As modas e bodas do Hades

em 5 de novembro de 2014

Lá estava a vasculhar e eis que vejo que Antonioni tinha vontade de fazer um filme em terras tupiniquins. Mês retrasado – fazer comentários sobre as coisas no calor do momento em que surgem e a capacidade de atualização andam lentas, algo que talvez se adeque a este texto – vi um artigo de Orlando Senna comentando sobre um projeto irrealizado de Antonioni em Brasília. No texto, Orlando fica sonhando com o projeto de Antonioni, Monica Vitti andando a esmo pelo palácio do planalto, comenta de como Welles faria a fita do Monsieur Verdoux, que no final caiu nas mãos de Chaplin. E eu penso: e não é que é? Os filmes que ficam na gaveta nos deixam às vezes mais horas imaginando do que vendo os filmes que saíram dela.

Não sei por que, falar isso parece, inclusive, vir em tom de deboche, mas os melhores projetos parecem ser os irrealizados (por vezes, irrealizáveis). Talvez porque os imaginamos com tom heroico e acabamos dirigindo partes do filme com a lente de ora esse, ora aquele diretor. Pois que Orson Welles, a um primeiro momento, pensando no seu primeiro projeto, faz em detalhes uma adaptação de Heart of Darkness de Joseph Conrad, que seria com aquelas câmeras subjetivas (pra lá de inovável à época) que, pouco mais tarde foram usadas no filme inteiro de Lady in the Lake, por exemplo. Caiu por impraticável. Ou o orçamento soou faustoso demais aos produtores. Rejeição. Mas que ia ser pancada, isso ia (finjamos que sim).

Welles então pensa em fazer uma adaptação de um livro do Cecil Day-Lewis, mas a atriz que faria a donzela não agrada aos produtores da RKO (produtora que tinha aceitado produzir o primeiro filme do Welles com carta branca pra ele fazer o que desse na telha). Acaba que seu primeiro longa veio a ser Citizen Kane (com sua carta branca). Já mais aos trancos e barrancos da carreira tenta adaptar Don Quixote. Meio documentário sobre as filmagens e pesquisas de Welles, meio encenação dos atores vestidos de Don quixote y Sancho pança, andando os três e equipe pela Espanha procurando redemoinhos. O filme levou vários anos de gravações e nunca foi finalizado, mas tem um documentário sobre e com as imagens gravadas.

Claro que ele fez adaptações maravilhosas, como O processo e as nobrezas com coqueluche existencial de Shakespeare. Tempo passa, e eis que vemos uma adaptação de Heart of Darkness surgindo na Indochina com o nome de Apocalypse Now, às maneiras do roteirista John Millius e Francis Ford Copolla. Aí, quando surge o filme em alguma conversa, sempre lembro que o apocalyse do Copolla foi quando nosso querido glauburu coloca-o como um “discurso alienado e alienante sobre a guerra do Vietnã”. Rá. Aplausos, fecham-se as cortinas).

Por sinal, o próprio Glauber queria adaptar algo grandioso. Faulkner. Nada menos que The Wild Palms, projeto que era seu grande sonho. Além da similaridade com os Guimarães, os Gracilianos que Glauber carrega, fico sempre imaginando-o com um tipo de grandeza de Faulkner no terceiro mundo. Aliás ele queria que o Copolla produzisse o Idade da terra, mas como Copolla não queria que a sua produtora falisse teve que ir fazer dinheiro, como ele mesmo diz, nas Filipinas. Que venha o Apocalypse.

Muitos anos antes, quando Glauber ganhou um prêmio em Cannes pelo Deus e o Diabo na Terra do Sol, deu a verba do prêmio para um casal de cineastas terminarem seu primeiro longa. Contos de Ana Magdalena Bach, de Jean Marie Straub e Anne Huillet. Quem contou isso foi o José Carlos Avellar. Enfim, Glauber, glauburu devia começar a ser adotado como sinônimo de polêmica. Mas acho que os únicos que nunca deixaram de realizar um projeto foram o Straub e a Huillet, mesmo que, ao longo dos anos, iam tendo menos e menos dinheiro para fazer cada filme. Adaptaram Arão e Moisés de Schoenberg, Pavesse, Elio Vitorini, até Mallarmé.

