Nossas Apostas para o Nobel 2011- parte II

em 20 de setembro de 2011

Eis aqui a segunda parte das apostas para o Nobel de Literatura desse ano. Agora é a hora em que realmente apostamos: eu e o Tiago apontamos, cada um, cinco autores que pensamos terem a maior probabilidade de serem escolhidos para receberem o galardão da Academia Sueca de Literatura.

Vale lembrar que as escolhas não são aleatórias: a Academia Sueca de Literatura deve obedecer o testamento de Alfred Nobel e premiar o escritor que ‘mais auxiliar no desenvolvimento da humanidade, fazendo isso na melhor direção possível’. É claro que isso é bastante subjetivo e a Academia tem suas tendências políticas, além de ser influenciada por inúmeros fatores ‘externos’ (nós discutimos tudo isso na primeira parte).

A terceira (e última) parte das nossas apostas deve sair no mês de outubro, logo depois de o comitê do Nobel anunciar o vencedor.

Tiago:

Cees Nooteboom: Desde sempre, espero que Nooteboom ganhe o Nobel. E a cada ano, acredito que ele esteja mais próximo, com exceção de um pequeno intervalo entre 2002-2005, em que percebi que a Academia estava mais inclinada a se afastar dos indicados mais populares, mais esperados. No entanto, com a crise da União Européia, e mesmo da noção de “europeu” (além de mudança da própria comissão do Nobel, que parece estar agora mais inclinada a escolhas “seguras”), acho que a escolha de escritor holandês está entre as mais coerentes possíveis: é um escritor cosmopolita, grande defensor e pensador do desafio de criar um esforço conjunto entre diversos países do Velho Continente, algo que é claramente o centro motor de suas obras, principalmente de Dia de Finados. De quebra, vivenciou de perto todas as grandes crises da história européia dos últimos 70 anos, desde a Segunda Guerra até a Primavera de Praga e a Queda do Muro de Berlim. Com o risco de parecer um pouco insistente, ponho Nooteboom como meu favorito para o Nobel deste ano.

Peter Sloterdijk: fora da categoria restrita de “literário”, que nunca foi regra para o Nobel de Literatura, talvez esse filósofo alemão seja a escolha mais plausível. Assim como Nooteboom, é um grande pensador do conceito de “Europa”, longe de praticar qualquer euforia ingênua. Seu livro Crítica da Razão Cínica foi o primeiro livro de filosofia a entrar na lista da Alemanha em muito tempo, sendo uma grande influência para outros grandes filósofos como Slavoj Zizek, Giogio Agamben, Boris Groys, etc. Ainda que a língua alemã tenha sido privilegiada nas escolhas dos últimos anos, Sloterdijk ainda me parece uma grande opção.

Adonis: outro nome mais ou menos óbvio, que já participa das listas há muito tempo. Como dissemos, a Primavera Árabe é a grande bola da vez, e será difícil manter o olho no próprio umbigo frente a esse grande evento (ainda que a Academia possa se superar nesse aspecto, como nós dois esperamos). No caso de Adonis, que vem da Síria, além de ter participado da Guerra Civil Libanesa, tudo fica ainda mais especial. Como, com a eleição de Vargas Llosa, os suecos mostraram que não vão muito longe quando a coisa não é produzida na própria casa, acho que é mais provável que eles escolham algum nome com certa repercussão na Europa (o que favorece alguém como Tahan Ben Jelloun também). Além do mais, é um poeta, categoria da qual o prêmio tem ignorado desde Szymborska, ganhadora de 1996.

Ko Un: também nas listas há anos, a escolha deste poeta sul-coreano talvez seja a melhor maneira de prestar homenagem as lutas de sobrevivência no extremo oriente, inclusive as recentes tragédias no Japão e arredores. Monge budista, sua obra se estende para mais de 130 volumes, a maior parte deles conectados por um projeto que consiste em homenagear todo o ser vivente com quem o autor teve contato, mesmo que minimamente. De quebra, Ko Un foi um dos grandes lutadores pela democracia em seu país durante os anos 1970 e 1980, quando foi preso e encarcerado por 10 anos.

David Malouf: se der tudo errado, acho que a Academia vai fugir do fogo das questões do momento e se exilar lá longe, na Austrália, onde há muito tempo não dá as caras. Talvez o nome mais evidente aqui fosse o do poeta Les Murray, mas preferi o Malouf porque, se a Academia agora prefere a escolha mais segura, eu ainda prefiro acreditar que ela não vai pegar o mais óbvio dos óbvios. Conflitos identitários e a memória das culturas dizimadas na Austrálias são a base de seus romances.

