“O grande desafio é ampliar o interesse do público pelo tema sem banalizar o conteúdo” – Entrevista com Laurentino Gomes

em 29 de outubro de 2013

Em 1808, ele falou sobre a chegada da família real portuguesa nesta terra mãe gentil – ainda que colônia, decadente pela pobreza, pelo analfabetismo e pela mão de obra escrava – de palmeiras e bananeiras chamada Brasil; em 1822, chegamos à sua independência às margens do Rio Ipiranga pelo príncipe regente Dom Pedro I; e em 1889, por fim, a saída da Monarquia para se tornar República – porém, ao contrário da própria data consolidada para a proclamação, o país só foi oficialmente tornar-se uma legítima República em 16 de novembro daquele ano, não no dia anterior.

Se História até então era um dos assuntos, dito por alguns, pouco valorizados por uma grande parcela da população brasileira, o jornalista e escritor Laurentino Gomes mostrou que eram percepções um pouco equivocadas, ou se não, de que faltava, ao menos, alguém que escrevesse um livro de História que despertasse realmente o interesse, não apenas dos aficionados pelo assunto, mas por aquela já dita parcela, que provavelmente passou de ano nas provas escolares à base do decoreba, quando não da própria cola.

Seus dois primeiros livros foram sucesso absoluto de vendas (ambos laureados com o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria não ficção), e o seu mais recente 1889 parece seguir pelo mesmo caminho; de fato, é um dos seletos livros nacionais que se encontram no ranking dos mais vendidos do país. Além disso, o escritor integra também a lista dos e-books mais vendidos nos Estados Unidos, com a tradução de 1808.

Em entrevista exclusiva para o Posfácio, Laurentino Gomes falou de detalhes do seu processo de pesquisa e elaboração não só de seu mais recente livro como de seus dois anteriores, das curiosidades encontradas durante suas pesquisas, do que permanece de anacrônico do Brasil dos primeiros anos aos dias atuais, da fórmula para instigar o brasileiro a ler livros de reportagem histórica, dentre outros assuntos, numa prosa que me foi uma verdadeira aula de história.

Como surgiu o interesse por História?

Laurentino Gomes – Eu trabalhei como repórter e editor de jornais e revistas durante mais de trinta anos, mas sempre tive um grande interesse pelo estudo da História do Brasil. É como se fosse uma paixão paralela à do Jornalismo. Em 2007 decidi transformar essa paixão em livros-reportagem. Na verdade, foi uma coincidência entre o meu interesse pessoal pela História e uma oportunidade que surgiu no meu caminho. A revista Veja, onde eu trabalhava até então, tinha o projeto de fazer uma série de edições especiais sobre a História do Brasil, que seriam distribuídos de brindes para os assinantes. Fiquei encarregado de produzir uma dessas edições, sobre a fuga da corte de D. João para o Rio de Janeiro. O projeto da Veja, no entanto, foi cancelado e eu decidi transformá-lo em um livro-reportagem por minha própria conta e risco. O resultado foi minha primeira obra, 1808, lançada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2007. Três anos mais tarde, lancei 1822, sobre a Independência, e, agora, 1889, sobre a Proclamação da República.

Foi uma ideia planejada escrever uma trilogia?

LG – Essa ideia de fazer uma trilogia sobre o tema foi surgindo ao longo do caminho. Seis anos atrás, ao lançar o livro 1808, eu fui pego de surpresa pela repercussão da obra. Nunca imaginei que um livro de História do Brasil tivesse tamanha acolhida entre os leitores. Isso me animou a escrever o segundo volume, 1822, sobre a Independência do Brasil, consequência direta da fuga da corte para o Rio de Janeiro. Em seguida, os próprios leitores começaram a me pedir que escrevesse sobre 1889 e a Proclamação da República. Era uma escolha óbvia. Esses três datas explicam a construção do Estado brasileiro ao longo do Século. Funcionam como o nosso código genético do ponto de vista institucional, burocrático e administrativo porque explicam a forma como nós, brasileiros, nos organizamos como nação independente e soberana ao romper os nossos vínculos com Portugal. Portanto, para entender o Brasil de hoje é preciso estudá-las.

Como foi feito o trabalho de pesquisa durante a produção de seus três consecutivos livros (1808, 1822 e 1889)?

LG – Eu leio muito sobre o assunto, pesquiso documentos, mas principalmente vou aos locais em que as coisas aconteceram duzentos anos atrás. Apesar da distância no tempo, esses lugares ainda guardam hoje muita informação para quem tiver o olhar atento. Um livro de História precisa respeitar as fontes e não preencher lacunas do conhecimento histórico com ficção. No total, acredito que li mais de 300 livros para escrever essas três obras. Só para o último livro, 1889, li ou consultei cerca de 150 fontes de referência, no Brasil e nos Estados Unidos, em especial os livros do historiador mineiro José Murilo de Carvalho, que considero hoje a principal autoridade no tema. Durante todo o ano de 2012 morei em um campus universitário no interior da Pensilvânia. Lá, enquanto minha mulher, Carmen, fazia um curso de especialização em língua inglesa, eu aprofundei as pesquisas indo várias vezes à Biblioteca do Congresso e à Biblioteca Oliveira Lima, ambas situadas em Washington, onde encontrei acervos e documentos preciosos que me ajudaram a ter uma noção mais precisa dos personagens e acontecimentos.

