A paz dura pouco (Chinua Achebe)

em 15 de março de 2013

Informações

  • Autor: Chinua Achebe
  • Tradutor: Rubens Figueiredo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 200
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 38,00

Conforme havia escrito na resenha de O mundo se despedaça, gosto da maneira como Chinua Achebe consegue conciliar as possibilidades de extensão dos livros da trilogia africana – i.e., a “duração” da trama – com os movimentos da história dos povos da África. Embora os ibo sejam os protagonistas dessas histórias, a condição em que se encontram e a trajetória histórica que palmilharam ao longo de sua existência acabaram por lhes dotarem de interessante potencial arquetípico.

Tendo em vista essa característica da literatura de Achebe, o segundo volume da série, intitulado A paz dura pouco e publicado em 1960, encontra os descendentes de Okonkwo vivendo em uma realidade muito diferente daquela em que viviam no livro O mundo se despedaça. A trama continua a se passar na Nigéria, mas os movimentos e reviravoltas da história se encarregaram de criar um novo cenário para que os Okonkwo vivessem suas vidas.

Ao final do primeiro livro, somos deixados às vésperas da completa desestabilização do modo de vida tribal ibo, aquele em que Okonkwo vivia, em Umuofia. Um colonizador europeu encontrava-se deitando os olhos por sobre a região onde habitavam Okonkwo e seu clã, sendo essa cena o prefácio de A paz dura pouco. É essa cena que sintetiza o longo e árduo processo pelo qual a “antiga África” vai sendo feita um protetorado e transformada de cima a baixo.

Os filhos e netos dos moradores de Umuofia, no entanto, continuam vivos apesar da destruição de boa parte de seus pontos de orientação existencial, fossem eles as tradições e a cultura, ou fossem eles as práticas diárias e o território ocupado pelo clã. O dilema retratado por Achebe é o da transição daquele mundo antigo para esse novo, um processo que pode parecer muito evidente do ponto de vista material – como a destruição das aldeias e construção das cidades, por exemplo –, mas que é muito mais longo e dramático do ponto de vista humano e subjetivo – as transformações de valores, da cultura, do dia a dia, das tradições, da visão de mundo, etc.

As cidades são apenas um dos pontos mais espetaculares dessa transformação e é nela que encontramos os antigos moradores de Umuofia. Na região de Lagos encontramos, inclusive, a União Progressista de Umuofia, uma organização que reúne os ibo que tinham esse passado comunitário e que, devido à tradição coletiva que os envolvia, buscavam encontrar formas de ajudarem-se mutuamente na nova – e bem menos acolhedora – realidade nigeriana.

É às expensas dessa organização que o protagonista do livro, Obi Okonkwo, neto de Okonkwo, vai à Inglaterra para estudar Direito. A esperança desse apoio é que Obi, uma vez formado e de volta à Nigéria, possa ajudar aos seus pares através da educação e do conhecimento que recebera quando de sua estadia no estrangeiro. Uma vez que as estruturas governamentais e burocráticas estão se formando, e uma vez que essas mesmas estruturas estão intimamente entrelaçadas com os interesses britânicos (a Nigéria, oficialmente, se tornou independente somente em 1960), a possibilidade de ter alguém conhecido em um cargo oficial é de grande ajuda para melhorias e beneficiamentos, sejam eles da que natureza forem.

A história de A paz dura pouco começa com a discussão de alguns sujeitos sobre o fato de Obi ter aceito suborno. A constatação inicial desse fato é o que desencadeia o restante da história, pois Achebe quer voltar no tempo ficcional e apresentar-nos a história de Obi antes que o fato que abre o livro – a aceitação do suborno. Essa estratégia é deveras interessante, pois toma um fato aparentemente pronto e acabado para desvendá-lo em sua especificidade, ou seja, buscando entendê-lo em suas próprias circunstâncias e em seu próprio ritmo.

Seguindo, pois, a narrativa de Achebe, descobrimos que Obi mudou seu curso quando na Inglaterra, passando a dedicar-se ao estudo da Língua Inglesa. Descobrimos também que na Inglaterra ele se envolveu afetivamente com Clara Okenke, um romance deveras problemático. E descobrimos, por fim, que de volta à Nigéria, Obi foi indicado a um cargo na estrutura burocrática, onde passou a ser alvo de diversas investidas por parte de outros nigerianos, os quais, através do suborno, buscavam nele uma possibilidade de ascensão e de algum benefício que não conseguiam por outros meios.

