e escrito por Alain Robbe-Grillet.

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