Dois homens, uma ilha remota, um farol. Não parece um cenário exatamente improvável para um filme de terror, faróis são um pouco como casas muito antigas, o tipo de lugar que a lógica diz que deve ser um pouco assombrado, mas é algo que remonta a um terror mais antigo, algo como um conto de Poe, aquele antigo medo dos lugares fechados, de ser enterrado vivo.

O Farol, segundo filme de Robert Eggers, diretor de A Bruxa, se alimenta justamente dessas referências e associações, dos medos que seus espectadores trazem consigo e projetam nas imagens em preto e branco de seu filme. O mar, as tempestades, o isolamento, a loucura. Já na primeira cena a solidão dos personagens parece opressiva, algo parece errado com Thomas Wake. É um pouco como ser apresentado ao capitão Ahab pela primeira vez.

Eggers sabe dessas associações, das histórias de pirata que seu público deve ter lido, de Moby Dick, de lendas sobre sereias. O terror que ele tece aqui é justamente esse, das imagens conhecidas e dos medos ancestrais, das imagens familiares que se distorcem como em um pesadelo e são mais aterrorizantes justamente por serem familiares. Como em A Bruxa, o sobrenatural aqui é ambíguo, ele pode tanto existir como ser apenas uma metáfora psicanalítica, afinal há pouca coisa mais fálica que um farol, mais freudiana que a sexualidade de uma garota adolescente.

Chamar o terror de Eggers de psicológico me parece raso, eu diria que ele é pulsional, mitológico, arcaico como imagens de Édipo. Pouca coisa é mais fálica do que um farol e poucas situações mais carregadas de tensão erótica do que dois homens confinados no fim do mundo. Poucos cenários também são tão propensos à loucura.

O terror de O Farol está na possibilidade do sobrenatural, mas também, e talvez essa seja a pior opção para o personagem, na possibilidade de que o sobrenatural seja apenas a sublimação de um desejo impossível. Como em A Bruxa, o diretor tira o medo a perda de controle representada pelo sexo, da desorganização trazida pelo desejo.

É um tema milenar. Incontáveis mitos gregos falam da desorganização do mundo trazida por desejos fora de lugar. O minotauro nasce daí. Ulisses passa anos longe de casa porque nem ele, nem seus homens, nem os deuses, controlam os próprios impulsos. Nos contos de Isaac Bashevis Singer sobre as cidadezinhas judaicas polonesas pré-Holocausto o sexo irreprimido é sempre o que atrai demônios e traz a decadência. As histéricas acabaram se mostrando mulheres reprimidas sexualmente. Dentro das possibilidades do realismo, o desejo é o mais perto que chegamos de forças sobrenaturais que controlam o homem a seu bel-prazer.

Essa tradição se mostra na estética do filme. Não apenas ele é filmado em preto e branco, o que enfatiza a sensação de uma história vinda de tempos imemoriais, mas é permeado de imagens de sereias, aves de mau-agouro, rimas visuais que lembram vulvas, conchas, espirais descendentes. Daniel Defoe é enquadrado quase sempre de baixo para cima, Netuno nesse pequeno domínio. A forma sugestiva do farol se impõe sempre acima dos dois homens, pequenos diante de sua força.

Os últimos anos viram uma leva considerável de filmes de terror experimentais, de histórias em que o vilão e o medo são mais difusos, difíceis de identificar, em que o espectador se pega com a sensação de perder algo ao tentar recontar essa história, mas O Farol, junto com o também recente Midsommar, levam isso mais longe. Ambos os filmes têm em comum o espaço condensado, a luz como personagem (ainda que de formas completamente opostas) e uma aceitação final da loucura. O descontrole que começa como vilão acaba se mostrando a única forma de seguir, a única estratégia de sobrevivência.

Há também nos dois filmes, mas de forma mais complexa em O Farol, um uso do humor. O humor é outra forma ancestral de subversão: em A Bruxa, ambientado no absolutamente organizado mundo do puritanos americanos, ninguém nunca ri, até o momento final de rompimento. Em O Farol os dois personagens riem o tempo todo, mas um riso desesperado, bêbado, o riso que é tradicional sinal da loucura. Ainda assim, é um filme com momentos engraçados, mas não como alívio, pelo contrário: é nos momentos que o espectador ri que ele sente de forma mais forte a tensão e a descida.

É um filme estranho sobre a estranheza do desejo, das imagens ancestrais, do medo. Eggers, com apenas dois filmes como diretor, tem construído o que parece ser quase um gênero próprio, o terror psicanalítico mais do que psicológico, o medo que nasce das profundezas do desejo humano.

Isadora Sinay é cineasta e pesquisadora da obra de Ingmar Bergman. Gosta de gatos, Sylvia Plath, Elizabeth Bennet e tudo que for em preto e branco.