Essa situação constitui o coração da narrativa, pois o drama da história sedimenta-se precisamente da condição de Obi: desejando cultivar uma conduta respeitadora das leis mas, ao mesmo tempo, às voltas com as tentadoras ofertas, tanto dos subornos quanto do salário e seu potencial de consumo. Achebe investiga o choque dessa situação objetiva vivenciada por Obi com seus escrúpulos, procurando compreender como suas atitudes e questionamentos se dão nesse mesmo contexto.

Devedor dos préstimos da União Progressista de Umuofia, Obi sente-se compelido a não só pagar uma quantia mensalmente – para beneficiar algum outro jovem ibo –, quanto, também, sente a pressão do compromisso de estar à altura das esperanças depositadas nele por parte dos outros umuofianos. Ele não pode simplesmente virar as costas às pessoas que o ajudaram a chegar até aquele ponto. Ao mesmo tempo, as ofertas de suborno, de enriquecimento individual e de luxos que lhe batem à porta são provações que ele se vê compelido a enfrentar quase diariamente.

Recusando diversas ofertas, inclusive de favores sexuais, Obi vai compreendendo que os pedidos de suborno são mais do que ofertas mesquinhas ou tentativas de vantagem pessoal. Por um lado, Obi considera uma traição para com os seus a aceitação de qualquer suborno, já que isso beneficiaria os pecuniariamente abastados em detrimento dos demais, empobrecidos. Pelo outro, o suborno aparece como um dos caminhos possíveis dentro das condições subalternizadas da Nigéria e das (poucas) oportunidades dela advindas. A batalha ética que ele trava em seu espírito é, na verdade, uma batalha encampada em âmbito social.

A pretensa estabilidade material que o salário de funcionário do governo deveria proporcionar se mostra uma quimera, pois a sedução do consumo e as expensas de sua nova condição social lhe provam o contrário. A diferença entre o mundo de Okonkwo avô e Obi não podia ser maior.

Contudo, a relação de Obi com Clara mostra que os laços antigos, aqueles que, ao contrário das transformações materiais, demoram gerações para sedimentarem-se e serem completamente processados pelos sujeitos, esses não estavam de todo rompidos. Clara é uma osu, a descendente de uma família que, no passado, cultuou um deus que não fazia parte dos cultos tradicionais ibo. Isso faz dela uma pessoa impura, a quem a tradição antiga proíbe o casamento. Além de todos os dilemas com relação a seu cargo, Obi tem de lidar com mais esse.

A condição de Clara parece, por um lado, algo que não possui tanto peso, uma vez que as tradições antigas tinham sofrido forte abalo. Porém, por outro lado, essas mesmas tradições permanecem fortemente arraigadas apesar de seu enfraquecimento ao longo tempo e da modernização da vida na Nigéria. A confrontação de Obi com relação a essa dualidade em que passado e presente encontram-se vivos é um dos pontos altos do livro de Achebe.

Assim, aos poucos, se forma a grande construção que é o romance A paz dura pouco: a persona de Obi catalisa conflitos que eram experimentados amplamente pelos nigerianos nesse novo contexto trazido por sua peculiar evolução histórica. A organização recente das estruturas administrativas da Nigéria deixava ainda bastante espaço para a corrupção, e o entrelaçamento subalternizado dessas estruturas com os interesses britânicos lhes legaram uma carga ainda mais onerosa, vivendo sob o peso da condição de protetorado. As estratégias dos antigos moradores de aldeias e membros de tribos vai se coadunando com as novas realidades criadas pelo desenvolvimento histórico, sejam elas a burocracia e a modernização, sejam elas a urbanização e os empregos assalariados. Trata-se do passado tradicional num ambiente moderno ou em vias de modernização.

Através de um personagem com uma trajetória existencial emblemática, Achebe nos conduz por entre os dilemas da realidade nigeriana. Os questionamentos éticos de Obi, por exemplo, se estendem para além de sua situação individual, constituem-se experiência de caráter social de um determinado ponto no desenvolvimento histórico do país. A confrontação de Obi com seus valores perante sua relação com Clara constitui-se numa outra situação posta pelo desenvolvimento histórico nigeriano: a resistência de determinados valores e o choque entre eles e os novos valores em ascensão e consolidação.

Com uma prosa precisa, Achebe vai nos contando a história da Nigéria, seja através do chefe de um clã que vê seu mundo sendo despedaçado, seja através de um funcionário governamental se digladiando com seus próprios princípios morais. Em ambos os casos o escritor nos leva, por meio da história individual dos personagens, a apreender e refletir sobre as circunstâncias nas quais eles existem. Trata-se, de fato, de um exercício de interpretação e criação ficcional, que engloba tanto a literatura quanto o engajamento lúcido. Ficção e realidade são mesmo faces de uma mesma moeda, intrinsecamente ligadas.

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