Nós amamos a Marvel

em 15 de janeiro de 2014

Um ano após os jovens Jerry Siegel e Joe Shuster apresentarem para a National Allied Publications (futura DC Comics) a história da origem do Superman, o empresário Martin Goodman fundava, em 1939, a Timely Publications. Oficialmente, o ano de nascimento da Marvel. Na prática, porém, pode-se dizer que a editora nasceu em agosto de 1961, quando chegou às bancas a primeira edição da revista Quarteto Fantástico. É a relevância desse “segundo nascimento” que o jornalista americano Sean Howe explora em seu livro Marvel Comics: A história secreta, publicado nos EUA em 2012 e lançado no Brasil em setembro último. O autor atravessou anos de pesquisas e entrevistas para compor essa espécie de biografia da Marvel, no que é muito bem-sucedido.

Traduzido por Érico Assis1, o livro cobre desde as primeiras publicações pulp de Goodman, nos anos 1930, e chega até 2009, ano em que a Disney desembolsou US$ 4 bilhões pela Marvel. Mas não é por acaso que Howe escolheu iniciar essa saga em meados de 1961, quando Stan Lee e Jack Kirby apresentaram a equipe comandada pelo cientista Reed Richards. Nos meses seguintes, Homem-Aranha, Thor, Hulk, Homem de Ferro, Demolidor e X-Men, para citar apenas os principais, ganharam vida e estabeleceram as bases do Universo Marvel, uma narrativa interligada que mudou para sempre o mercado americano de quadrinhos. No fim de 1962, Lee e Goodman decidem que a linha revigorada passaria a se chamar Marvel Comics.

Interessado nos bastidores da Casa das Ideias, Sean Howe constrói uma narrativa não muito distante de um romance, graças à riqueza de detalhes com que descreve figuras essenciais da indústria dos quadrinhos. Nomes do porte de Stan Lee e Jack “King” Kirby, mas também Steve Ditko, Roy Thomas, Steve Englehart, John Romita, Marv Wolfman, Chris Claremont, John Byrne, Jim Shooter, Frank Miller, entre inúmeros outros roteiristas, ilustradores e editores que passaram pela Marvel em seus 75 anos de existência.

O principal personagem da editora antes de 1961 é, claro, o Capitão América. Criado em 1940 por Joe Simon e Jack Kirby, o herói foi peça importante da propaganda americana durante a Segunda Guerra Mundial. O conflito, aliás, turbinou o mercado dos quadrinhos nos EUA, constituindo a principal leitura dos soldados no front. Antes do Bandeiroso, porém, vale lembrar de dois heróis que protagonizaram a primeira revista em quadrinhos da Timely. Marvel Comics n. 1 foi lançada em agosto de 1939, e trazia as aventuras de Namor, o Príncipe Submarino, e do Tocha Humana original2, que nada tem a ver com o esquentadinho do Quarteto Fantástico. A revista vendeu 80 mil exemplares apenas em sua primeira impressão, um estouro para a época.

Os últimos meses de 1940 marcariam ainda a entrada em cena de outra icônica figura da Marvel. Stanley Lieber, primo adolescente da esposa de Goodman, foi contratado na Timely por ser, acima de tudo, um parente da família. Esvaziava cinzeiros, varria o chão, buscava café. Poucos meses depois, já escrevia aventuras de personagens menores da casa. Assinava Stan Lee, para não prejudicar a futura carreira de escritor sério. Lee acabou ficando na editora, e foi promovido a editor no início dos anos 1940, após um episódio que resultou na demissão de Simon e Kirby. Os criadores do Capitão América se encontravam às escondidas num quarto de hotel a fim de escrever roteiros para a DC, o que logo foi descoberto por Lee, que jurou não contar o segredo da dupla. Dias depois, porém, Goodman descobriu, colocou-os contra a parede e demitiu a dupla.

O velhinho já foi jovem, gente. Stan Lee como editor na Timely Comics, década de 1940. Fardado, pois corria a Segunda Guerra e o rapaz servia nos EUA

O velhinho já foi jovem, gente. Stan Lee como editor na Timely Comics, década de 1940. Fardado, pois corria a Segunda Guerra e o rapaz servia nos EUA

No pós-guerra e durante a década de 1950, o público perde o interesse pelas histórias de super-heróis. Vendas em queda e problemas de distribuição (a Timely foi obrigada a produzir apenas oito títulos mensais por sua distribuidora, que era controlada pela DC) obrigaram Lee a demitir quase toda sua equipe. “Foi a coisa mais difícil que fiz na vida. Era eu que tinha que demitir, e eram meus amigos. Havia vários que me convidavam para jantar em casa – eu conhecia as esposas, os filhos, e agora ia ter que dizer aquilo”, conta Stan Lee no livro de Howe.

