Cúmplices

em 15 de abril de 2015

“A vida em si é uma citação.” – Jorge Luis Borges

Uma das coisas mais legais após a Flip são as turnês dos autores para quem não conseguiu estar em Paraty. Numa dessas oportunidades encontrei Enrique Vila-Matas sem saber que ele estaria no mesmo recinto, na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista. O autor estava lá para lançar oficialmente Ar de Dylan e dando uns vistos nos livros de todo mundo. Narrei esse acontecimento na época.

Comecei a ler o livro ao chegar em casa e encontrei um personagem familiar, não aqueles costurados entre-narrativas como os de Roberto Bolaño, mas um da vida real. Tratava-se de Emilio Fraia, em uma passagem breve da narrativa por São Paulo e pelo Mercado Municipal da cidade. Fraia era o editor de Vila-Matas na Cosac Naify e, claro, tinha contato direto com o escritor quando ele estava pelo Brasil. Não sei ao certo se a passagem é inteira verdadeira ou se apenas parte dela.

Considero os editores os maiores cúmplices dos autores; nem sempre são julgados pelo crime da publicação, mas estiveram envolvidos em todos os percalços da publicação. Tal qual Caetano W. Galindo acusa André Conti de ser um dos cabeças da operação Graça Infinita no Brasil. Ou mesmo no cinema com Martin Scorsese e Robert De Niro ou Leonardo DiCaprio. Ou Hitchcock e sua maior cúmplice, Alma Reville – com quem muitos dizem ele teve um envolvimento amoroso. Até eu tive meus momentos como cúmplice, quando Vébis Jr., na época da faculdade, me chamou para ser assistente de direção do seu curta-metragem Nas duas almas e concordei se pudesse fazer uma cena. Dali em diante, entre projetos nunca realizados, Vébis me contou a ideia sobre eu ser o “figurante” fetiche, que sempre apareceria brevemente.

Quão conveniente é isso? Seria possível, então, um leitor ser cúmplice de um escritor? Essa ideia palpitou na minha mente nos últimos tempos por causa do último livro de Antônio Xerxenesky, F.

Voltemos um pouco no tempo. Em 2012, foram anunciados os “Melhores Jovens Escritores Brasileiros” na primeira versão da Granta em Português. Muitos dos nomes eram figuras certeiras do cenário atual e uma delas era Antônio. Seu excerto era chamado “F. para Welles”, referência a F for Fake, do diretor americano; era um dos destaque da Granta. Tanto que muitos – confesso que eu mesmo – esperavam ansiosos pelo romance saído desse trecho.

Até onde eu sabia na época, Antônio era um cinéfilo – basta ler seu conto na coletânea 24 letras por segundo, em que ele se inspira em Hal Hartley (quem?) –, e muita coisa boa poderia sair dessa ideia de mostrar uma assassina contratada para matar um grande diretor de cinema. Ou melhor, grandes referências cinematográficas palpitariam nas páginas daquele vindouro romance.

Enquanto isso, um pouco depois dessa Flip e da leitura da Granta, comecei a dar atenções ao Netflix e seu catálogo de clássicos. Um dos que mais me cativaram foi “Twilight Zone”, a série clássica criada por Rod Serling e que viraria alicerce para diversas produções posteriores, incluindo aí continuações na década de 1980 e até adaptações de suas histórias para filmes, como A Caixa, de Richard Kelly. Comentei com uma amiga sobre “Twilight Zone” e ela também estava na mesma pegada maratonística de consumir a série inteira. Tempos depois, em uma conversa com o próprio Antônio, ele me falou todas as maravilhas que descobriu graças à série e me indicou episódios essenciais (um deles citando a participação de William Shatner).

Não divaguei, vejam bem. Quem leu F perceberá onde quero chegar. Em dado momento, Ana, a personagem principal e narradora do livro, fala sobre como um dos seus assassinatos foi planejado de acordo com o medo do alvo de um episódio muito famoso do seriado. A conversa despojada sobre “Twilight Zone” rendeu uma das partes mais divertidas do seu livro. Quando me deparei com a descrição daquela breve cena, me senti quase como um cúmplice de Antônio no seu livro.

Posso não estar envolvido diretamente com aquele trecho, mas aceito o papel de testa de ferro (bode expiatório, laranja, como queiram chamar) de um livro. Ok, agora divaguei.

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