Uma conversa com João Gilberto Noll

em 6 de junho de 2014

Por Thiago Souza de Souza

Fala devagar, a voz muito calma, às vezes respeitando longos silêncios como se esperasse as ideias saírem detrás de uma nuvem escura que lhe atrapalha o pensamento. Olhos fitando o vazio, só encara o interlocutor para ouvir. Cabelos brancos, barba sempre por fazer. Mora sozinho – ou melhor, divide um apartamento no centro de Porto Alegre com os livros. Não à toa, sua literatura é sobre a solidão. Trabalhou com jornalismo, foi revisor de editora e começou a publicar tarde, aos 34 anos. Diz que sempre escreveu a história de um mesmo personagem, um homem errante, que vive aos esbarrões, sempre à procura de algo que não sabe o que é.

João Gilberto Noll é um dos escritores brasileiros mais premiados da atualidade. Já recebeu cinco Jabutis, em 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Seu gosto pela escrita veio ainda na adolescência, graças à timidez que o fez optar por “aquilo que você faz sozinho, a literatura”. Gaúcho, chegou a morar por mais de 20 anos no Rio de Janeiro, mas voltou para a introspecção de Porto Alegre a fim de fugir daquela cidade muito dispersiva e se dedicar mais à literatura. Nos anos 90, deu cursos de literatura brasileira na Universidade da Califórnia, no campus de Berkeley. Foi escritor residente no King’s College de Londres nos anos 2000, quando escreveu o romance Lorde.

Denomina-se um escritor de linguagem, prefere a vírgula ao ponto, se preocupa em relatar a pressa dos nossos dias. Para Noll, escrever é principalmente cortar. E o silêncio, uma das condições indispensáveis para o ato da escrita. A literatura é a sua religião, o objeto de seu fervor. E por que ele escreve? Porque vai morrer. Nesta conversa, que não segue nenhuma linha a não ser a da aleatoriedade, Noll fala de sua obra, de seu processo criativo, de sua necessidade de escrever, da morte.

 

Como e quando tu começou a escrever?

Foi na adolescência, eu tive uma infância muito voltada pra música, eu sou voltado pra música até hoje. Cantava em festas, no colégio, em casamentos. Minha adolescência foi muito tímida, então realmente me apartei um pouco dessa coisa de ficar exposto, cantando, e fui me dedicando àquilo que você faz sozinho, a literatura, que depende só de você mesmo. Foi aí que começou. Eu demorei a publicar, era muito exigente com o que eu fazia, fui publicar só com 34 anos.

 

Antes disso tu chegou a trabalhar em outras coisas?

Fui jornalista, revisor de editora. Eu morava no Rio nessa época, morei muitos anos no Rio. E voltei porque eu achei que aqui eu teria mais tempo pra me dedicar mais à literatura. Isso realmente aconteceu. Minha produção se multiplicou aqui.

 

Mas por que tu acha que aqui tu conseguiu multiplicar essa produção? O que tem aqui em Porto Alegre que lá no Rio não tinha?

O Rio é uma cidade muito dispersiva, tem muitos apelos. E eu acho Porto Alegre uma cidade mais introspectiva. Aí comprei esse apartamento aqui, fiquei no meu canto, no meu cantinho.

 

Já que tu falou no jornalismo, o jornalismo te facilitou pra escrever ficção ou te atrapalhou? Os vícios do texto jornalístico podem atrapalhar a escrita de ficção?

Pra mim não atrapalhou. Eu acho que ajudou no sentido da síntese. Quando você é muito novo, você não tem muita capacidade sintética, você é meio perdulário com as palavras. Eu acho que é bom que o escritor pense no leitor assim como o jornalista pensa no leitor, porque ele quer uma coisa mais limpa. Embora você seja um escritor barroco, tem que ir limpando o texto dos excessos, daquilo que dispersa a atenção.

 

Tu corta muito os teus textos? Escrever é também cortar?

Corto, bastante. É principalmente.

 

Tu não tem medo de jogar fora, de talvez estar descartando uma ideia que tu possa reaproveitar depois? Não tem aquele apego ao que tu escreve?

