Menos livros, mais leituras

em 5 de fevereiro de 2015

Aprecio o primeiro mês de cada ano. Mas não sou o tipo de pessoa que aproveita a época para fazer um plano de promessas a serem cumpridas. Gosto de pensar que tenho 12 meses à disposição para todas as novas ideias que quiser ou precisar executar.

Para 2015, no entanto, abri duas exceções. A primeira promessa que fiz foi voltar a escrever com regularidade a minha coluna no Posfácio (Oi, pessoas queridas!). E a segunda, relacionada aos meus livros, ocorreu mais por constatação e necessidade. Descobri, após um breve levantamento, que li 30 livros em 2014. Uma boa média, considerando minhas atividades maternas e profissionais. O que me assustou foi que percebi que, das três dezenas, apenas sete (7!!) foram livros impressos. O restante foi lido no Kindle. Isso me levou a outra descoberta: 2014 deve ter sido o ano em que comprei menos livros físicos nos últimos 20 anos (contrariando algumas pesquisas que apontaram queda na venda de livros digitais e preferência pelos impressos). Comprei apenas três livros no ano passado (não estou considerando nesta conta os livros ganhos – ganhei bastante coisa, fator que também deve ter contribuído para a diminuição nas compras).

Tenho me adaptado bem à logística da compra de e-books. Confiro sempre os e-mails de ofertas, e comemoro quando encontro algo que quero ler numa promoção de 50% de desconto. Ou 80% nos casos ainda melhores. Baixo amostras, compro no celular onde estiver. Depois abro o Kindle e está tudo lá. E salvo algum livro que realmente precise ler, sigo com a regra de não pagar mais do que 19 reais por e-book. Se for mais caro do que isso, ainda prefiro ter o impresso.

Pois é me lembrando do quesito “impresso” que resgato a necessidade mencionada lá acima sobre a promessa: cheguei ao limite das minhas estantes. Quando me mudei de apartamento e projetei o escritório, imaginei que teria espaço de sobra. Total engano: ao tirar os livros das caixas, lotei todas as prateleiras. O que surgiu de adicional nos últimos dois anos foi se acumulando na frente dos exemplares já guardados, em outros móveis, em cima da mesa, brigando com a estante do material de escritório, na sala, no quarto. Não tive paciência de recontar a biblioteca. No último levantamento (há uns cinco anos), tinha atingido a marca de 300 livros. Devo ter chegado aos 400.

Então aqui se apresenta a equação da vida:

Livros de MAIS, prateleiras de MENOS, MULTIPLICADO pela facilidade de comprar e ler e-books

IGUAL A:

Devo me desapegar de 100 livros.

Há três dias penso nos critérios desta seleção. Preciso ser justa, mas também implacável para conseguir cumprir a meta. Com os livros lidos será mais fácil: guardarei todos aqueles que me sirvam de referência (de vida, para outros textos, para dar para o Lucas ler quando ele tiver mais idade). Como já li, será tranquilo separar aqueles que realmente gostei.

Com os não lidos a tarefa será mais nebulosa. Estes livros estão nas pilhas que crescem como mato nas prateleiras. Aparecem mais e mais até que se dê um jeito. Já que sempre existe uma referência (de amigos, de resenhas), guardarei aqueles que realmente pretendo ler. O restante farei circular para que ganhe, de fato, leitores.

Na última semana, arrumei todo o escritório. Juntei uma pilha de folhas de rascunho (perfeitas para imprimir originais e livros para a revisão), organizei meus CDs (40 deles foram destinados à doação), e levei para a reciclagem cinco sacos de lixo de papel. Ou seja: reordenei tudo o que orbita o universo das prateleiras dos livros. Mas ainda não estou pronta para mexer neles. Mais uma semana, acredito, para então executar aquela que será a segunda grande revolução na minha vida (a primeira foi o meu filho Lucas, claro). Se um novo mundo se erguer, e tudo der certo, volto para contar como foi. Me desejem sorte!

Obs: feliz aniversário de 3 anos para o Posfácio, esse menino faceiro e querido! S2

Na Página 28 de O irmão alemão, de Chico Buarque:

“Por mais que insistisse nas leituras, sentia a falta do pai no existencialismo, nos novos romances, na poesia niilista, buscava em vão seus rastros nos livros de história mais recente. Só em sonhos via o pai antes da guerra, um homem sem rosto com os cabelos em chamas dentro da fogueira de livros da Staatsbibliothek. Noutro sonho via o mesmo homem distraído no último andar da biblioteca, a ler sem olhos o Fausto enquanto o telhado se esboroava sobre a sua cabeça no bombardeio final.”

 

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