Crítica: ‘O Estudante’ e as ilusões perdidas

em 20 de agosto de 2014

Informações

  • Título: O Estudante (El Estudiante)
  • Diretor: Santiago Mitre
  • Roteiro: Santiago Mitre
  • País: Argentina
  • Ano: 2011 (2014 no Brasil)
  • Elenco: Esteban Lamoche, Romina Paula, Ricardo Felix, entre outros

Tenho uma professora que, inspirada numa frase célebre, diz que aquele que não se fascina pelo socialismo na juventude é insensível, e aquele que permanece fascinado na velhice é bobo. O Estudante é mais uma produção argentina que se arma de poucos recursos para contar uma boa história, adotando o realismo puro e simples, sem pirotecnias ou intricadas tramas, construindo um retrato verossímil de parte da juventude latino-americana universitária e do seu contato com os movimentos políticos e sociais.

Sou aluno da UFRJ, adoto a primeira pessoa nessa crítica (coisa a que comumente sou avesso) justamente por ter enxergado, no filme argentino, tantos paralelos com a juventude universitária brasileira e com o universo em que habito. As universidades, especialmente as públicas e federais, são mundos à parte, quase como bolhas (às vezes alienadas), onde antigos ideais perduram em profícua discussão ou novos levantes se montam e saem porta a fora, contagiando a sociedade. O Estudante é sobre o primeiro caso.

Roque (Esteban Lamothe) é um jovem à beira dos trinta anos que tenta finalizar a graduação. Já passou por três cursos e agora entra nas Humanidades na Universidade de Buenos Aires, um espaço sucateado, que parece um grande banheiro ou hospital abandonado, onde a pauta política e social é intensamente debatida por meio dos partidos, facções e facções-das-facções que atuam no espaço. Interessado pela professora adjunta Paula (Romina Paula), Roque junta-se à militância como estratégia de conquista, mas logo se vê mordido pela “mosca azul da política”, percebe uma vocação e torna-se peça central nas disputas pela liderança da universidade.

O arco da história vai do encantamento à desilusão. Os motivos que levam Roque à militância não são os mais puros, porém funcionam em duplo sentido: ele não apenas conquista a professora, como se dá muito bem dentro do grupo. Por outro lado, se desencanta, mais uma vez, com a graduação, logo se dedicando em tempo integral às atividades políticas (coisa muito comum também por aqui, com os famosos “alunos turistas” que aparecem em sala uma vez por mês). Rapidamente, Roque torna-se o braço direito do líder da oposição na disputa pela reitoria universitária, uma luta que tenta tirar do poder a hegemonia que perdura há dez anos.

Diretorias acadêmicas em ebulição  às vezes não chegando a lugar nenhum, às vezes resultando em importantes deliberações , panfletagem, eventos estudantis e politização (enviesada ou não) dos jovens são realidades nas universidades, tanto lá, como aqui. Essas instituições são hoje espaços quase únicos em que palavras como “luta” e “revolução” fazem parte da realidade palpável. Sua maior dificuldade é manter a liberdade diante do aparelhamento administrativo e da censura recrudescida. Tornaram-se, muitas vezes, o espaço que introduz o pensamento político na vida de seus ingressantes, antes sufocados pela mídia alienante e pela educação burocrática do ensino básico. São a causa e o cenário da metamorfose de muitos, que entram encasulados e saem voando.

Mas nem tudo são flores, e o filme do estreante Santiago Mitre (roteirista de Abutres e Elefante Branco, ambos de Pablo Trapero, com Ricardo Darín) consegue desenhar muito bem seus paralelos com a realidade. O líder da oposição trai sua chapa (e, por conseguinte, Roque), aliando-se com o opositor e com ele dividindo os cargos universitários. Por fim, a burocracia venceu, “nada de novo sob o sol”. A mensagem final é desiludida; o rapaz, quase balzaquiano, vê-se novamente perdido e transformado num pária, num bobo que caiu no conto do vigário. A razão ficou com o pai de Valeria, amiga de Roque, um homem desencantado com as discussões políticas de um país em que o assunto é tão confuso quanto a Argentina, dizendo que no fim tudo se desfaz no clientelismo e na corrupção.

Nesse premiado filme, ainda resta, na cena final, um pendão de esperança, que não comentarei por respeito aos que ainda o assistirão. Uma mostra de que pode haver saída para os bem intencionados que se aventuram nesse vale de lágrimas chamado política. Uma mensagem, talvez, aos jovens encantados que neste exato momento estão sendo sugados pela mosquinha azul.

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