Crítica: ‘Pelos Olhos de Maisie’

em 10 de janeiro de 2014

Informações

  • Título: Pelos Olhos de Maisie (What Maisie Knew)
  • Diretor: Scott McGehee, David Siegel
  • Roteiro: Nancy Doyne e Carroll Cartwright
  • País: Estados Unidos
  • Ano: 2012
  • Elenco: Onata Aprile, Julianne Moore, Steve Coogan, Alexander Skarsgård, Joanna Vanderham

Adaptado do romance de Henry James e transportado para a Nova Iorque contemporânea, Pelos olhos de Maisie é um drama familiar sobre os efeitos do divórcio na vida de uma criança de sete anos. O filme se concentra nas dificuldades enfrentadas pela garota titular Maisie (Onata Aprile), que de repente se vê perdida no meio de uma batalha de custódia que não tem idade suficiente para sequer compreender, pinguepongueando de um lado para o outro conforme seus pais a puxam (e, quando suas carreiras estão em jogo, empurram) em direções opostas.

Lançado lá fora em 2012, o filme só chegou no Brasil agora, tendo ficado no limbo da distribuição por um tempo meio incompreensível, já que se trata de um drama manipulativo e unidimensional protagonizado por uma vítima (uma criança, ainda!), o tipo da coisa que parece perfeita para o público de uma nação cujas dramaturgias mais bem sucedidas são novelas de TV. É bom mencionar que eu não li o livro, mas, pelo que eu conheço de Henry James, imagino que ele esteja pelo menos alguns graus acima em termos de sutileza e ambivalência.

Os personagens adultos são invariavelmente caricaturas, recortes de papelão que existem unicamente para puxar as cordinhas emocionais do público e criar empatia de forma barata. Tanto a mãe rockstar Susanna (Julianne Moore) quanto o pai negociador de arte Beale (Steve Coogan) são mostrados como canalhas insensíveis e egoístas que parecem muito mais preocupados com as próprias carreiras do que com o bem de sua filha. Mesmo com diversos filmes de super-herói estreando daqui a alguns meses, vai ser difícil encontrar vilões mais desprezíveis no cinema este ano. Há uma noção perniciosa no filme, de que carreiras artísticas de sucesso são nocivas para pessoas que querem manter uma família, o que é irônico vindo de Hollywood.

Eventualmente, o pai inicia um relacionamento com a babá escocesa Margo (Joanna Vanderham). Pouco depois, a mãe faz o mesmo com seu amigo barman Lincoln (Alexander Skarsgård). Devido à ausência constante dos pais biológicos, esses dois acabam se tornando pais postiços para a garota, e seu comportamento compreensivo e carinhoso, aliado ao fato de que são ambos jovens, loiros e impossivelmente atraentes, fazem com que eles pareçam bastiões de pureza e bondade cuja presença é diametralmente oposta à dos genitores. No começo, o Lincoln desse filme parece meio irresponsável e imaturo, o que poderia ser em ângulo interessante, mas ele instantaneamente se torna tão imaculado quanto o Lincoln de Steven Spielberg.

A priori, pode parecer que isso é consequência do filme ser contado inteiramente pelo ponto de vista de Maisie. Conforme o título, nós só vemos o que ela vê, de forma que, por exemplo, as batalhas no tribunal acontecem offscreen, com apenas seus resultados sendo mostrados. Seria possível que esse recurso estivesse colorindo nossas percepções, devido à situação estressante na qual os pais de Maisie se encontram. Porém, logo fica claro que não é o caso. Estamos realmente lidando com personagens que ocupam espectros dramáticos completamente sintéticos. Você deve simpatizar com esse e odiar aquele. Há zero complexidade aqui.

O  que deveria ser triste acaba se tornando meramente irritante, e em certo ponto é inevitável começar a pensar “por que essas pessoas jovens e bonitas não abandonam esses otários, ficam juntas e criam essa garota?” Bom… o filme claramente quer que você pense isso, e não é exatamente o que acontece (há uma mínima intenção de realismo no desenrolar dos acontecimentos), mas toda a artificialidade da trama e das caracterizações culmina em um desfecho que faz hora extra para assegurar que, na medida do possível, tudo vai ficar (spoilers) bem.

Não há muito mais a dizer. As atuações são todas suficientemente competentes (a pequena Onata Aprile foi bastante comentada, e ela é realmente uma revelação) e a direção é funcional, apesar de uma trilha sonora brega e  insistente que contribui ainda mais para o clima geral de manipulação. O (grande) problema é a completa ausência de qualquer indício de ambiguidade no roteiro. Pelos olhos de Maisie é um filme que sabe exatamente o que quer dizer, mas diz da maneira mais preto-no-branco possível.

Avaliação: ** de *****

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