Crítica: ‘Jovem Aloucada’

em 9 de maio de 2014

Informações

  • Título: Jovem Aloucada (Jovem Y Aloucada)
  • Diretor: Marialy Rivas
  • Roteiro: Marialy Rivas, Pedro Peirano, Sebastián Sepúlveda e Camila Gutiérrez
  • País: Chile
  • Ano:
  • Elenco: Alicia Luz Rodríguez, Aline Kuppenheim, María Gracia Omegna, Felipe Pinto, Alejandro Goic, entre outros

Mãe. Pai. Xota. Família evangélica. Bunda. Boquete. O tio pastor. Namorado. Jesus. Internet. Namorada. Inferno. Adolescência. Cu. Câncer. Bíblia. Pecado. Batizado. Sexo. Cinema chileno.

Jovem Aloucada é um recorte honesto e natural da vida de um jovem de classe média, Daniela Ramírez, e sua turbulenta relação com a família evangélica, diante dos questionamentos sexuais da menina que, para extravasar, conta suas intimidades num blog.

O filme, inexplicavelmente há três semanas em pré-estreia no Rio de Janeiro (apenas em um cinema e em um horário), foi exibido na excelente e necessária mostra O Novo Cinema Chileno da Caixa Cultural, junto com outras pequenas pérolas como Glória (Sebastián Lelio, 2013, prêmio do júri e de Melhor Atriz no Berlinale), De Quinta a Domingo (Dominga Castillo, 2013) e Tony Manero (Pablo Larraín, 2008).

Muito melhor que Nymphomaniac (Lars Von Trier, 2013) em retratar a sexualidade feminina (se é que essa intenção chegou a passar pela cabeça de Lars), ou Azul é a cor mais quente (Abdellatif Kechiche, 2013), fugindo de fetichismos, esse pequeno filme de Marialy Rivas despe-se, no estrito sentido do termo, de pudores tradicionais para mostrar as dificuldades do enfrentamento das questões sexuais de uma menina de 18 anos, cercada pela carolice puritana do Cristianismo. (Pensando bem, talvez seja esse o motivo para ter sido jogado para escanteio nos cinemas daqui).

A obra faz o que falta a muito filme pretenso cult que quer ser revolucionário ao tratar de sexo: dá nome aos bois. Cu é cu, xota é xota e não há necessidade de eufemismos. Assim é a narrativa honesta de Daniela (a ótima Alicia Luz Rodríguez), mas as plateias, desacostumadas, facilmente poderão confundi-la com vulgaridade.

Existe uma veracidade em tal relato difícil de conceber e a narradora não só comove, como encanta e diverte. Menina tímida e retraída, Daniela é um caixa de pandora que se abre no mundo online – como tantos jovens hoje em dia, onde as ciberrelações são muitas vezes mais honestas que as pessoais. Na narração que nos oferece, que é ao mesmo tempo os escritos de seu blog e seus pensamentos, a menina é dotada de um humor cortante, que funciona também como crítica brutal à hipocrisia e autoritarismo da mentalidade burguesa new-cristã da classe média ocidental.

Obrigada pela mãe a trabalhar num canal de TV evangélico, começa a namorar um dos funcionários, mas reclama da carolice do rapaz, que só quer transar depois do casamento. Tanto para extravasar sua “xota sempre em chamas”, quanto para viver a experiência, a menina começa simultaneamente uma relação com outra funcionária do canal, essa muito mais aberta e até não religiosa.  O problema é que Daniela se vê, assim, dividida entre dois amores, entre a menina e o rapaz, entre a relação lésbica e o “varão de Deus”.

E por que ela não pode viver as duas coisas? Ela se faz essa pergunta, sem dúvida honesta quando se discute a validade dos padrões comportamentais diante da complexidade bem maior das vida cotidiana, tais como a sexualidade, tão básica e constituinte do ser, mas historicamente tão reprimida e criminalizada. Sem aprofundar o tema com psicologismos ou teorias acadêmicas, mas sim com muitas brincadeiras estéticas e jovialidade, o filme foca no enfrentamento dessas questões e faz a crítica necessária à postura dos pais que transmitem aos filhos, quase sempre de forma autoritária, seus intentos e frustrações. A mãe de Daniela, Teresa (Alice Kuppenheim), é símbolo da neurose agressiva das mães modernas.

Daniela não tem nada de especial dentre as outras jovens de seu país, e certamente também não diante das jovens brasileiras. Assim, e pela forma narrativa do filme, torna-se impossível fazer julgamentos morais de suas decisões, mesmo diante das que a prejudicam ou lhe trazem sofrimento.

Brincando com texturas, cores, muitas cores, intervenções na tela, recortes na linha narrativa e cultura pop, o filme dialoga com a audiência numa linguagem muito tangível, quase no estilo hiperlinkado da internet. Além disso, não deixa de ser chileno, mantendo a marca de um Cinema sem exageros e que privilegia o roteiro, mas também se expande para o global e o moderno.

Retrato fino que pode passar despercebido, Jovem Aloucada tem daqueles realismos que de tão bem sucedidos nos fazem esquecer seu caráter ficcional, mas vale lembrar que sua trama saiu de uma história real. Aí está o grande valor desse filme: real como a vida, honesto com os dilemas atuais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.