A maré começou a mudar com a virada da década. Diz a lenda que Goodman jogava golfe com o dono da DC, Paul Liebowitz, quando este falou que acabara de juntar todos os seus supers mais famosos numa única revista. Liga da Justiça da América trazia Superman, Batman, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde reunidos, e vendia como água. Resultado: o dono da Timely chega para Stan Lee e dispara algo do tipo “Roube essa ideia e invente uma equipe de super-heróis”. Lee escreveu, Kirby ilustrou, e em agosto de 1961 o primeiro número do Quarteto Fantástico chegava às bancas dos EUA.

fantastic four #1

 

A capa de Quarteto Fantástico n. 1 era diferente de todos os títulos de super-heróis que se viam nas bancas; os protagonistas apareciam pequenos e indefesos; o fundo branco dava um aspecto de inacabado. O logotipo com a execução meio tremida parecia desenhado por uma criança. O que ele lembrava mesmo eram as revistas de monstro que Stan e Jack vinham fazendo a toque de caixa para Goodman. (…) O apelo desses novos heróis era incerto. “Eu não consigo ficar invisível rápido o bastante!”, gritava uma mulher de cabelos loiros bem penteados e blusa cor-de-rosa. “É hora de o Coisa dar uma mão!”, gritava uma massa alaranjada de costas para o leitor. Se você não soubesse (e não tinha como saber, na época) que o homem desengonçado em primeiro plano tinha o poder de esticar o corpo como borracha, assim como o antigo Homem-Borracha, da Quality Comics, podia imaginar que Jack Kirby nunca aprendera a desenhar cotovelos.

 

A obra de Sean Howe, que venceu em 2013 o Eisner (Oscar das HQs) na categoria Melhor livro relacionado a quadrinhos, destaca ainda o diferencial do chamado “método Marvel”, que reinou absoluto na editora durante a década de 1960. Os artistas colaboravam com suas próprias ideias narrativas a partir de um argumento básico dado por Stan Lee. Ditko, que junto com Lee criou o Homem-Aranha, e Kirby se davam bem com o método, outros nem tanto. Pelo fato de a edição ser desenhada antes de haver roteiro, alguns, como o artista Wally Wood, achavam que isso significava criar argumento sem ser pago ou receber crédito. Reclamações quanto a ser devidamente creditado, aliás, estão no cerne do desgaste na relação de Lee com Ditko e Kirby.

Em 1965, três anos após criarem o Homem-Aranha, Stan e Steve já não se falavam mais. O artista foi, com o passar dos anos, sendo empurrado para baixo do tapete da Marvel como uma sujeira que incomodava. Com Kirby não foi muito diferente. Foi pior. O gênio que ajudou Lee a construir a Marvel a partir do buraco em que a editora se encontrava no fim dos anos 1950, a mente por trás de quase todos os personagens que transformaram a Marvel no que conhecemos hoje, foi perdendo espaço para as piadinhas de Lee. Os gracejos logo viraram completa falta de reconhecimento de Kirby, que teve seu papel de co-criador reduzido ao de um mero espectador das geniais ideias de Lee. Se há um mercado que pode ser cruel, é o dos quadrinhos. Instável, as temporadas de boas vendas são breves, as quedas nas vendas, constantes. Ingrato, os jovens não raro fazem graça de mestres do passado.

Cansado da falta de reconhecimento, Kirby pediu demissão da Marvel em 1970. Voltou alguns anos depois, mas logo se arrependeria. “Todos os editores tinham coisas coladas na parede, tirando sarro das séries do Jack. O editorial inteiro estava cheio de coisas que rebaixavam o cara que tinha fundado a editora em que aqueles caras trabalhavam. Ele criou todos os personagens que os carinhas editavam”, lembra o artista Jim Starlin. O crescente distanciamento de Lee do cotidiano do Bullpen3, e sua mudança para Los Angeles nos anos 1970, trouxeram algumas mudanças editoriais, e relativamente mais liberdade para os roteiristas, na medida do possível. Enquanto isso, Lee fora para Hollywood correr atrás do seu sonho: levar a Marvel para as telonas.

Se hoje estamos acostumados com a Casa das Ideias chutando bundas no cinema, vide o universo cinematográfico bem estruturado que começou a ser estabelecido em 2008 com o primeiro Homem de Ferro, culminando na maior bilheteria de 2012, Os Vingadores, nem sempre foi assim. Na verdade, há pouco mais de dez anos é assim. Foi apenas com Blade (1998), produção sobre um vampiro do segundo escalão de personagens da editora, que a Marvel entrou de forma decente no mundo do cinema. Porque isso aqui não conta. E com X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), ela chega chegando e mostra para a DC, que dominou a década de 1980 com os longas do Superman e a de 1990 com os Batman, que também sabia fazer bons filmes de super-heróis. Stan Lee, porém, iria penar durante três décadas para concretizar um longa cinematográfico. Na televisão, foi mais “bem-sucedido” com os seriados O Surpreendente Homem-Aranha (1977-1979) e O Incrível Hulk (1978-1982).

