Lugar Nenhum na África

em 19 de agosto de 2014

Lugar Nenhum na África: em 38, um juiz judeu sai da Alemanha com sua mulher e filha e vai morar em uma fazenda do Quênia. Lá é empoeirado, isolado, pobre, majestoso, belo, profundamente belo. É um filme bonito, um tanto ingênuo, um tanto esquemático, mas bonito. Sensível é uma boa palavra.

Na casa da minha mãe é possível contar dois faqueiros de prata completos, três jogos de porcelana austríaca estampada de florzinhas e um armário inteiro entulhado de cristais do leste europeu, incluindo um conjunto de cálices com a águia da Polônia. Quem vê, pensa que recebemos a realeza europeia com uma enorme frequência. Ou damos jantares elaborados toda semana. A verdade é que todo ano, em algum dia entre o natal e chanuká, eu subo em uma escada e retiro a porcelana que não é usada desde esse mesmo jantar 365 dias antes.

Eu nunca consegui entender como, e principalmente por que, essas coisas chegaram de Varsóvia até aqui. Vamos analisar a coisa friamente: tem um louco no poder no país vizinho, todo mundo diz que eventualmente ele vai chegar no seu, que já não é muito amigável com judeus desde que sei lá, desde sempre. Fugir parece uma boa ideia. Você compra uma passagem de terceira classe para um lugar inóspito e selvagem na América do Sul do qual na verdade você não sabe nada realmente (o ideal seria um navio para o Brooklyn, mas esses estão sempre lotados e agora você tem pressa). Parece realmente essencial levar caixas e caixas de coisas valiosas completamente inúteis e extremamente quebráveis. Parece de fato a coisa mais sensata que alguém poderia fazer.

“São coisas que podem ser vendidas se precisar” é a resposta que me dão quando exponho essa dúvida existencial. Essas pessoas nunca viram minha tia-avó. A mulher certamente vai dormir embaixo do Minhocão antes de vender a porcelana. Aliás, mais dada a dramaticidades que a minha mãe, retira a porcelana para situações muito mais triviais. Não me lembro de ter estado na casa dela e almoçado com algo distinto que um prato decorado com florzinhas cor-de-rosa e um contorno dourado, acompanhados de taças azuladas de vidro decorado e aquelas facas de cabo trabalhado que não cortam absolutamente nada.

Eu ganhei minha resposta ao assistir Lugar Nenhum na África. Ao abandonar a Alemanha por uma cabana no interior do Quênia, Jettel leva consigo um vestido de festa e o jogo de porcelana fina. Ela leva o jogo de porcelana fina ao invés da geladeira. Porque há geladeiras no mundo todo, porque geladeiras não são a memória de uma vida deixada para trás involuntariamente.

Nas casas onde passei a infância, Varsóvia, Moscou e Jerusalém eram cidades mais sonhadas do que Paris. A terra abandonada, a terra a ser buscada, essas eram lares. A terra que acolheu, o país onde hoje moravam as porcelanas e cristais, ele existe como trânsito. No Rio de Janeiro fazia calor demais para casacos de pele, não havia concertos para os binóculos e jamais se poderia comprar cristais adequados. A louça é a lembrança concreta de uma vida que foi e não é mais, de uma terra que pensaram que lhes pertencia, mas foi apenas mentira.

“Nós somos alemães” repetem os personagens do filme muitas vezes. Até a hora que não eram mais. Pátrias são como amantes, a ingenuidade mais pura só vem uma vez. Só uma vez você acredita piamente que aquele país é seu país e nunca vai mudar de ideia. Da outra você carrega consigo vestidos de festas e porcelanas para que elas te lembrem de uma forma agridoce a vida que você abandonou, quem você pensou ser, mas não era.

Ninguém me contou isso. Ninguém me contou por que um casaco de pele apodrecia no armário e por que não se podia mandar reformar as joias. Quem me contou foi o cinema. O cinema ao me abrir uma janela para o Quênia de 1938, me revelou segredos da minha própria casa.

Lembro de ter lido uma entrevista com o Walter Salles anos atrás, em que ele dizia que o cinema não muda o mundo. Não muda, é verdade, mas revela. A câmera é o olho para lugares a que ainda não fui, a que não posso ir: Arábia Saudita, Irã, Nigéria. Na Mostra do ano passado vi um filme do Cazaquistão. De tanto ouvir sueco, aprendi algumas palavras. Seria hipócrita se não confessasse que o zoom na favela também só tive no cinema. Conheço o mar, mas o sertão foi cortesia de Glauber Rocha.

Se não me engano, essa entrevista era da época de Diários de Motocicleta, embora coubesse bem para quase toda a filmografia do Walter Salles. Gosto dele, gosto particularmente de Abril Despedaçado, um olhar para o sertão que nasceu de um olhar para a Albânia e é, no fundo, um olhar para a natureza humana desde que Caim matou Abel. Nada sei sobre a Albânia exceto o que o Ismail Kadaré me contou. Da África sei dos relatos da Karen Blixen, Joseph Conrad e Hemingway. A Birmânia só vi pelos olhos de Orwell.

Sei que existe uma diferença enorme entre a África contada e a África que encontrarei quando entrar em um avião. Sei que as terras narradas, e filmadas, são terras de sonho. Sei que a Varsóvia de onde se retirou taças de cristal é tão real quanto Macondo e é por isso que se fez tão necessário carregar a porcelana. Essas pequenas peças ao mesmo tempo valiosas e descartáveis, caras, mas ridículas frente a dimensão da coisa toda, são pequenos lembretes da terra real e concreta, da realidade que se abandonou.

Aprendi em um filme o significado das lembranças na minha casa. Difícil dizer qual dos dois é mais ilusório. Mais difícil ainda dizer qual dos dois mais se esforça para apreender a realidade.

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