Eu não tenho medo é do adjetivo. Eu acho que o adjetivo é muito, digamos, mal compreendido, há muito preconceito contra ele. Muitas vezes, ainda mais na nossa época, você pode definir certas coisas mais por seus atributos do que pela própria substância da coisa, os valores estão muito confusos. Então você tem que se cercar com aquilo que você quer nomear, colocando seus atributos, seus adjetivos. Também não excessivamente. Mas eu não tenho receio do texto lírico, do texto que passeia, que não fica só na narrativa expressa. Como a pedra que cai no rio e vai formando aqueles círculos em volta. Acho que a literatura às vezes se debruça muito mais pelos círculos que foram criados em volta da pedra do que na própria pedra. Eu pego aquilo que ninguém vê, aquilo que passa batido. É uma das funções, a meu ver, da literatura. É pegar aquilo que passa batido pela desatenção cotidiana. Mas não há de se ter medo dos pormenores. Tô falando do corte mais gramatical, de não ter medo de cortar aquilo que é vicioso, que é redundante e não ajuda o texto.

 

Tu prefere a vírgula ao ponto? Dá pra perceber que o teu texto é bem fluído, onde podia ser um ponto tu coloca uma vírgula e continua, e vírgula, e vírgula…

É a pressa, né. É relatar a pressa no mundo de hoje. Não é uma coisa intencional mas eu me dei conta nos últimos tempos que num mundo de velocidade a literatura tem que refletir isso. É ir aos trambolhões, substituir: o que seria um ponto, ser uma vírgula. Escrever não é beletrismo, não é escrever bonito. Escrever é escrever aquilo que está em carne viva. Daí a importância das frases longas, a necessidade de ser simultaneísta, de dizer tudo ao mesmo tempo. Porque nós vivemos num mundo assim, não é? Um mundo onde impera a velocidade. Eu acho que a literatura, ela é mais ou menos uma somatização disso tudo. O estilo é uma somatização das características de sua época. Não é uma catequese do bem escrever, mas realmente a somatização dos próprios efeitos da sua época.

 

A literatura então não tem esse papel de tentar organizar esse caos que é o mundo de hoje?

Não, pelo contrário. Ela tem que mostrar isso.

 

O que tu pensa da internet? Ela atrapalha pelo tanto de informação que ela oferece, que leva o leitor de um lado pra outro?

Eu não uso muito a internet. Não sou um grande navegador. Só e-mail.

 

Uma vez li uma pesquisa que dizia que por causa da internet a gente se acostumou a ler textos muito curtos, e por isso não conseguimos mais ler um romance de ponta a ponta. Nosso cérebro não consegue se concentrar mais. Tu acha realmente que isso pode acontecer?

Isso pode acontecer, sim. Tanto que o romanção está em crise, né. Pouca gente hoje tem paciência pra ele. O grande romance, a grande narrativa, isso é uma coisa típica da tradição literária do século XIX, um pouco do século XX também. Mas a narrativa que impera hoje é uma narrativa mais breve, não resta dúvida. Eu não tenho ambição do grande romance, no sentido quantitativo. E realmente eu acho que o romance muito volumoso tá em crise.

 

Tu prefere escrever textos mais breves.

Eu prefiro. Acho que sempre preferi, com exceção de A fúria do corpo, que é um romance maior, tem duzentas e poucas páginas. Porque a média de páginas dos meus livros é 130, 150. Não passa muito disso.

 

Como funciona teu processo criativo?

Eu sou muito compulsivo pra escrever, eu vou num estado de esvaziamento já pro computador, pra preencher a tela. Não tem roteiros pré-estabelecidos. Tem aquele personagem central, mas o que eu vou fazer com ele aquele dia eu não tenho muita ideia, não. A coisa, o enredo, vai acontecer no ato da escrita.

 

Tu não planeja nenhum dos teus livros, então? Não faz nenhum esboço? Não tem uma folha de anotações, nada? Tu só senta e escreve?

Só sento e escrevo. Não tenho a menor ideia do que vai acontecer, como vai terminar. É uma aventura pra mim, escrever.

 

É a própria linguagem que vai ditando o ritmo da história que tu quer contar?