 

Se você amou o reboot do Marc Webb nos cinemas, pense duas vezes antes de zoar

Se você adorou o reboot do Marc Webb nos cinemas, pense duas vezes antes de zoar

 

Os anos 1980 trariam duas importantes mudanças para a indústria dos quadrinhos: o nascimento das comic shops e das mega sagas. Até então, gibi se vendia em banca. O que sobrava, voltava para a editora. A Marvel investiu pesadamente no mercado direto, em que lojas especializadas compravam as revistas e retinham o excedente não vendido. Guerras Secretas (1984), considerada a primeira grande saga da Marvel, foi terrível, mas vendeu astronomicamente bem. Rendeu ainda uma linha completa de brinquedos, iniciando um ciclo vicioso terrível para a liberdade criativa de roteiristas e artistas. É nessa década que grandes editoras como Marvel e DC começam a colocar suas revistas em quadrinhos em segundo plano, em detrimento de licenciamentos milionários para a venda de brinquedos, games, filmes, seriados etc. Isso ficou ainda mais claro na Marvel da década seguinte, quando a editora investiu no mercado de cards de baseball4. Moral da história: todo gibi tinha que vir com uma capa laminada e cards de brinde, jogando o preço nas alturas. As tiragens passavam facilmente de um milhão de exemplares. Novas edições “número um” com firulas para colecionador abarrotavam as estantes e comic shops compravam apenas para manter em estoque e revender com sobrepreço tempos depois. O departamento de marketing basicamente mandava no editorial. O roteirista e ilustrador Todd McFarlane, que no final dos anos 1980 trouxe um ar mais sombrio para as histórias do Aranha e foi sucesso de crítica e público, logo entrou em conflito com essa política. “Por que não investem mais no Capitão América em vez de mandar seis números um?… Vocês estão se esquecendo de que o que fazia a Marvel ser a Marvel era eles serem os melhores. Agora, com o passar dos anos, eles só querem ter mais produção. Não a melhor – só mais”, ataca McFarlane.

Isso, de certa forma, foi reflexo de administrações caóticas pelas quais a Marvel passou desde que Goodman a vendera, em 1968. Nas três décadas seguintes, a editora foi comprada sucessivas vezes, e administrada por empresários muito pouco interessados na venda de (bons) gibis. A bolha dos cards e das edições de colecionador estourou entre 1994 e 1995. A Marvel acumulava prejuízos na casa dos US$ 400 milhões quando seu dono, o grupo do empresário Rob Perelman, pediu concordata em 1996. Quem salvou o dia foi a Toy Biz, empresa de brinquedos que já mantinha contratos com a editora, e era capitaneada por Avi Arad, nome importante do Marvel Studios. A Toy Biz se fundiu ao Marvel Entertainment Group para criar a Marvel Enterprises. A estabilidade chega pra valer em 2009, quando a Disney compra a Marvel Enterprises por US$ 4 bilhões, tá bom pra você?

Após a travessia das 560 páginas do catatau escrito por Sean Howe, não é difícil entender por que cineastas como Federico Fellini e Alain Resnais eram fãs confessos da Marvel. Os dilemas do adolescente Peter Parker, o conflito psicológico de Bruce Banner, o jogo de equipe nem sempre perfeito do Quarteto Fantástico e dos Vingadores, o senso próprio de justiça do Demolidor, a discriminação nas páginas de X-Men. A galeria de criações de Stan Lee, Joe Simon, Jack Kirby, Steve Ditko, entre outros, forma um conjunto único de tipos que expressam altos e baixos do ser humano. O Universo Marvel, interligando tramas e personagens, significou uma nova forma de contar histórias, nos gibis e agora nos cinemas. Sean Howe é, antes de tudo, um fã da Marvel, e pensando nos fãs, escreveu uma obra envolvente e bem apurada. Poderia trazer mais imagens, é verdade. Mas não somos ranzinzas. Nós amamos a Marvel, e sabemos reconhecer quando estamos diante de uma boa história.

  1. O cara também verteu para o português Retalhos, de Craig Thompson, e a série Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele mantém ainda uma coluna sobre quadrinhos no Blog da Companhia das Letras.
  2. O primeiro Tocha Humana era um homem sintético, criado pelo cientista Phineas Horton, que irrompe em chamas ao entrar em contato com o oxigênio. Pra quem curte um easter egg, o personagem pode ser visto brevemente durante a Stark Expo dos anos 1940, no filme Capitão América: O primeiro vingador (2011).
  3.  Bullpen Bulletins era a página de notícias que figurava em cada título mensal, na qual Stan Lee usava e abusava de suas piadinhas para interagir com os fãs da Marvel. O quartel-general da editora passou a ser conhecido, então, como Bullpen.
  4. Aparentemente, um vício de todo aficionado em baseball nos EUA é colecionar cards com informações dos jogadores e times da liga profissional.

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