Qual foi uma das maiores curiosidades que o escritor descobriu durante as pesquisas?

LG – Existem várias situações novas e surpreendentes. Um exemplo é a história da gaúcha Maria Adelaide Andrade Neves Meireles, conhecida como a Baronesa de Triunfo, pivô de um caso de amor e ciúmes envolvendo o marechal Deodoro da Fonseca e o senador Gaspar da Silveira Martins, líder do Partido Liberal no Rio Grande do Sul. Em 1883, quando era presidente da Província, Deodoro perdeu para Silveira Martins a disputa pelo coração da baronesa que, segundo testemunhas da época, seria uma viúva bonita, quarentona e fazendeira na região de Rio Pardo. Desse episódio surgiu uma rivalidade que teria desdobramentos na Proclamação da República. Como explico no livro 1889, em momento algum do dia 15 de Novembro Deodoro proclamou a república. Apenas liderou o golpe militar que derrubou o gabinete do Visconde de Ouro Preto, acusado pelo marechal de perseguir o exército e seus oficiais. Deodoro só mudou de posição e concordou com a troca de regime na madrugada do dia 16 ao saber que o imperador Pedro II chamara para compor um novo ministério o senador Silveira Martins. A república teria em Maria Adelaide, portanto, uma madrinha secreta, cuja existência raramente aparece nos livros da História oficial.

Fazendo um panorama das três distintas épocas de nosso país apresentadas em sua trilogia, na sua avaliação como pesquisador, o que de lá pra cá continuou enraizado dentro da cultura brasileira? E o porquê dessa petrificação arcaica?

LG – O Brasil carrega ainda hoje uma herança muito forte do período coberto por essas três datas. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1808, o príncipe regente D. João encontrou uma colônia portuguesa dominada pelo analfabetismo, pela escravidão, pela pobreza e pela grande concentração de riquezas. Havia poucas escolas, nenhuma universidade (contra 22 já existentes na América espanhola) e a circulação de livros e jornais era censurada ou controlada pelas autoridades. As regiões eram isoladas e rivais entre si. A partir dessa data, o Estado brasileiro foi construído de cima para baixo ao longo de todo o Século 19. Coube ao rei D. João VI, aos imperadores Pedro I e Pedro II manter a integridade territorial, suavizar os conflitos e organizar tudo, sem que a imensa maioria da população participasse do processo de decisões. Mas há também aspectos positivos nessa história. Nesses últimos dois séculos, o Brasil enfrentou desafios que, em determinados momentos, pareciam insuperáveis. A própria existência do país esteve ameaçada várias vezes. Na época da Independência e do Primeiro Reinado as chances de divisão território em guerras civis e separatistas eram enormes. Esses desafios foram todos superados, às vezes ao custo de muito sangue e sacrifício. O fato de termos chegado até aqui como um país grande, integrado, de dimensões continentais, relativamente tolerante no aspecto político, racial e religioso, nos fornece sinais de esperança em relação aos problemas do presente. As vitórias e dificuldades do passado podem iluminar a jornada em direção ao futuro.

Nós temos uma ideia um pouco preconceituosa e até elitista de achar que o brasileiro não se interessa muito pela sua cultura e, sobretudo, por sua história. Que não há um aprofundamento substancial nas questões histórico-sociais e políticas de nosso país. Daí vem você e escreve três livros de História do Brasil que rapidamente tornam-se um sucesso de vendas nas livrarias. De referência bibliográfica, temos o Casa grande e senzala, escrito por Gilberto Freire, considerado um clássico da literatura, sobretudo relacionado à história da formação da cultura brasileira, embora seja mais cultuado por acadêmicos, diferente de seus livros que abrangem diversos públicos e que atraem até aqueles que antes diziam não gostar de História, e que passaram a gostar posterior a leitura de seus livros. 

Qual é a receita para escrever um livro de pesquisa histórica que realmente interesse e seja palatável ao público brasileiro?

LG – Eu tenho observado um interesse crescente pela História do Brasil. Nunca se venderam tantos livros sobre o tema. Nas bancas de revistas também é grande o número de publicações que trazem o título História na capa. Há inúmeros sites de internet e canais de TV por assinatura dedicados ao assunto. Isso não é mera coincidência. O aumento do interesse pela história coincide com um momento de grande transformação na sociedade brasileira. Vivemos quase três décadas de exercício continuado da democracia, sem rupturas. Isso nunca aconteceu antes. É a primeira vez que todos os brasileiros estão sendo, de fato, chamados a participar da construção nacional. Em razão disso, os brasileiros estão olhando o passado em busca de explicações para o país de hoje. Dessa maneira, procuram também se aparelhar mais adequadamente para a construção do futuro. É uma excelente notícia. Minha contribuição ao estudo da História do Brasil é de linguagem. O grande desafio é ampliar o interesse do público pelo tema sem banalizar o conteúdo. Por isso, procuro usar elementos pitorescos e engraçados de um acontecimento ou personagem para chamar a atenção de um leitor mais leigo. Mas em seguida, tendo capturado sua atenção, é necessário também dar um mergulho mais profundo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Qual fato que você considera mais errôneo e que por décadas nos foi apresentado nos livros de História do Brasil?