Ah, eu sou um escritor de linguagem. É a linguagem que me puxa. A linguagem tem uma força estruturante para o enredo. É dela que nasce a história, e não o contrário, no meu caso, é claro.

 

Tu escreve, na maioria das vezes, sempre com esse mesmo personagem. Ele é um personagem que parece estar sempre em movimento, chegando, partindo, esbarrando em pessoas aleatórias. Por que isso?

É uma coisa tão básica o que eu faço que fica difícil de dar assim uma razão específica. Porque realmente eu trato de um cara desfamiliarizado, de um cara avulso, que procura uma coisa que não sabe o que é e tá fugindo também de uma coisa que não sabe nomear. É um cara que se explica pelo trânsito. Ele precisa estar em trânsito. Eu não faço crônica de costumes. No interior das casas acontecem repetições que não me interessam muito revelar na literatura. É a crônica familiar, e isso não me interessa. Me interessa contar a história de um cara desterrado, que está a procura de alguma coisa porque o mundo em que ele está imerso é insuficiente pra ele. É o sentimento de insuficiência que leva ele a correr desse jeito pra lá e pra cá. Ele realmente tira prazer da vida em momentos muito esparsos e talvez rápidos (não sei se rápidos, o desejo dele nem é esse). Ele tem um desejo oblíquo de manutenção de um estado melhor, mas ele tem dificuldades de construir isso.

 

Ele não sabe o que é esse desejo? Tu sabe o que é esse desejo?

Não sei.

 

Tu escreve pra descobrir?

Eu escrevo pra descobrir, justamente. Eu escrevo porque eu não sei. Se eu soubesse realmente a destinação desse cara eu não precisaria escrever. Eu escrevo pra ver se eu encontro um paradeiro pra ele, e olha que tá difícil de encontrar. Tá difícil de encontrar um paradeiro pra ele. Mas eu sou fiel a ele, esse cara habita em mim, e é ele que eu quero continuar mostrando, revelando. Porque eu não posso abandoná-lo. Ele me dá literatura, e a literatura me deu tudo. Se não fosse a literatura eu não estaria aqui conversando contigo. A necessidade que eu tenho da literatura é muito grande, é vertical. Ela é tudo pra mim.

 

Ele é um cara solitário?

Ele é um cara solitário, sim. E eu trato muito da solidão. Até porque a solidão é um dos temas básicos da nossa existência hoje. Pelo menos nas grandes cidades. As pessoas estão avulsas. É sobre a solidão que eu falo. Como desejo e como insuportabilidade dela, ambas as coisas.

 

Nos livros que eu li, esse personagem sempre sonhava muito. Por meio desses sonhos tu quer explicar, dizer algo? Eles funcionam como metáforas? Tu gosta de usar metáforas?

Eu gosto de usar metáforas, sim. Eu acho que eu escrevo na fronteira entre a prosa e a poesia, e o que é a poesia sem metáfora? É aquilo que eu falava, eu sou um escritor de linguagem, não estou tão preocupado assim com o enredo. Mas sim com esse clima sonambúlico, esse personagem sonâmbulo, ele vive entre o sonho e a realidade. E não fico muito preocupado também em explicar os sonhos. O sonho tem vida própria. Ele se auto-explica, como a vida. E eu nem me dava conta de que tem muitos sonhos nos meus livros. Eles enriquecem o personagem. O romance ele é mais pobre sem os sonhos.

 

Teus livros são uma viagem no inconsciente desse personagem. Pra ti, o ato de escrever também é um ato inconsciente?

É, é um fluxo inconsciente. Eu não domino o que eu escrevo. Esse conteúdo vem do inconsciente. Que é algo tão silenciado, né. Eu escrevo aquilo que a gente não comenta na vida social, aquilo que a gente cala. Eu quero aquilo que é calado pela maioria. Eu quero aquilo que não se diz nas reuniões sociais. Às vezes escrever me dá muita vergonha em função disso. Eu tenho vergonha das coisas que eu digo. Eu digo coisas que realmente eu não digo socialmente. É como levantar o tapete e mostrar o que está debaixo dele, aquilo que todo mundo esconde. E pra fazer isso eu preciso escutar o inconsciente mesmo, o recalcado.

 

Tu pensa muito na morte?

