Breve história sobre leitores

em 29 de maio de 2013
  1. S.R.P. morava no interior de São Paulo com a mãe e a irmã. Desde pequena tinha um alto grau de miopia e tinha dificuldade de enxergar. O primeiro grande presente de sua vida foram seus óculos. Enxergou o mundo pela primeira vez e não queria deixar de enxergá-lo mais. Por isso, evitava correr com os óculos e fazer qualquer outra coisa que pudesse riscá-los. Adorava Yes, Led Zeppelin e Pink Floyd – preferia Gilmour a Rogers.

  1. R.M. era “dimenor” e adorava andar com os moleques da rua de baixo da sua. Saiu da casa da mãe e foi para a do pai. Lá, aprendeu a tocar guitarra com o irmão mais velho, fumar cigarro e maconha e ler uns livros aí. Começou com O Senhor dos Anéis, passou a Bernard Cornwell e Sherlock Holmes. Ouvia Deep Purple. A fase Coverdale.

  1. Além do rock, S.R.P. adorava ler. Quando a lista de materiais da escola chegava, ela alterava e aumentava a lista de livros, porque sua mãe não compraria nada que não fosse para a escola.

  1. R.M. começou a desenhar e entrou em curso técnico de designer; começou a namorar e a trair quando Nietszche chegou a sua prateleira. Não aprendeu alemão, mas francês.

  1. S.R.P. consolidou-se como leitora quando seu melhor amigo lhe apresentou Hermann Hesse. Mudou-se para São Paulo, prestou vestibular e hoje é doutora de doutorado mesmo.

  1. R.M. leu O Lobo da Estepe, xingou o chefe e foi para Paris. Entrou na Legião Estrangeira, conheceu uns artistas locais e voltou para São Paulo. Mudou para Recife e hoje vive em Luanda. Ainda é designer.

  1. Eu não sou R.M. tampouco S.R.P. Meu nome é F.S.C. e meu pai me obrigou a ler Diário de Um Mago nas férias de julho de 1999. A justificativa era: “Para não ficar sem fazer nada e pensar besteira.” Não adiantou muito, quando se é jovem sempre se pensa besteira, mesmo que ainda não se saiba a diferença entre uma besteira e uma não-besteira.

  1. Anos depois meu pai se redimiu. Comprou o livro que conta a história de Harry Haller e fizemos as pazes. Eu não sou doutor e nem moro fora do Brasil. Mas já fui num show do Deep Purple, sem Coverdale, e no do Roger Waters, que não suporta o Gilmour. Nunca vi Yes.

  1. Foi R.M. quem me apresentou esse romance de Hesse e que estava comigo no show do Deep Purple. E com S.R.P. conversei sobre O Lobo da Estepe e outros livros, além de fazer questão de oferecer meu ingresso para ir ao show de um ex-integrante do Yes.

  2. Uma música, um livro ou um filme podem marcar pessoas de uma mesma maneira, ou mesmo que diferente, elas terão uma ligação para uma citação, uma conversa de boteco ou para o que mais quiserem fazer com o intercâmbio que é a cultura. 1

  3. Nenhum dos três sabe onde está a sua cópia de O Lobo da Estepe.

  1. Hoje em dia ainda penso besteiras, mas novas.

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