Música: Old but gold

em 4 de novembro de 2013

Paul McCartney lançou um novo clipe semana passada. Queenie Eye é faixa de seu último CD, New, o primeiro de inéditas em seis anos, e tem feito sucesso por sua pretensiosa despretensão em ter como coadjuvantes estrelas como Johnny Depp, Sean Penn, Jude Law, Meryl Streep, Jeremy Irons, Tom Ford, além de Kate Moss dançando sobre o piano e outras celebridades. É tanta gente boa que identificar todas numa única visualização torna-se impossível. Quer tentar?

Esse fabuloso mise-en-scène (que também tem um super making of, que você pode ver aqui), contudo, pode eclipsar um pouco da qualidade musical de Queenie Eye, que embora não tenha o formato arrasador de sucessos como Live and Let Die ou Band on the Run, ambos da época dos Wings, certamente se coloca alguns degraus acima de muita musiquinha pré-cozida feita por artistas novos, com a pele ainda viscosa e curvas definidas.

Na semana em que perdemos Lou Reed, a quem dedico essa postagem, outro colosso do rock com a Velvet Underground, resolvi repassar aqui no Posfácio alguns velhos e bons nomes da música que ressurgiram nos últimos tempos com trabalhos vigorosos, provando que a experiência e algumas rugas também fazem bem aos que estão no mundo da música.

Um desses nomes é Eric Clapton, que voltou aos estúdios para Old Sock, disco que é uma espécie de tributo a nomes que formaram seu repertório e também conta com Paul em uma das faixas. Recomendo o hit Gotta Get Over.

O retorno desses tiozões me remete ao estrondo causado por The Next Day, o fabuloso novo CD de David Bowie, que há dez anos não nos trazia novas batidas e que depois de vinte anos retornou ao topo das paradas britânicas. Espetacular como sempre, Bowie nos presenteou com um álbum cheio de vigor, coroando faixas maravilhosas com clipes do mesmo nível, como The Stars (are out tonight) – onde, enfim, podemos vê-lo ao lado de sua doppelganger, a atriz Tilda Swinton, e do modelo andrógeno Andrej Pejic. Recentemente lançou mais dois clipes do álbum: Valentine’s Day é simples ao ter apenas Bowie num galpão abandonado, destacando sua heterocromia mística enquanto canta uma das melhores faixas do CD. Como notícia boa nesse mundo não vem sozinha, há boatos de que o cantor já tem novas músicas em quantidade suficiente para preencher mais um CD. Vamos esperar, rezando.

Já em The Next Day, música que deu nome ao álbum, Gary Oldman é um padre num prostíbulo e Marion Cotillard jorra sangue (“And the priest stiff and hate / Now demanding fun begin / Of his women dressed as men / For the pleasure of the priest”). Místico e bizarro: a cara de Bowie:

Para provar minha tese de que os velhinhos estão com tudo, vamos agora para o Brasil, que tem muito do que se orgulhar com dois trabalhos pontuais de seus principais nomes: Abraçaço de Caetano Veloso e Recanto de Gal Costa (que já deveria ter virado nome de ave da Amazônia).

Ambos os trabalhos têm o dedo de Caê. Seu CD Abraçaço é obra de arte, coisa de gente que sabe das coisas e que já foi e voltou muitas vezes pela estrada da música. “Quem matou meu amor/ tem que pagar/ E ainda mais quem/ mandou matar/ Ver o olho no olho do jaguar/ Virar jaguar” – canta ele em O Império da Lei.

Surpreende, portanto, que esse mesmo Caetano hoje esteja à frente dessa campanha medrosa de censura às biografias não autorizadas, através do grupo Procure Saber. O risco é que o cantor suje não sua carreira, mas seu belo desempenho em 2013 com esse deslize controlador. “Estou triste tão triste/ Estou muito triste” (Estou Triste) com você, Caetano.

Mas a gente perdoa o Caê, não é mesmo? Mas só por ter trazido de volta à cena musical a grande Gal, em novas batidas e pela primeira vez com autotune. Recanto é o CD número trinta da artista, foi produzido por Caê e seu filho, Moreno Veloso, e também tem as músicas escritas pelo baiano. O belíssimo trabalho é uma retomada de carreira na medida certa para arrebatar novos fãs, em músicas com batidas inusitadas e ousadas, como o funk Miami Maculelê.

No site da cantora, Caetano escreve em um artigo: “Não se tratava de meramente relembrar o passado de Gal, mas de produzir com ela uma peça que fosse forte como expressão atual e, assim, estivesse à altura do nosso histórico”. Objetivo atingido. Para ambos esse disco é um passeio por novos caminhos, uma retomada revigorante. Para nós, é um prazer conferir essa parceria que nos traz Neguinho, Autotune Autoerótico e Recanto Escuro. Destaque também para o DVD de Recanto, gravado no Vivo Rio e dirigido por Caetano, com um delicado trabalho de iluminação.

