F for Flip

em 30 de julho de 2014

F…

…de Flashes.

Passou-se um ano. Aliás, mais do que um ano; a Copa do Mundo atrasou totalmente a agenda literária brasileira. Pois bem: passou-se um ano e aquela coluna imensa, dividida em três ou quatro partes, que eu prometi (a mim mesmo e em voz baixinha, justo pra não ser cobrado por ninguém) escrever a respeito da Flip de 2013 não saiu do papel.

Pior: não chegou a ele.

Em minha defesa, tenho uma relação ambígua com esse tipo de coluna1. É difícil evitar o tom mais pessoal – para não dizer “umbiguista”. O que leva ao meu problema com duas formas de recepção possíveis: a dos que leriam a coluna como uma forma de ostentação (desconhecendo que minha vida não poderia ser mais ordinária) e a dos que não veriam nada de mais nas experiências relatadas (desvalorizando aquilo que para mim foi precioso).

Até agora passei a maior parte de minha vida adulta parada num cenário por um punhado de dólares a hora, exibindo roupas e sapatos, com o cabelo penteado, enquanto um famoso fotógrafo de moda me dizia o que eu devia sentir.
Ele gritando: Quero luxúria, gata!
Flash.
Quero malícia
Flash.
Quero fastio existencialista distante.
Flash.
Quero intelectualismo extravagante como mecanismo de defesa.
Flash.
(Chuck Palahniuk, em “Monstros invisíveis”)

Se há algo que se pode dizer com propriedade científica a respeito do mundo contemporâneo é apenas que “as minas pira no umbiguismo, mano”. Então, sigo assim. Mas, como se passou um ano, já deu para esquecer muita coisa. Sobraram alguns flashbacks, que me permitem alguns flashforwards.

…de Fome.

Comer em Paraty nessa época costuma ser caro. Muito caro. Bota caro nisso. Não sendo pago para trabalhar na Flip nem recebendo convite especial para os míticos jantares de que se ouve falar, resolvi que em 2014 guarneceria a mala com um bom número de miojos.

Depois informo se fiz uma economia considerável ou se terei apenas conseguido enjoar de macarrão pelo resto da vida.

…de Fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, far better.

Psycho killer quer esquecer”: sim, eu achava que o refrão dessa música do Talking Heads era em português. Descobri o erro na Flip. Isso que é lição de vida.

…de Fountain City.

O que seria de uma festa literária sem livros? Você carrega todos aqueles nos quais pretende pedir autógrafo, leva outros para ler durante as viagens de ida e volta a Paraty e compra mais alguns de autores que falaram muito bem nas mesas – isso sem falar nas edições raras que coloca na mala apenas para mostrar aos amigos que queriam dar uma olhada nelas (caso da obra citada no título desta seção, que citei em uma coluna anterior) e dos que se ganha de presente.

Deixa eu te contar uma coisa: livro pesa. Livro pesa muito. E as pedras do calçamento de Paraty não são especialmente boas para as rodinhas das malas. Aliás, as rodinhas não poderiam ser mais inúteis nessa cidade.

Mesmo assim, levamos pilhas e mais pilhas de livros. E um cachorrinho faz a mesma pergunta de sempre.

…de Fly, fly, fly, fly, uh oh uh uh oh.

Uma das coisas boas da Flip, dessa imensa reunião de pessoas apaixonadas por (ou que apenas trabalham com) literatura, é a possibilidade de fazer piada com algo que tanta gente acha pomposo, entediante ou (ui!) útil. Em outras palavras: memes literários.

Não sei se 2014 seguirá com a tradição do ano anterior, de usar títulos especialmente longos de escritores contemporâneos brasileiros com leves alterações para relatar atividades cotidianas, mas farei de tudo para manter na boca do povo (ou na minha, pelo menos) o meme inspirado por Elvira Vigna.

Alguns exemplos, direto de 2013:

– Barba ensopada de cachaça
– Todos nós adorávamos autógrafos
– Noites de pão de mel
– O que deu para fazer em matéria de entrevista com o Laurent Binet 2
– A tristeza extraordinária de quem voltou pra casa antes da festa do Posfácio
– Digam ao Pips que o trocadilho foi entendido*

*: Nosso editor foi o responsável pelo infame jogo de palavras que deu título a uma coluna de Vanessa Barbara. Este humilde colunista confessou “Tô rouco” pouco antes de ouvir a réplica do chefinho: “Tô Companhia das Letras”. Boa repórter, Vanessa testemunhou tudo.

…de Forcefield.

Deixo aqui registrado o meu desejo de dividir o quarto mais uma vez com a Dindi. Há duas Flips que conversas aparentemente corriqueiras se desdobram ao ponto de eu me assegurar de que, por causa delas, a Flip já teria valerido a pena. O teor delas, os temas, tudinho: guardo para mim. São dessas coisas preciosas que é melhor não dividir.

Para além dessa guria, posso resumir que a casa Posfácio me deu novos irmãos. (E guardo todo o resto do sentimentalismo para evitar constrangimentos.)

I feel so close to you right now, it’s a forcefield

O mesmo vale para muitos dos papos com pessoas aleatórias que se encontram em Paraty nessa época. Os encontros produzem fagulhas cerebrais que geram fogo mental pro ano inteiro3.

…de Fastio existencialista distante.

Permita-me o clichê: nem tudo são flores. Às vezes, rolam brigas, mal-entendidos, tretas. Costumo me irritar por algum motivo bem besta, só para ir de encontro à imagem de bobo alegre que costumam fazer de mim. Digo a todo mundo que escreverei um texto detonando aquilo que me tirou do sério etc. e tal.

No final, findo me contentando com uma escrita mais política, que finge inexistir a causa da irritação a fim de me acalmar. Fiz isso na última Flip e funcionou bem direitinho.

…de Festa.

Porque é F de festa mesmo. Como disse há um tempão, Paraty é uma festa. Uma festa non-stop.

  1. Você pode ler alguns textos meus a respeito da Flip e da Fliporto no Posfácio, se estiver a fim: “Moves like Lenine”, “Tuca’s Infinite Playlist” (essa, aliás, foi minha primeira coluna aqui), “Sobre a possibilidade de redenção”, “O jogo da vida e do amor”, “O chorão de palestra”, “Literatura: qual é o jogo?”.
  2. Falhei tão miseravelmente que ela nunca foi publicada.
  3. Sim, eu também fiquei constrangido com essa frase. Mas foi o que deu para fazer em matéria de coluna escrita pouco antes de pegar o busão pra Flip.

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