Eu penso. Eu penso, sim. Mas é um amor inapelável, né. Eu digo a necessidade que você tem de distingui-la, né. É por isso que eu escrevo também. Porque vou morrer. Se não fosse morrer eu não escreveria. Pra quê? Estaria coçando o saco. Eu acho que isso acontece de uma forma geral. Toda a cultura, Freud já apontou isso, ela é construída pelo sentimento de brevidade da vida, de finitude.

 

Escrever seria também uma maneira de existir, então? A única maneira?

Pra mim seria a principal, a central. É impossível calar aquilo que eu não digo normalmente, mas que urge dizer.

 

Tu te preocupa em relatar a morte na tua ficção? Esse teu personagem tem medo de morrer?

Acho que sim. Eu acho que faço uma espécie de auto-ficção nesse sentido. Esse personagem vem de mim mesmo. Fui eu que o criei pra poder expressar aquilo que é vergonhoso. Então eu coloco ele pra que ele seja, digamos, apedrejado.

 

Ele é bastante autobiográfico?

Mais ou menos. Bastante não. Porque se eu vivesse no pique dele, acho que eu não estaria mais vivo. Tamanha a intensidade, a ferocidade, a verticalidade com o que ele vive. Ele não se poupa. Ele é muito radical. E eu como ser humano não sou radical como ele.

 

Quais são as condições ideias pra escrever?

Eu acho que é silêncio. Entrega, né. Estar em condições de se entregar a esse ritmo. Encontrar o ritmo certo. E nesse sentido eu sou muito musical, eu acho que tem muito de ritmo na escrita e no meu próprio estilo. É encontrar o ritmo. Mas isso só através de muita entrega, de muito silêncio, de muita atenção. Uma atenção tão atenta, digamos assim, que chega a ser dispersão total. Dispersão quer dizer disponibilidade para o que vier. Você tem que estar disponível. Por isso deve estar disperso do restante. Tem que ter uma disponibilidade, pra essa linguagem, sem tamanho. Por isso que tem um pouco de religioso nisso também. Eu não sou um cara religioso, mas com a literatura, acho que eu sou um pouco, sim. O fervor por ela. É uma atividade de muito fervor. É uma crença que, através dela, eu consigo de alguma forma suplantar a mim próprio. Dá muito prazer. Dói de um lado, sim, você está tocando coisas que você não deveria tocar em termos de padrão social. Mas por outro lado, também, a língua portuguesa é erótica. O trabalho com a palavra é erótico. Você quer um certo tipo de beleza, sim. Não a beleza clássica, cadavérica, mas uma beleza pulsante, contemporânea. É prazer também, não resta dúvida. Você ficar satisfeito com um texto que você escreveu, tentou criar um outro mundo, uma outra realidade, por insuficiência dessa: isso é muito prazeroso. Essa tentativa, enfim. Você nunca sabe direito se acertou ou não, é uma tentativa.

 

E não cansa? Te traz esgotamento?

Cansa, sim. Mais mental do que físico. Esgota quando você termina um romance.

 

Tu acha que um dia vai parar de escrever?

Não. Não acho que seja possível. Porque eu não consigo ver a vida sem uma atividade. Quer dizer, fazer o que se não for escrever? É matéria de salvação. A escrita é matéria de salvação. Não que você saia dela melhor. Mas mais íntegro. Você desvelou alguma coisa recalcada. Recalque no sentido do não-vivido, do não-exercido. Não é nada sobre ressentimento quando uso essa palavra. O que me ajudou muito a encarar a literatura como um trabalho foi o tratamento psicanalítico que fiz quando eu tinha trinta e poucos anos. Que foi muito bom. Essa coisa de soltar o inconsciente eu peguei muito nesse processo psicanalítico. De deixar as associações livres acontecerem de uma forma que elas tenham significado. Porque a literatura tem esse valor também de ressignificar as coisas. A gente está muito viciado em ver as coisas de uma maneira mecânica, automatizada. A literatura retira um pouco esse modo de visão.

 

A literatura tem alguma obrigação?