LG – Um mito muito recorrente nos livros da história oficial é que o Brasil é um país pacifico, habitado por um povo cordial, que não pega em armas, não se revolta e aceita todas as transformações sem resistência. Isso não é verdade. Exemplo disso é a Proclamação da República, tema do meu último livro. Um passeio militar é a descrição mais comum que se vê nos livros sobre o dia 15 de novembro de 1889. A facilidade com que se derrubou um regime e se proclamou outro na manhã daquele dia, sem reação popular, sem troca de tiros, sem protestos, parecia confirmar, uma vez mais, um mito das transformações políticas brasileiras que se processam de forma pacífica. Essa imagem, no entanto, se desfoca por completo quando se avança um pouco no calendário. Derrubada da monarquia, o sonho de liberdade e ampliação dos direitos rapidamente se dissipou. Em alguns anos, o país estava mergulhado na ditadura sob o comando de Floriano Peixoto, a quem ainda hoje se atribui o papel de salvador da república. Exemplo disso foi a chamada Revolução Federalista, guerra civil travada no sul do país entre 1893 e 1895, mesma época da Revolta da Armada, na qual morreram cerca de 12.000 pessoas. Em seguida, o país testemunhou a terrível Guerra de Canudos, na qual o Exército brasileiro se viu humilhado pelos jagunços de Antonio Conselheiro. Ou seja, o sangue que deixou de correr em 1889 jorrou com profusão nos dez anos seguintes.

Romance histórico é um gênero que te atrai para um possível novo projeto?

LG – A literatura de ficção, que inclui o gênero romance histórico, me assusta um pouco porque exige uma capacidade criativa que eu talvez não tenha. Por isso, prefiro ficar em um terreno mais seguro, que é o do jornalismo e não-ficção. É o que eu sei fazer. Portanto, pretendo continuar a produzir livros-reportagens.

Teremos um novo livro futuramente seguindo a ordem cronológica dos três publicados ou 1889 é o fechamento oficial de uma trilogia?

LG – Eu não excluo a possibilidade de fazer uma outra trilogia, mas a fórmula de capa será diferente. O livro 1889 é o encerramento de um ciclo na minha carreira como escritor. Tenho vários projetos, mas nenhum definido até agora. De certeza, por enquanto, só sei que 1889 será o último livro com data e números na capa. Os próximos livros terão títulos diferentes. Espero que continuem a fazer sucesso entre os leitores. Gostaria de escrever um livro sobre a Guerra do Paraguai, outro sobre a Inconfidência Mineira, talvez mais um sobre as grandes rebeliões do período da Regência, entre a Abdicação de Dom Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II. Essa é uma década fascinante, que muitas ideias e projetos de Brasil foram testados, às vezes a custa de muito sangue e sofrimento.

De todos os personagens que elencaram substancialmente a História de nosso país, qual deles você escolheria, e por quê?

LG – Meu personagem preferido, nos três livros, é José Bonifácio de Andrade e Silva. É quase impossível entender o processo de Independência do Brasil sem estudar o papel nele desempenhado por Bonifácio. Caberia a ele ser o principal conselheiro do príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I num momento crucial para a construção do Brasil. Bonifácio esteve à frente do ministério de D. Pedro por escassos dezoito meses, de janeiro de 1822 a julho de 1823, mas nenhum outro homem público brasileiro realizou tanto em tão pouco tempo. Sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria. Na sua visão, a única maneira de impedir a fragmentação território brasileiro após a separação de Portugal seria equipá-lo com um “centro de força e unidade” sob o regime de monarquia constitucional e a liderança do imperador Pedro I. Foi essa a fórmula de Brasil que trinfou em 1822. Além disso, Bonifácio era um ser humano fascinante. O Patriarca da Independência passou para a história como um homem sisudo e austero. É uma imagem equivocada. Boêmio e bom de copo, Bonifácio costumava terminar as madrugadas dançando lundu – dança típica do Brasil colonial – em cima de uma mesa. Prendia o cabelo em forma de rabo-de-cavalo na nuca. Nas cerimônias e ocasiões importantes escondia o rabicho sob a gola da jaqueta. Era poeta e bom contador de histórias. Como D. Pedro I, amava as mulheres e teve inúmeras amantes que lhe deram dois filhos bastardos. Manejava bem uma espada e havia rumores de que havia matado quatro homens em duelo. Essas informações, que encontrei nos livros, o transformaram para mim em um personagem mais encantador do que eu imaginava até então.

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