Nothing but a killer of sheep

em 21 de março de 2014

Informações

  • Título: Nothing but a Man
  • Diretor: Michael Roemer
  • Roteiro: Michael Roemer, Robert M. Young
  • País: EUA
  • Ano: 1964
  • Elenco: Ivan Dixon, Abbey Lincoln, Julius Harris

por Stefano Calgaro

Após 12 Anos de Escravidão – filme que deu a sensação de necessário –, ficou aquele incômodo – inteiramente pessoal – do filme não ter ligação direta com o presente. Não sei por que, queria que o filme tivesse essa relação, da mesma forma que tem Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade: de ser o mesmo governo (ou forma de), que enforcou Tiradentes e os outros inconfidentes, aquele que, em sua contemporaneidade, instaura a ditadura, tortura, prende e mata para que seu poder não seja afetado, mas, ironicamente, agora celebra a Inconfidência; que a revolta reprimida antigamente seja compreendida para que as de sua contemporaneidade não sejam reprimidas, e a escandalosa força revolucionária do passado – citando Pasolini – não caia na inércia.

Então ficou aquela coisa na cabeça de o que vem de muito longe pode perder o impacto, cair na inércia e não nos atingir com tanta força para compreensão da nossa contemporaneidade. Não que 12 Anos não tivesse esse impacto e explicasse muito da contemporaneidade, mas não estava lá no filme essa ligação direta. Então me lembrei dos filmes que surgiram, direta ou indiretamente, por causa da escravidão nos Estados Unidos e suas consequências, pulando O Nascimento de uma Nação (durante a escravidão), O Cantor de Jazz e To Kill a Mockingbird para chegar na década de 70 e 80. Chego em Nothing But a Man e Killer of Sheep.

Este são filmes onde a sucessão histórica da liberdade dos negros, onde a escravidão, o trabalho forçado, o açoite se transformaram, após a liberdade, na dificuldade de sobreviver e conseguir uns trocados, na brutalidade disfarçada com as relações de poder, a segregação, onde forem possíveis, não sei até que ponto se dissipando ou apenas ficando mais sutis e enraizadas, em alguns casos ou em outros. À parte de discutir a segregação racial e suas formas políticas, culturais e sociais presentes, mas que são claras suas raízes, e que os filmes tratem aonde foram levar essas raízes em sua contemporaneidade.

Nothing But a Man achei aleatoriamente por aí e fiquei até surpreso de saber da sua existência. Vi que foi o filme favorito de Malcom X, mas nunca tinha ouvido falar dele em quase nenhum lugar (procurando depois, apenas em alguns sites norte-americanos e artigos acadêmicos). Killer of Sheep já possui um maior reconhecimento, talvez até pela sua força estética. O maior lugar em que estes filmes encontraram discussão foi talvez na literatura acadêmica, embora tenham adquiridos seus prêmios: o primeiro, o prêmio San Giorgio (filmes considerados importantes para o progresso da civilização) do festival de Veneza de 1964, e o segundo, o prêmio da crítica do festival de Berlim em 1981. Killer ficou muito tempo sem ser liberado por causa dos direitos autorais da trilha sonora. Foi restaurado recentemente e tem até um site próprio.

Nothing But a Man é um filme que se faz mais pelos contornos da narrativa do que por ela em si. É sobre Duff Anderson, que trabalha na construção de uma linha ferroviária e conhece a professora Josie Dawson, filha de um pastor que, aparentemente, tem muita influência na região. Duff visita raramente seu filho, que fica aos cuidados de uma enfermeira em algum canto da cidade e acaba eventualmente conhecendo o pai alcoólatra, que não quer sua presença. Não sendo Duff um homem religioso, o pai de Josie não aprova o relacionamento, mas ao mesmo tempo não os impede de irem morar juntos. Eles enfrentam as dificuldades diárias; a história segue seu curso.