Olha, eu acho que sem autenticidade não sai literatura, não se efetiva a literatura. Acho que a autenticidade é a única obrigação do fazer literário. É você realmente ser radicalmente através da linguagem. É a autenticidade, sim. E pensando bem, em todo romance existe essa luta do herói, ou anti-herói, como queiram, pela autenticidade. O romance mostra um personagem em busca da autenticidade. O que faz ele sofrer é não conseguir ser autêntico. Nesse sentido, o herói romanesco é um cara muito autêntico. Não abre mão da sua individualidade. Porque o romance é filho da ascensão burguesa. O romance vai aparecer no século XVIII, XIV. Até então o que valia no ser humano era ser filho de alguém, era ser fidalgo, ser filho do conde, do rei, príncipe. E com a ascensão da burguesia o que interessa é o indivíduo, que começa aos poucos a valer mais. Então o herói romanesco, que vem dessa ascensão burguesa, ele luta por esse pertencimento a uma ordem mais humana, que ele seja inserido com mais força, mais verticalidade, e isso eu não vejo que tenha mudado muito. A história desse herói, ou desse anti-herói, dos romances continua sendo essa. Você pega, por exemplo, nosso belíssimo escritor brasileiro Raduan Nassar. Como essa realidade está presente nos romances dele! Lavoura arcaica é isso! É um cara que foge do seio familiar pra gravar a sua potência humana, pra se divorciar da palavra paterna e atingir a sua autenticidade. Se ele vai conseguir ou não.. talvez não, porque essa é uma luta individualista, portanto é uma luta de uma certa forma alienada também. O cara se subleva contra a alienação se retirando, o que não deixar de ser uma outra alienação. As contradições. O que seria do mundo da arte sem as contradições, não é? Seria a pasmaceira geral. É uma contradição essa luta do herói do romance. Porque ele vai fugir da alienação social, vai apreender uma luta individual, e por ser individual, ela é alienada também, está fadada ao insucesso. De um modo geral, né. Não há uma lei em que se concerne a arte.

 

Quais são os teus autores preferidos?

Acabei de falar de um, que é o Raduan Nassar. A Clarice Lispector é uma autora magistral. Também fronteiriça entre prosa e poesia. Henry Miller. E muita poesia: Drummond, Quintana. Eu leio muita poesia, tanto quanto ficção. Juan Rulfo. Octavio Paz, que é um pensador da literatura ímpar, uma grande voz do pensamento latino-americano, além de ser um poeta. Ele fala uma coisa que sempre me marca muito. Ele tem um livro chamado Signos e rotação. Ele fala sobre a ambiguidade da obra de arte. Quanto mais ambígua, mais rica. Dependendo do momento que você lê uma obra, uma mesma obra que já tenha lido antes, essa obra está em rotação, você já vê outras coisas que não tinha percebido na primeira leitura. Essa coisa do signo em rotação me marca muito. Não é um mundo fechado. A gente está cansado de um positivismo tecnológico. Eu acho que a arte pode abrir essas portas, pra você ver a ambiguidade, a multiplicidade que as coisas podem ser.

 

Tu tinha dito que hoje não é mais religioso. Tu acredita em Deus?

Não. Não. Nesse momento, não. Mas tive uma infância bem religiosa, fui coroinha e tudo. Eu acho que eu transferi essa minha religiosidade da maneira com que eu lido com a literatura. Há uma certa liturgia na maneira como eu atuo na literatura, e mesmo nos meus livros, no resultado do que eu escrevo. No A fúria do corpo, aquele amor entre aquele homem e aquela mulher, é uma coisa litúrgica, religiosa. Ela, por vezes, é a Virgem Maria. E, por vezes também, é devassa. A questão da ambiguidade, né. É a história de dois mendigos em Copacabana, nessa época eu morava no Rio. Mas não é assim um documentário sobre a mendicância. Isso é um estado simbólico, um despojamento total. Então ela precisa em certos momentos se prostituir, por isso que eu disse que é devassa. Mas em outros momentos ela é vista pelo personagem central, esse homem de quem eu tanto falo, como uma santa total, absoluta. E como amante dele. É o meu livro mais barroco, mais excessivo.

 

É o livro que tu mais gosta?

Já foi. Hoje o que eu mais gosto é Lorde. Mas já foi por muito tempo. É um livro especial pra mim, A fúria do corpo. Por essa desfaçatez excessiva, justamente. Pornográfica.

