Crítica: ‘Sniper Americano’ – nada de novo no front

em 4 de fevereiro de 2015

Informações

  • Título: Sniper Americano (American Sniper)
  • Diretor: Clint Eastwood
  • Roteiro: Jason Hall, baseado no livro homônimo de Chris Kyle
  • País: EUA
  • Ano: 2014
  • Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, entre outros

Existem atores que nunca deveriam ter ido para o outro lado da câmera. Eu começo a me convencer de que Clint Eastwood é um deles. Se como ator ele já incomodava alguns com suas personagens valentonas, brutais, agressivas e inconsequentes, como realizador somou tudo isso ao seu patriotismo doentio e ultrapassado, já insuportável no pack A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, de 2006, mas levado à estratosfera em seu mais recente filme.

American Sniper é baseado no livro autobiográfico de Chris Kyle, SEAL americano reconhecido como herói por ter sido “o franco-atirador mais letal da história do exército americano” (esse é o subtítulo de seu livro). Ele participou de quatro tours pelo Iraque durante a guerra ao terror perpetrada pelo governo Bush depois dos atentados de 11 de setembro, e acabou assassinado em 2013 por um colega do exército que sofria de estresse pós-traumático.

Clint  leva-nos a um realista campo de batalha no Oriente Médio e não desgruda de seu protagonista, vivido por Bradley Cooper em bom momento, mas longe de merecer a indicação ao Oscar, durante as duas longas e repetitivas horas de filme. Por mais que a história seja interessante, conquanto polêmica, o roteiro de Jason Hall não consegue fazer a trama render, repetindo as idas de Chris ao front, intercaladas com seu amargo regresso à família, onde não consegue reestabelecer relações com os filhos e a esposa (vivida por Sienna Miller). É a velha história do soldado herói traumatizado, quebrado e sobretudo viciado em guerra, no estilo Guerra ao Terror (2008), de Kathryn Bigelow, mas sem um terço da gana.

CHRIS KYLE

O verdadeiro Chris Kyle (1974-2013), o “american hero” que teve mais de 160 mortes contabilizadas durante seu período no Iraque

 

Acima disso – e aí está todo o burburinho sobre o filme e meus comentários mais críticos sobre seu realizador –, está no ponto de vista estabelecido pela narrativa, a partir da visão do Chris real, exposta em seu livro, sobre os habitantes da terra invadida. Os iraquianos são descritos como “selvagens” e mortos como ratos pelo atirador implacável. Os EUA aqui são, segundo o protagonista: “o melhor país do mundo e eu faria de tudo para defendê-lo” –, ou seja, a velha bullshit estadunidense que ao longo da história gerou guerras, dominações, alianças antidemocráticas, subjugo e terror por todo o mundo.

A crueldade aqui é justificada pelos valores americanos de liberdade e democracia. Se ao menos o diretor tivesse uma visão minimamente crítica sobre seu protagonista, a história de Chris Kyle não seria de todo ruim, mas por concordar e reforçar o vírus nacionalista do soldado, Clint faz mais um filme-propaganda, à la John Ford, Frank Capra e, por que não dizer, Leni Riefenstahl, a diretora de Cinema oficial do Terceiro Reich.

Depois de mostrar o sangue jorrando das mais de 150 vítimas do sniper americano, incluindo crianças, Clint atinge o ápice da sordidez intelectual e artística ao poupar a memória de Chris, evitando reproduzir a cena de seu assassinato. Se os orientais aqui morrem sem dó nem piedade, nessa história estreitamente maniqueísta, o herói de alguma maneira tem de sobreviver, mesmo que morra.