Uma excelente narrativa, mas nada supera seus contornos. O contorno (ao redor da personagem e da narrativa) vale pelo filme inteiro. O cenário, a cidade, a urbe, os guetos. Os guetos negros vistos em profundidade de campo, os travellings desbravando a segregação racial. Ele encontra nos travellings e na profundidade de campo a possibilidade de retratar uma situação ou um grupo de forma crítica e política. Se aprofunda naquela realidade. A fotografia contrastada na medida certa, reforça isso e acaba servindo para ter uma ideia do que era o convívio negro e apartado. Ela segue a lógica do cinema que se direciona para os gestos em si, a força dos gestos (da mesma forma que Killer of Sheep)  – a mim lembrou um pouco a plasticidade de uma certa Claire Denis. Nunca tinha visto também aqueles cantos paroquiais em sua relação mais social e cultural de sua relação de convívio, de exercer uma cultura e seus gestos mais do que seu lado religioso, sem criticá-la, mas exprimindo seu lirismo. A atenção ao canto multitudinário, o canto polivalente de força e resistência através da religião em toda sua poeticidade como linguagem própria de uma cultura (que aliás vemos, possivelmente, de onde surge em 12 Anos).

É de chamar atenção aos diálogos com algumas frases que ficam ecoando por muito tempo na cabeça, como:

“You’re acting like a nigger with no sense.”

“If you wanna work like a real nigger you can always go on and Chuck of cotton”
“They done this too long in my family.”
“They pay you 3 dollars a day… and all the cotton you can eat.”

“Yeah, I might have something for you… if you wanna put up an uniform.”

“Goddam boy, you must think you are White”.

As dificuldades que vão surgindo para Duff são, como vê-se em algumas falas, principalmente de arranjar emprego. E não são só as dificuldades de encontrar algum emprego (que serão sempre braçais), mas os conflitos que surgem durante o trabalho com os brancos – com eles ou para eles. Estes sentem-se no dever de pentelhar e jogar sempre na cara dos negros a sua condição histórica e social, sua função e sua posição em relação à eles. Até a implosão. Até o momento da violência – física ou não –, na ordem pública e social, se repetir na ordem privada. E é essa violência que ele leva quando chega em casa.

Só não consigo ver até que ponto isso contava na intenção dos realizadores – de criticar esta situação –, de colocar as relações de poder entre gêneros, onde acaba caindo – talvez acidentalmente –, da mesma forma que as relações raciais e de classe.
Nothing But a Man difere de Killer of Sheep, onde não temos um elenco branco – a cena do matadouro, onde aparecem alguns brancos, foi feita mais no modo de filmar documental, apenas colocando o ator no cenário, gravando quem estivesse lá à mercê do acaso. Mas são excluídos de qualquer papel narrativo. Nothing But a Man, ao trazer personagens brancos com papel secundário, faz questionar onde estavam os negros na cinematografia norte-americana hegemônica. E por isso mesmo, por ter a maioria do elenco negro, e alguns papéis para os brancos (mas apenas para reforçar que ainda há uma barreira muito forte), consegue nos jogar a maioria branca no cinema norte-americano, a não ser em filmes específicos ou periféricos como este, principalmente em filmes B, que tratem de algum assunto que caia na negritude.

Um filme não terá um tema “universal” (com quantas aspas você quiser) com um personagem negro, salvo em raras exceções. O fato de um elenco inteiro negro lembra sempre que durante sua contemporaneidade fazia-se filmes com elencos apenas brancos, mas pelo motivo contrário. Mas ambos os motivos são políticos. Um de resistência, denúncia e luta, outro de perpetuação. Uma perpetuação que parece até ficar incontornável, devido à segregação incontornável – incontornável no sentido de ser impossível não tocar no assunto, que muitas vezes prefere não tocar. Nos joga a pergunta, lembrando das relações de poder que vão ficando mais sutis, quais os papéis que um negro encarnará no cinema, se formos ver do ponto de vista ideológico, mercadológico e de importância para a narrativa. Qual a função de seu papel, já que cada papel possui uma função especifica em sua representação, e é incontornável o histórico social em relação a uma representação cultural de um grupo.