 

Tem muito de sexo na tua literatura. É mais difícil escrever sobre sexo ou é natural?

Eu vou naquele embalo que eu te disse, naquele embalo de entrega que eu tô escrevendo. Depois é que eu posso me sentir meio com vergonha de mostrar aquilo para o leitor. Mas durante não, durante nasce naturalmente, como qualquer outra coisa. Senão não nasce, né? Fica travado. É um ato de liberdade, a literatura. Dos poucos que nos resta.

 

A literatura que se produz no Rio Grande do Sul pode ser comparada a do resto do país ou tu enxerga aqui um movimento mais forte?

Ela é tão boa quanto a do resto do país. A gente está vivendo um momento áureo. A geração de vocês, que está meio já com 30 anos, tem mostrado coisas muito, muito fortes. Caso do (Daniel) Galera, aqui do Rio Grande do Sul. Escrevi uma apresentação para um livro dele. Tem um corpo literário no Rio Grande do Sul, sem dúvida. Tem um corpo, é encorpada a literatura daqui. Nesse sentido talvez ela seja mais forte do que a dos outros estados.

 

Isso se deve a quê?

Pois eu não sei, rapaz. Ao clima, ao frio, não sei se seria isso. Aqui se cultiva muito a imagem do escritor, em Porto Alegre. Quando eu era garoto, Erico Verissimo era uma imagem poderosíssima. Eu acho que é uma imagem muito cultivada a do escritor aqui no Rio Grande do Sul, sem dúvida. Pra nossa sorte. Eu tenho gostado muito de dar oficinas literárias. Eu acho que é importante instigar num jovem autor, ou num autor que está começando ou não publicou ainda, o amor pela literatura, o cultivo do trato com a palavra. Poxa, eu acho fenomenal. Eu gosto muito dessa atividade. Você vê que surte efeito. As pessoas melhoram no decorrer da oficina, no seu teor ficcional. Eu gosto muito e acho que vale a pena. É muito bom pro escritor também, é uma atividade muito gratificante. Gratificante espiritualmente.

 

Tu acompanha mais algum escritor contemporâneo? Tem algum que tu gosta mais?

Eu já falei do Galera. Tem o Marcelino Freire, um pernambucano que vive em São Paulo. O Marçal Aquino. Adélia Prado, na poesia. Gosto bastante desses.

 

E a crítica literária no Brasil?

Acho que hoje tem jornais que incentivam a crítica, falam mais de resenha talvez do que crítica, coisa mais rápida. Como o Jornal Rascunho. Que dá chance pras pessoas opinarem, comentarem sobre livros em lançamento. Eu acho isso muito bom. Tu falaste dos contemporâneos, eu gosto muito do argentino César Aira, que é muito mal lido no Brasil. Agora sim, crítica com mais empenho em livros, não tenho acompanhado tanto. Eu leio essa crítica mais rápida.

 

É mais fácil publicar hoje ou quando tu começou?

Eu acho que hoje. Porque é mais fácil o acesso às editoras. Publicar quando eu era iniciante era algo mais difícil. Eu tive sorte. Eu vejo os jovens publicando seus livros. E há editoras jovens também apostando mais em jovens, como a Não Editora aqui, a Dublinense também.

 

Tu gosta de Paulo Scott, Michel Laub?

Ah, eu não falei do Paulo Scott, Michel Laub. Gosto muito. Muito do Paulo Scott. Do Michel Laub também, tem um pulso forte com seu estilo. Os três (Galera, Laub e Scott) têm características muito, muito fortes. Talvez o Scott ainda vá nos surpreender mais ainda. É sem dúvida um dos escritores jovens mais representativos da sua geração, mas vai nos surpreender mais ainda. Daniel Pellizzari também, gosto dele. Eu acho que a literatura gaúcha é, digamos assim, invulgar, principalmente nos novos escritores. Entre os novos escritores é o canto do Brasil que mais oferece possibilidades. E tem uma tradição, evidentemente. Estou aqui repensando se é mais representativa do que em outros cantos do Brasil. Porque Rio e São Paulo tu não pode colocar aí porque vem gente de tudo que é lugar, então eu acho que é mais difícil pensar numa literatura paulista ou carioca.