Luciano:

Jon Fosse: Meu principal palpite. Dramaturgo, poeta, romancista, ensaísta e autor de livros infantis, Fosse é um das melhores mentes da atualidade. É suficientemente obscuro e reconhecido para que a Academia preste atenção nele e é europeu. Aliás, ele é norueguês, o que o favorece duplamente nesse caso: os atentados cometidos por Anders Behring Breivik em nome da intolerância apontam para a Noruega, mas ao mesmo tempo sinalizam um problema generalizado na Europa e, porque não, no ocidente; além disso o país não é membro da União Européia, mas participa de inúmeras outras uniões e organizações internacionais. No aspecto individual, Fosse tem uma obra extensa, que não chega ser popular, mas que é bastante respeitada na Europa. Destacam-se o romance Melancholia, sobre a vida do pintor Lars Hertervig, e sua extensa produção dramatúrgica.

Vassilis Alexakis: Escritor grego radicado na França que escreve nos dois idiomas. Autor de romances, ensaios, contos, aforismas, guias de viagem, roteiros de cinema e charges. Alexakis habita entre duas culturas – duas que encontram-se bastante envolvidas com a atual crise da Europa: a Grécia com a economia indo mal, o que leva muitos a duvidarem do futuro da União Européia; a França procurando defender-se dessa crise enquanto, dentro de suas fronteiras, parece aumentar a rejeição ao modelo de uma Europa unificada. Além disso Alexakis tem uma obra bastante celebrada por sua universalidade e por uma visão aguçada para os problemas da pós-modernidade.

Baldur Ragnarsson: Autor islandês que escreve em esperanto. Confesso que apostar nele talvez seja mais movido por uma vontade do que por esperança verdadeira de que ele seja escolhido, mas não abdico à lógica da aposta. Em primeiro lugar, a questão política: custo a acreditar que a Academia não apoie um projeto de Europa forte, de Europa unida, e a Islândia é um belo exemplo – apesar da recente crise econômica, ainda é um país que pode ser considerado rico e decidiu aderir à União Européia recentemente, mesmo com os problemas que alguns de seus membros vêem experimentando, o que pode ser perigoso para os outros. Além disso, existe toda a coisa do esperanto ser um idioma politicamente neutro e internacional. Soma-se a isso a singularidade e qualidade de obra de Ragnarsson, e minhas esperanças não soam mais tão carentes de lógica.

Elias Khoury: Novelista, dramaturgo e crítico libanês. As minhas razões para pensar nele são, obviamente, relacionadas às Primaveras Árabes. Mas existem peculiaridades quanto ao Líbano: é considerado o país mais democrático dentre todas as nações árabes, e há tempos estimula que o resto do mundo árabe ofereça mais liberdades civis a seus cidadãos. Porém, é um dos países que mais tem problemas com Israel, quiçá devido a serem vizinhos. Além disso, o Líbano passa por uma das maiores crises políticas de sua história, sendo que o último governo se desfez ao tentar montar um comitê de investigação que ligaria a morte de um ex-presidente ao Hezbollah. Khoury, além de uma obra proeminente, tem uma postura política democrática e bastante moderada. Foi um dos editores do Mawaqif, jornal político-literário do qual também fizeram parte Adonis e Mahmoud Darwish. Participou de alguns movimentos contra o revisionismo – é, aliás, uma das principais figuras árabes a pregar a paz com os israelenses. Suas obras tratam, via de regra, a respeito da vida do homem comum durante a guerra ou sob opressão.

Václav Havel: Mais uma aposta ‘perigosa’: Havel frequentemente tem sido cotado para ganhar um Nobel, mas não o de literatura, e sim o da Paz. Poeta, dramaturgo, ensaísta e contista, ainda pesa em seu currículo ser ex-dissidente do regime comunista tchecoeslovaco. Derrubado o regime, ele foi o último presidente da Tchecoeslováquia e o primeiro presidente da República Tcheca – até 2003. Ele foi contra a separação do país em duas partes, mas não teve apoio dos parlamentares. Foi ele, ainda, quem colocou o país (a República Tcheca) na União Européia. Ele é considerado um dos principais responsáveis por uma série de movimentos, documentos e declarações condenando os crimes dos regimes comunistas – algo que tem voltado a tona recentemente, com atitudes anti-comunistas (não anti-esquerdistas, que fique claro: na Europa Centro-Oriental ‘comunismo’ não é sinônimo de marxismo, mas sim tudo aquilo que se refere aos regimes que começaram na Segunda Guerra e duraram até o começo dos anos 1990) por parte dos governos tcheco e esloveno. E é, claro, um dos principais escritores vivos da República Tcheca – e quiçá um dos poetas mais importantes da Europa.

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