Ambos os filmes, da relação dos personagens com o cenário, dir-se-ia, são uma mistura entre o neorrealismo (como muito enfatizaram para Killer of Sheep em sua questão estética e técnica) e a estética urbana de Cassavets, que também deve muito ao neorrealismo italiano, mas seria perder muito a discussão ao dar o mérito desses filmes por causa desta referência estética em que eles se inspiram, com o cru, a câmera de mão, a importância no cenário para uma situação histórica. À certa altura, falar da influência do neorrealismo no cinema contemporâneo é quase a mesma coisa que ficar chovendo no molhado, mas a vida segue.

Já em Killer of Sheep teremos um filme que não se preocupa com a narrativa linear da mesma forma que Nothing But a Man (apesar de ter uma narrativa com algumas semelhanças). Killer of Sheep é um filme de ensaio. Sem “jogar nada na cara”. Como colocado pelo crítico Ernest Hardy, é um filme silenciosamente revolucionário que “veio ao mundo entre duas ondas populares de cinema americano negro: o período de blaxploitation dos anos 70 e a revitalização liderada por Spike Lee nos anos 80”, não pertencendo a nenhum desses territórios. A banalidade da vida e do ambiente de convívio do protagonista, que é motivo de seu cinema de ensaio. O filme é sobre a vida de Stan e sua família. Ele trabalha em um matadouro por longas horas, precisa arranjar mais dinheiro, sente-se cansado e se envolve em vários episódios.

Tanto a família quanto o filme não parecem ter nenhuma pressa. O filme dá atenção demais para os personagens em si, suas expressões e seus gestos. Aqui o preto e branco é acinzentado, quase neutro. O contorno está lá muito forte, mas fica difícil ter o que dizer sobre o filme sem cair em algumas armadilhas críticas. Fica-se mais difícil saber o que dizer com esse filme. Talvez seja por isso que seja um filme tão silenciosamente revolucionário. Silenciosamente denuncia, silenciosamente revoluciona e com um potencial estético torrencial. Ele consegue explorar mais uma vez o simbolismo das ovelhas (famosas ovelhas Chaplinianas) com quase a mesma conotação política, mas revigorado e mais adaptado ao seu tema.

Ele foca em seus personagens e nada a não ser a sua vida; mas ela tem motivos que a antecedem. É sobre eles naquele período histórico dos Estados Unidos. Talvez pelo fato do diretor ser negro, diferente de Nothing But a Man, que foca tanto em seus personagens, ou melhor, seus motivos, pois talvez para ele as raízes já sejam bastante claras e seus motivos mereçam a atenção que nunca tiveram em nenhuma cinematografia ou outro campo, desta forma. Talvez seja impossível entrar na cabeça de um diretor, mas o filme está ali com as suas possibilidades delimitadas pelo que ele mostra. Nothing But a Man se preocupa mais em sua denúncia, talvez até por isso sendo mais um filme narrativo e combativo (que curiosamente tem um final feliz) do que um filme de ensaio – mas não menos à frente de seu tempo. Em Killer of Sheep, a segregação é total, não tem futuro prescrito ou perspectivas sobre ela, mas apenas ensaia em cima dela. Deste, podemos dizer que tem um final que, apesar de denúncia, é lírico – tem uma transição de planos onde consegue fazer política e poesia ao mesmo tempo – e, de tão brilhante, dá vontade de arrancar a própria cabeça.

P.S.: No campo da cultura pop, o episódio de Duff batendo em Josie quando chega em casa acabou me lembrando da música “Woman is the nigger of the world”, de John Lennon. Após ser proibida de tocar em várias rádios por ter a palavra “nigger”, não foi tida como absurda nem por amigos de Lennon que pertenceram aos panteras negras, mas por geralmente homens brancos, de acordo com ele. Inclusive, quando Lennon vai ao programa do Dick Cavett, ele lê o que Ron Dellun, que foi do Congressional Black Caucus, escreveu e batia coincidentemente com sua letra: “If you define ‘niggers’ as someone whose lifestyle is defined by others, whose opportunities are defined by others, whose role in society are defined by others, then Good News! You don’t have to be black to be a ‘nigger’ in this society. Most of the people in America are ‘niggers’”.

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