Um outro rapaz com cabeleira enfeitiçada e que tinha um projeto épico desses era o Eisenstein. Nada menos que adaptar O capital de outro rapaz com cabeleira mágica, Marx. Numa de suas andaças, em 1929, vai para Paris e se encontra com Joyce, já quase cego (daí imaginamos Beckett servindo Pernod aos três, um jovem que devia ter uma cara dura – será mesmo à essa época?). Joyce apresenta a Eisenstein uma leitura que ele mesmo fez de Ulysses através de um gramofone. Daí vai que quer colocar Joyce no meio do Capital. Queria fazê-lo com a estrutura narrativa de Ulysses. Seria como o “dia de Leopold Bloom (à noite ele encontra sua esposa), enquanto cadeias associativas e subtextos remetem à história da humanidade desde Troia” 1; isso na vida de um casal operário. Tá tudo lá no documentário do Alexander Kluge, Notícias da antiguidade ideológica. Já podemos parar de brincar com essa ideia de sair adaptando as coisas.

Sorte é a nossa quando uma adaptação fracassa e sai melhor ainda. Nosso fumante querido, Joãozinho (João Cesar Monteiro) quando foi adaptar a branca de neve do Robert Walser, viu que era difícil conservar a imagem, impelido por certa “fotofobia” passageira. Numa entrevista sobre o filme, diz:

Não era isto que eu tinha inicialmente previsto. Houve uma noite de insónia e de manhã, no café, eu combinei com o director de fotografia fazer o filme assim, em cinzentos. Fez-se uma manhã de rodagem um bocado diplomática (porque estava toda a gente convocada) em que, contrariamente ao que se diz, eu me diverti imenso. Dediquei a manhã à leitura de dois textos, ia alternando de um para o outro. Um era Execración contra los judios. É um texto anti-semita que eu aconselho vivamente. É sobre as tropelias que os judeus portugueses fizeram na corte de Filipe IV, séc. XVII. Tropelias argentárias, bem entendido. O outro, também do Quevedo, é um texto mais satírico, são as Graças e desgraças do olho do cu. Eu achei interessante fazer-se um filme que tomasse o ponto de vista do olho cego, do olho que não vê, do olho discreto, oculto geralmente em duas belas rotundidades.2

 

Dizem as más línguas de João que chegaram até a iniciar as gravações, mas meteram um pano preto na objetiva. Daí que tcham, o material é sonido e tela preta, vamos dublar. Diz que foi espécie de homenagem a Manoel de Oliveira que queria fazer o filme inteiro negro. Portanto ele, Manoel, ainda poderia fazer o seu, porque esse é apenas em cinzentos. Nessa mesma entrevista ele bem diz que foi acusado de roubar verba pública (afinal, uma bagatelinha de dinhero virar um filme praticamente sem imagens, visto que as imagens calham que são a parte mais cara, é de estranhar). Mesmo assim, parte do povo português o saúda em tom de risos por roubar do governo lusitano. Passei a ser respeitado por isso. Mesmo que o não tivesse, e mesmo que o respeito viesse em tons de galhofa.

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Imaginar que o livro que Saramago mais gostaria de ver adaptado era o Evangelho segundo Jesus Cristo (e deus há de me ouvir chamando Pasolini dos Hades para filmá-lo).

Ficamos assim, e então penso nas adaptações que nosso queridinho século em curso proveria. Chego à conclusão de que nos sobra tentar adaptar um poema satírico de Juvenal (mas agora em tons épicos), quando Juvenal narra o destino de uma poça de mijo (de uma esposa) na vida de um corno.

  1. Notícias da antiguidade ideológica, filipeta que acompanha o documentário, pg. 19.
  2. João César Monteiro, em entrevista a Diogo Lopes, a propósito de Branca de Neve (2000), in “João César Monteiro”, Cinemateca Portuguesa, 2005 (pego do site Flutuante).

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