 

Qual o grande romance brasileiro recente, dos últimos cinco anos? Se tem algum…

Eu gosto muito desse livro do Scott, do índio. Habitante irreal. Baita livro. Estruturalmente é de lascar.

 

É esse?

Eu diria que sim.

 

Cinco livros indispensáveis.

Trópico de câncer, do Henry Miller. Orlando, da Virginia Wollf. A paixão segundo G.H., da Clarice Lispector. É que na hora é tanta coisa que vem à mente. O estrangeiro, do Camus. O apanhador no campo de centeio, do Salinger.

 

E literatura russa.

Gosto. Dostoiévski principalmente.

 

Tu prefere conto ou romance?

Eu prefiro romance. Pra ler e pra fazer.

 

Tu diz que está sempre escrevendo o mesmo livro. Isso tem a ver com esse mesmo personagem? Todo escritor está escrevendo o mesmo livro?

Tem a ver com isso, é sempre o mesmo personagem que está em questão. Eu não sei, tem uns escritores que variam mais. Mas no fundo as obsessões são as mesmas. Você sente muito isso no Scott, por exemplo. Acho que o Scott é mais irregular, então ele tem mais pra dar, mais pra acertar. Eu acho, sim, que a literatura é um poço de obsessão. Nesse sentido o escritor estaria escrevendo sempre o mesmo livro. Mas cada um sabe onde a pedra tá doendo no pé. Amor e morte são temas muito presentes. E são os temas principais da literatura, como da cultura de um modo geral. O dinheiro também. Essa tríade de temas. Em mim o dinheiro tá menos presente como tema, mas nos americanos, por exemplo, o tema aparece. A coisa do loser, do perdedor, que tem a ver com o status, é muito presente. Solidão tem a ver com o amor, com a falta de.

 

Qual a importância que os prêmios têm pra ti?

A importância é quando vem com grana. Dá um estímulo, sim, não vou dizer que não.

 

Infla o ego? Pode prejudicar?

Eu prefiro uma crítica entusiasmada com um livro meu do que prêmio, por si só. Mas quando o prêmio vem com grana, pra quem vive mais dedicado à literatura, como é o meu caso, vem muito bem.

 

Conselhos pra escritores mais jovens e iniciantes?

Ouvir sua própria voz. Não tem outro.

 

Por que tu prefere a primeira pessoa?

Porque eu sou um camarada muito ligado à subjetividade. Eu gosto de colocar em destaque a subjetividade do personagem. Preciso da voz dele. Eu sou um escritor da voz, por isso dei esse conselho. Essa própria voz pode estar embutida no protagonista, é claro. Mas eu sou um escritor da voz, quero saber o que ele está encaraminholando, e não tanto quais são os acontecimentos pelos quais ele passa, mas muito mais qual é a especulação interna que ele faz dos acontecimentos, é isso que me interessa. Eu me interesso muito pelo o que passa pela cabeça das pessoas. O que as pessoas ruminam mas não dizem. Então eu tento revelar essa ruminação na literatura.

 

Tu escreveu Harmada num bar de Ipanema (zona sul de Porto Alegre). Por quê?

Foi. Naquela época eu morava num apartamento que tinha uma parede na frente da janela que me incomodava. Eu precisava de um espaço maior pra olhar, pra posar os olhos enquanto eu não estou escrevendo. Eu escolhi um bar justamente na beira do rio, que tinha uma panorâmica enorme do rio. Um bar que me disseram que não tem mais. Um bar de encontros furtivos de chefes com suas secretárias, coisas assim, mas mais no almoço e no fim da tarde. À tarde não ia ninguém. Eu aproveitava esse tempo, escrevia num caderno.

Um comentário para “Uma conversa com João Gilberto Noll

  1. gente, vamos sair da bolha e acordar pra vida aqui fora?
    alguns dos livros mais vendidos e comentados desse século tem mais de 600 páginas. o livro extenso não está em crise.

    essa pesquisa aí sobre a Internet ser capaz de cancelar a capacidade de ler textos longos… pffff, que papo de ludita!

    informem, não deformem

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