Agora penso em Miley Cyrus e Wrecking Ball, quando a Hannah Montana da Disney decidiu ficar ousada1  – e aparentemente com algum distúrbio que a impede de ficar com a língua dentro da boca. Agora penso em Do What U Want, a nova da Lady Gaga. Penso em Run The World, da Beyoncé, uma música de praticamente dois versos escrita por mais de seis compositores. Agora penso em Work, Bitch, da Britney Spears, aquela senhora que não desiste e que disse que essa canção é uma “sátira ao fetichismo da mercadoria, ao enfatizar que os reais donos dos meios de produção são os próprios trabalhadores”2 – resposta que deve ter aprendido lendo Marxismo for Dummies.

Agora penso nos artista mais jovens que não conseguem apresentar trabalhos tão bons. Não só na música, mas também no Cinema, área sobre a qual mais escrevo aqui no site, onde os jovens cada vez mais têm botado banca de grandes estrelas, quando apresentam resultados apenas medianos. Na música, normalmente seguem a marcação cavada, quatro por quatro, pouco ousada, por vezes estridentemente tecnológica, enfim, cartesiana.

Será que minhas críticas são preconceituosas com gêneros e estilos que não são meus prediletos? Temo, honestamente. Até porque, confesso, não discorro sobre a música com a mesma desenvoltura como sobre Cinema. Escrevo aqui mais como ouvinte do que como alguém que entenda, mas ao ouvir, sinto que melhores resultados têm vindo dos old schools do que desses novos irritantes, como Rihanna e a insuportável Nicki Minaj.

Mas nada é preto ou branco. Não se pode colocar os “velhinhos” de um lado e a nova geração de outro – e obrigado-Deus por isso! Excelente trabalhos também vieram da nova geração, e cito apenas dois porque esse não é o foco da postagem: Daft Punk com Random Acess e o Artic Monkeys com AM.

Também é importante considerar que parte da retomada desses nomes supracitados se deu por parcerias com talentosos músicos jovens: Bowie se aproximou do Arcade Fire, participando de uma faixa e de um clipe, Reflektor; Gal Costa tem como base de seu belo novo trabalho uma banda jovem, que tem entre os integrantes o filho de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Pedro Baby. O próprio Lou Reed havia empreendido uma parceria com o Metallica que, se não pode mais ser considerada uma banda nova, também não é da mesma geração que os colossos do rock. Até Tony Bennett, do alto de seus 87 anos(!) e de um estilo mais clássico tem uma longa lista de duetos com cantores da nova geração, entre eles Amy Winehouse, Norah Jones, Cristina Aguilera, Maria Gadú e se prepara para lançar um álbum com Lady Gaga!

Mick Jagger é outro exemplo marcante nessa nova onda: sem matar os Rolling Stones, SuperHeavy surgiu para convergir talentos de gerações e estilos distintos, contando com Dave Stewart, Demien Marley, A.R. Rahman e Joss Stone. E voltando a Paul McCartney, seu novo álbum conta com quatro produtores jovens que se firmaram através de novos cantores, como Paul Epworth, da Florence and the Machine.

No último 21 de novembro fui ao Rock in Rio para ver Bruce Springsteen e a E Street Band com Steven Van Zandt, uma das parcerias mais tradicionais da música mundial. Com 65 anos, The Boss conduziu um show que quase três horas, o mais longo dessa edição do evento, e diz a lenda que entre uma e outra música, para se refrescar, enfiava a cabeça num balde de gelo atrás do palco. Bruce pulou sobre a plateia, foi e voltou no recuo que o colocava no meio da galera, mas precisou sentar vez ou outra – tudo com muito estilo – nas caixas de som estrategicamente colocadas no palco. Para mim, foi experiência semelhante a catarse que vivi no show de Paul McCartney, no Morumbi, há dois anos; experiência semelhante a do megashow do U2, com a turnê 360°, ou ao show da banda de rock industrial alemão Rammstein.

Ver – e especialmente ouvir – Paul, Bowie, Bruce, Caê e Gal, é uma rememoração a nós, jovens, da constante necessidade de atenção ao que os velhinhos têm a nos ensinar.

RIP Lou Reed

  1. A nova postura da cantora tem gerado tanta polêmica que suscitou o seguinte comentário da cantora Sinead O’Connor (47): “Você tem talento suficiente e não precisa deixar a indústria musical transformá-la numa prostituta” (em Época, de 7 de outubro de 2013, n°802)
  2. Extraído da revista Época, de 21 de outubro, 2013, n° 804

2 comentários para “Música: Old but gold

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.