O apresentador e humorista Bill Mahrer, em seu show noturno Real Time With Bill Mahrer, gerou polêmica ao criticar American Sniper por considerar seu protagonista “um patriota psicopata” (veja aqui); o documentarista Michael Moore também criticou o filme, por incentivar o espírito belicoso americano, mesmo depois de tantos anos de guerra e de tantas mortes, para ambos os lados. Ainda assim, American Sniper tem sido um sucesso de público, possivelmente o maior da carreira de Clint, tendo arrecadado quase US$ 700 milhões (via IMDB.com). Curiosamente (não, na verdade isso não me impressiona nem um pouco), os críticos e votantes da Academia também têm saído encantados da sessão, indicando-o a seis Oscars, incluindo Melhor Filme e Ator (pelo menos Clint perdeu a indicação de Direção). O tempora, o mores! Que ano fraco e chato na indústria hollywoodiana.

As implicações de uma propaganda bélica, nacionalista e preconceituosa como esta realizada por Clint, não se limitam ao Cinema, justamente por sua altíssima projeção global; infelizmente também geram impacto na vida cotidiana, especialmente nas etnias tão negativamente retratadas pela história. Assim, o Comitê Árabe-americano Antidiscriminação (ADC) lançou uma nota pública ao diretor e seu protagonista, informando casos de ameaças violentas contra muçulmanos que de alguma forma podem ser relacionadas “à linguagem de ódio” incitada pelo filme (via R7, veja aqui). “É nossa opinião que vocês poderiam desempenhar um papel importante em nos ajudar a aliviar o perigo que estamos enfrentando” – diz a carta, e é justamente isso que uma visão rasteira, alienada e elitista sobre uma cultura causa – qualquer um que já se aproximou um pouco da Antropologia sabe disso, vendo alguns dos trabalhos etnocêntricos e imperialistas de outrora.

Para terminar, vale lembrar de outro comediante americano que, assim como Mahrer, tinha algum juízo na cabeça: o magnífico George Carlin (1937-2008), que durante um stand-up (veja aqui na íntegra) disse o seguinte sobre a doença do patriotismo: “Eu nunca entendi o patriotismo ou o orgulho étnico, porque, para mim, orgulho você deve ter de alguma coisa que conquistou por si mesmo, e não por algo que aconteceu acidentalmente no seu nascimento. Ser irlandês [por exemplo] não é uma habilidade, mas um acidente genético, então por que raios você teria orgulho disso? É como ter orgulho de ter um metro e setenta ou orgulho de ter predisposição a ter câncer de cólon!”.

Em tempo: esse filme não cansa de me surpreender, e como se não bastasse toda sua confusão moral, há também um problema técnico engraçadíssimo, que vem se tornando viral nesses últimos dias. Durante uma cena entre Bradley Cooper e Sienna Mieller, o bebê que representava o filho do casal adoeceu e não pôde comparecer às filmagens. Clint, com seu jeitão “get it done!”, então optou por utilizar um boneco cenográfico de bebê, porém as trucagens de edição e o posicionamento da câmera deixaram o artifício evidente, que acabou como piada na internet. Veja aqui.

2 comentários para “Crítica: ‘Sniper Americano’ – nada de novo no front

  1. Mais uma boa crítica, Volcof. Fiquei um tanto surpreso (ao contrário de você) por esse filme conseguiu se tornar um sucesso, digamos assim, sendo tão pobre, aberta e idioticamente patriótico. O protagonista é unidimensional, ele não é um homo sapiens sapiens, ele é um homo patrioticus, é como se ele não comesse, não fosse ao banheiro, não titubeasse diante do medo, do receio, da culpa etc. O que especialmente me desagradou nesse sentido foram as falas: elas definitivamente não são críveis, não são nada verossmilihantes, comprometendo a chance de que, apesar dos pesares, pudéssemos apreciar algo a mais no filme. Quem aponta dedos e dedos para o realismo socialista e sua (bastante evidente) verve propagandística, assim como à arte engajada (qualquer que seja sua direção política), não pode deixar de perceber o quanto esse filme peca no mesmo sentido.

  2. Uma ótima critica Vinicius, o filme infelizmente não trouxe nada de novo, apenas novamente um patriotismo extremista e a justificativa que o americano pode fazer o que for necessário para proteger o seu estilo de vida.

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