As más-ótimas ideias

em 23 de outubro de 2013

Se uma pessoa se meter à curiosidade e ouvir a conversa da mesa ao lado, ou das rodas de escola, e vai saber de onde mais, talvez sinta as orelhas amortecidas por planos que nunca vão deixar de ser planos. Você já deve ter ouvido uma dessas promessas-anestésicas como “ largar tudo e vender coco na praia”, “ir pra uma rave e acordar com uma tatuagem”, que acabam ficando pra outra hora até que nunca mais. O novo romance da Carol Bensimon, Todos Nós Adorávamos Caubois, trata exatamente disso.

Cora e Julia falavam sobre uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Elas passariam por todas as cidadezinhas desconhecidas e com nomes engraçados, sem roteiro ou data pra voltar. O plano era uma faísca, que acendia e apagava na mesma velocidade, até que Julia se muda para Montreal enquanto Cora vai estudar moda em Paris. Anos depois, elas têm a chance de realizar essa viagem e vão.

Esse trajeto é também uma reconciliação. Trata-se não só de uma volta ao Brasil, mas também ao passado mal resolvido entre elas. O tempo todo, vemos as duas tentando recriar situações e conversas que tinham antes, além de tentarem descobrir o que mudou e o que permaneceu no tempo em que viveram separadas, e assim nós vamos conhecendo elas também. Logo no início, por exemplo, um desconhecido critica as botas de Cora, falando que elas são masculinas. Depois da discussão, a preocupação de Cora não é sobre as botas, mas sim sobre o que a Julia pensa de tudo aquilo.

“O que mais me incomodava, na verdade, era não saber o que Julia pensava a respeito. Está certo que ela tinha descarregado sua raiva depois do carro partir […] Mas aquele excesso de manifestações acabava surtindo o efeito contrário, o de aumentar a minha desconfiança.”

 

É bem  possível notar como os objetos ganham importância na narrativa. O clima em torno das botas levanta a primeira bandeira de Cora ser lésbica e ter namorado com Julia no passado. Mais adiante, Cora coloca um bracelete de Julia (presente do ex) e fica se olhando no espelho, mostrando exatamente como ela está ganhando o espaço dele. É assim também quando uma parte da infância de Julia é contada em torno de um vômito de plástico. São sutilezas como essas que deixam a leitura muito gostosa. Isso também se replica nos diálogos. Por vezes, o que é falado é muito menos do que elas pensam. São gestos como uma mão na perna, um sorriso ou o próprio silênico que compõem tudo que está acontecendo.

“Todas as ótimas ideias já pareceram más ideias em algum momento.” Então se você já está aí reclamando sobre a pilha de livros que ainda não leu ou que não vai querer gastar mais com livros e mimimi, compra/empresta/dá um jeito e começa logo essa leitura, que vai ser maravilhoso.

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