Sheherazade indígena

em 3 de junho de 2014

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“Esses dias eu vejo um indivíduo colocando em sua tapioca apresuntado, queijo e coco. Eu digo: não. Não eshtrague a minha cumida”.

Tapioca, segundo o Elio de Souza, taxista, paraense, nativo de Marabá mas morador de Belém há 14 anos, tem que ser simples: quentinha e só com coco. “Junto cê toma 1 litro de açaí com farinha e bala! Pronto pra um dia de trabalho”.

Foi ele que me deixou na 18ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que acontece entre os dias 31 de maio e 10 de junho, em Belém.

Algo que nós, paulistanos, poderíamos de chamar de “Anhembi” do livro, o evento reúne centenas de editoras em um mesmo centro de convenções, o Hangar 1, e um público de quase 500 mil pessoas – pude notar que, em sua maioria, crianças. Um contingente impressionante, ainda mais para uma cidade de 2 milhões de habitantes.

Conversei com a coordenadora do projeto, Ana Catarina Brito, que o realiza há 18 anos. Segundo Ana, o evento é temático – cada edição homenageia um país e um autor. Dessa vez escolheram Qatar e Milton Hatoum, amazonense de ascendência árabe. Ficou um clima meio Sheherazade indígena – bem exótico.

O sucesso da feira se dá, em grande parte, por causa do investimento estatal. Muitos dos professores municipais, de várias regiões do Pará, se organizam para trazer os alunos à capital. A viagem é garantida com a ajuda da Secretaria da Cultura.

“Mas as pessoas compram os livros, ou vem mais para passear?”, indaguei. “Ô se compram! Aqui no Pará a gente tem uma política pública que se chama Cred-Livro. O governo disponibiliza R$ 200 para professores das redes municipal e estadual para gastarem só aqui. Os professores universitários ganham R$ 300”, disse.

“Que tipo de autores eles compram?”, quis saber. “Os locais. Os escritores daqui costumam visitar, durante o ano, várias escolas da capital e arredores como parte de um projeto de educação do governo de estímulo à leitura. Assim ficam conhecidos antes da Pan-Amazônica. Aqui eles promovem o Encontro Literário com Escritores Paraenses, fazem rodas de leitura e inclusive lançamentos. É o caso, por exemplo, do Alfredo Garcia, Franciorlys Viana e Míriam Hanna”.

Ser árvore

Ser árvore;

Amanhar

entre as manhãs

os musgos, os mênstruos

da seiva, em si,

cipós

de sóis

estendidos ao

porto do ser.

Ser árvore, entre-lugar

algum onde pousam

asas indecifradas

de pios roufenhos

e um rio sopra

uma ária breve

emaranhada

de manhãs.

Do livro “Frutos Diáfanos”, de Alfredo Garcia, Prêmio Max Martins de Poesia, IAP, 2013

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