Mostra de SP: Dia 6

em 24 de outubro de 2013

​E no quinto dia a crítica descansou porque só é possível se alimentar de pipoca por um número limitado de refeições. Mas volto ao cinema, descubro que a garçonete do café do Frei Caneca já aprendeu meu nome e está sinceramente preocupada com a quantidade de horas que eu passo por lá. Não precisa moça, eu estou bem, talvez um pouco pálida porque não vejo a luz do sol há tanto tempo, mas meu búlgaro tem melhorado consideravelmente.

Em Silêncio – Csilla acorda ao lado de um carro capotado, Isti, seu irmãozinho, desapareceu e ela não sabe como tudo aconteceu. Tudo que ela sabe é que está envolta em silêncio, o silêncio terrível da ausência de Isti e que a partir daí sua vida será outra.

O filme alterna entre o presente da personagem, trabalhando em um navio cargueiro, e o passado com seu irmão. É aos poucos que o espectador descobre como eles viviam, de onde vinham, quais eram seus planos e para onde iam quando sofreram o acidente. No entanto, ao contrário de Csilla, não estamos mergulhados no silêncio: o pensamento da personagem é narrado em off o tempo todo. O problema é que essa narração não soa realmente como um fluxo de pensamento, mas como uma linha narrativa, uma ajuda do diretor para que o público não se perca na estrutura de seu filme. É didático demais, um tanto condescendente e retira muito da força do filme.

Em Silêncio lembra, em tema e estrutura, Para Aqueles em Perigo, mas justamente sem a confusão de realidade e delírio que faz a força do filme escocês. O luto de Csilla é desprovido de raiva ou rancor, é apenas uma tristeza vazia e imóvel, como o filme. Falta poesia ao longa polonês, falta preencher a dor de sua personagem principal para conseguir sustentar seus 90 minutos e envolver o espectador. A frieza e o vazio do filme tornam impossível empatizar com Csilla e tudo que fazemos é assistir, intocados, um luto silencioso.

El Crítico – Tellez é um crítico de cinema desesperançado, não gosta de nada que assiste e ao mesmo tempo não consegue se livrar de sua obsessão com o cinema. Mais do que tudo ele odeia profundamente as comédias românticas e seus clichês previsíveis, por que assistir um filme se já sabemos absolutamente tudo que vai acontecer?

Mas por capricho dos deuses do cinema, ou simples azar, o personagem acaba vendo sua vida se transformar em uma comédia romântica e ele está condenado a viver conforme as regras do gênero.

El Crítico é ao mesmo tempo uma declaração de amor ao cinema, uma enorme piada interna entre cinéfilos e um puxão de orelha nos esnobes amargos que só acreditam em Godard. O protagonista é carismático em sua rabugice e estão juntos, público e personagem, quando se veem torcendo pelos clichês que desprezam. É um filme divertido, despretensioso e que não tem medo de fazer graça de todo um universo. Mais uma prova de que, apesar dos filmes que tem chegado aqui comercialmente, ainda existe leveza no cinema argentino.

El Gran Circo Pobre de Timoteo – Há mais de 40 anos o Gran Circo Timoteo percorre o interior do Chile com seu show de drag queens. São amados, conhecidos e já chegaram a gravar dvds, ainda assim, o público nunca parece ser o suficiente para pagar as contas e o tempo que passa ameaça torna-los obsoletos.

O documentário acompanha a trupe por algum tempo, até o momento em que René, o dono do circo, informa que irá se aposentar por motivos de saúde. A câmera é apenas observadora, distante, como se pudesse ser invisível para aqueles que retrata. Mas não pode e fica a pergunta: estão tão acostumados com o público que nem reparam no cineasta ou há algo de falso? São completamente reais ou completamente ensaiados?
Os melhores documentários são os que levantam questões não apenas sobre seu objeto, mas sobre a própria natureza da realidade e da ficção e El Gran Circo Pobre faz isso ao usar uma forma talvez tão ultrapassada quanto esse show de travestis. O “cinema verité”, da câmera objetiva, observadora externa, é minoria hoje entre os documentários: temos diretores presentes, docudramas, imagens altamente estetizadas, um questionamento mais explicito das fronteiras do gênero. Aqui a abordagem é silenciosa e ainda assim questionadora.
Lorena Giachino Torréns deixa seus personagens falarem, deixa que o público os conheça pelo que eles decidem mostrar, seja isso realidade ou ficção. E eles são ricos, melancólicos e divertidos, exatamente como o filme.

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