Em praticamente todos os eventos acadêmicos de que participei e que contavam com a presença de pesquisadores do campo da História e do campo de Letras, a problemática por excelência é o possível diálogo entre os dois campos do saber. Isso é bastante óbvio, dado que a alteridade costuma dar o tom tanto quanto às possibilidades de intersecção. Porém, algo que tem me chamado a atenção é a frequência com que outra discussão vem à tona, aquela a respeito da delimitação de certo gênero literário: o romance histórico.

Romance histórico, aliás, é somente um dos termos escolhidos para designar certo conjunto de obras literárias. Ficção histórica, ficção meta-histórica, romance de fundo histórico, entre outros, são igualmente tentativas de generalizar e dar algum acabamento intelectual mais apurado a um suposto corpo de obras que possuem caracteres mais ou menos similares. Javier Cercas tem, nesse ínterim, contribuído para fundir a cuca de muita gente e, na minha singela opinião, tornar o debate bastante divertido.

Pretendo voltar a essa questão mais à frente, pois como uma resenha que se preze tenho de apresentar minimamente o livro e comentá-lo antes de ir mais fundo nas explorações mais particulares ou idiossincráticas.

Depois de escrever o ótimo Soldados de Salamina (2001) e ganhar reconhecimento internacional, Javier Cercas consolidou-se como um dos mais prestigiados escritores espanhóis contemporâneos. Um prestígio de justificação bastante sólida, diga-se de passagem. Desde lá ele já publicou os romances A velocidade da luz, em 2005; Anatomia de um instante, em 2009; e, recentemente, em 2012, As leis da fronteira.

O último romance de Cercas – que foi traduzido para o português por Josely Vianna Baptista –, retoma mais uma vez o que já se tornou um recurso idiossincrático do escritor: a utilização de eventos históricos e de personagens obscuros envolvidos nesses eventos históricos para a construção de enredos muito bem fundamentados, tanto do ponto de vista literário quanto do ponto de vista histórico.

No caso de As leis da fronteira, a trama se passa no verão de 1978, na cidade de Girona, em meio ao processo de reabertura política espanhola pós-governo franquista. O protagonista é Ignacio Cañas, um jovem catalão de classe média que cruza a fronteira que separa o bairro onde mora e o bairro chinês, onde habitam os chamados quinquis (basicamente, jovens delinquentes), e, ao fazê-lo, dá início aos eventos que constituem o corpo do livro de Cercas.

Foi num fliperama que Cañas encontrou pela primeira vez Zarco e Tere. O primeiro, de nome Antonio Gamallo, viria a se tornar uma das lendas da delinquência juvenil, tendo participado de diversos golpes, assaltos à banco, roubos etc. Tere era sua parceira, que tinha participação direta, assim como diversos outros quinquis, nas armações tramadas por Zarco. O fliperama foi o prelúdio da travessia de Cañas, pois foi a partir desse dia que ele passou a cruzar, física e ontologicamente, a fronteira que separava seu bairro do bairro quinqui de Zarco.

Cañas vira Quatro-olhos, membro efetivo e respeitado da gangue de Zarco, que participa dos golpes e atividades clandestinas que eles praticam. E não só colherá as recompensas dos assaltos, mas sofrerá também as consequências que batem constantemente à porta dos membros da gangue.

A experiência passada de Cañas seria o plot principal do livro, mas Cercas não se contentou em remontar uma certa imagem do passado, ele quis ir além, e é justamente nesse ponto que As leis da fronteira rompe com convencionalismos. A narrativa dos fatos não advém da pesquisa documental de Cercas – embora ela tenha certamente ocorrido para fundamentar o livro –, mas do testemunho do próprio Cañas e de um agente policial que trabalhou de perto no caso Zarco.

A narrativa do livro, portanto, é construída a partir das conversas do entrevistador com os entrevistados. A voz central é a de Cañas, embora ela venha entrecortada pela voz do agente policial, ambas lapidadas e trabalhadas pela mediação de Cercas. Isso enriquece a obra como um todo, pois temos acesso a várias facetas da romântica história de Zarco através do olhar de alguém que esteve junto dele durante vários e intensos dias, o Quatro-olhos.

Mas não para por aí, porque embora Cercas esteja falando do passado, ele o confronta com o presente. É quase como um acerto de contas em tempo real, pois o Cañas que narra a história se tornou um advogado respeitado de Girona e não atende mais pela alcunha Quatro-olhos. Ele esteve do lado de lá da fronteira, mas narra do lado de cá, não só do ponto de vista do sujeito, mas também do ponto de vista temporal. As fronteiras são identitárias e temporais.

Cercas nos conduz, através das entrevistas, a confrontarmos o reinado passado de Zarco e sua atual situação, encarcerado. Partilhamos dos tempos dados ao romantismo, mas chegamos à época realista. E não só na narrativa memorialística de Cañas, mas também na vida desse, já que ele se põe, no presente, a lutar pela causa de Zarco no presente (no futuro do passado).

As leis da fronteira é um livro construído não para se restringir ao passado, dessa maneira correndo o risco de essencializá-lo, mas um livro que compreende que falar do passado é uma ação feita no presente. Por tal motivo creio que dizer que se trata de um livro sobre Zarco não é errado, mas também não é uma definição muito apurada. Trata-se de um livro sobre a vida de Cañas em sua intersecção com a vida de Zarco. E vice-versa. No passado e no presente.

E é em grande parte por conta disso que o livro de Cercas inquieta muita gente quanto às designações e terminologias. Se tudo o que se passasse no livro fosse aquele verão de 1978 (o passado), é bem provável que As leis da fronteira se enquadrasse na definição de romance histórico. No entanto, não só conhecemos o passado mas as circunstâncias presentes nas quais ele aflorou, logo ele é mais do que um romance histórico. E não só porque lida com vários tempos, mas porque trata literariamente de um conjunto de eventos cuja factualidade pode ser parcialmente documentada. São a história e a ficção se aproximando, se distanciando, se interseccionando.

Algumas vezes as brigas em tornos de termos são majoritariamente semânticas, em outras elas têm forte conteúdo político, mas de qualquer maneira, penso que se as designações obscurecem o objeto que pretendem designar, é hora de ir mais fundo no objeto, banhar-se na empiria de que toda teorização necessita não só periódica, mas constantemente.

Literatura não é história e, na minha opinião, se descaracteriza em essência ao tentar ser. Mas nem por isso deve repudiar a história. Se quisermos manter o puritanismo epistemológico no nosso modo de olhar, não seremos capazes de perceber a tórrida relação que se passa entre uma e outra. Nesse sentido Cercas enriquece sua literatura, pois, consciente ou inconscientemente, ajuda a aclarar a noção tão necessária como é a da estreita relação entre passado e presente, e entre a realidade e a ficção.

Quem sabe as fronteiras aludidas no título não sejam também aquelas cediças que se interpõem entre a literatura e a história?