Dormir junto ou andar de mãos dadas?

Pernas ou salsichasMuçarela de búfala ou ovo de cordonaHipster ou cobrador? A internet – em especial, a plataforma de blogging chamada Tumblr – é pródiga nessas divertidas polaridades.

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A Trindade do C

Quando a pauta do Jornal Rascunho de março de 2014 foi fechada e a cada um dos colaboradores resenhistas foi designada uma obra a ser analisada, recebi a informação de que escreveria sobre Reprodução, de Bernardo Carvalho. A situação – resenhar o último romance de um de seus autores favoritos – se assemelhava a uma anterior. E isto expus como preâmbulo à resenha.

Há um ano e meio, escrevi minha primeira resenha para o Rascunho: a obra sobre a qual falei era o último romance de Michael Cunningham, Ao anoitecer. Por ser um de meus autores favoritos, eu não ficaria satisfeito em tratar apenas do livro em questão: tinha de relacioná-lo aos quatro romances anteriores do autor. Leia mais

Ela pode escrever QUALQUER coisa

(Põe Tori Amos para tocar – “Pretty Good Year” – e começa a escrever.)

Julho já passou e a gente não se esqueceu: 2014 é O ano para ler mulheres. À hashtag #readwomen2014 uniu-se outra, mais recente (#kdmulheres), cujo fim é questionar (com dados concretos1) a quase ausência de mulheres nas mesas oficiais da Flip2, nas homenagens da mesmíssima festa, na Academia Brasileira de Letras, por exemplo. Todos comemoraram a notícia de que “mulheres leem mais e dominam prêmios”, o que talvez tenha ajudado a esconder o fato de apenas dois dos vinte indicados a melhor romance pelo prêmio Portugal Telecom de Literatura serem de escritoras3. Pode parecer tempestade em copo d’água, algo até meio passé, mas isso é só antes da gente descobrir que um “crítico” achou legal ser misógino ao “pensar” a poesia de Angélica Freitas. Leia mais

  1. Números! Todos nós adoramos porcentagens exatas, ainda que às vezes digamos que elas não significam nada.
  2. Chega dói descobrir que Elvira Vigna – uma das autoras sugeridas por Emanuela Siqueira em seu blog – nunca foi à festa porque… nunca foi convidada!
  3. Os números do prêmio São Paulo de Literatura são um pouco menos assustadores. Mas só um pouco: são apenas 4 mulheres entre os 20 finalistas. Bensimon, Barbara e Del Fuego continuam fora dessa outra disputa, mas há um livrinho muito do xexelento em AMBAS as listas. Vai entender…

Cinco minutinhos na internet

Não leva nem cinco minutos para ler uma coluna como esta. Não importa se demorei uma hora ou duas semanas para escrevê-la.

Que o tempo é relativo, Einstein já provou. Dizem que ele costumava brincar afirmando que um minuto ao lado de uma bela mulher passa muito mais rápido do que um minuto segurando uma panela quente.

A melhor tirinha do mundo – não importa se escrita pela Laerte – não demora mais do que trinta segundos para ser lida. Às vezes, você até lê e relê por uns cinco minutinhos, mas logo aparece um gif de gatinhos imperdível. Leia mais

Soy azar

Eu costumo avisar potenciais companheiros de viagem que tenho muito azar. Muito, muito azar. Que viajar comigo quase sempre significa dar de cara com uma guerra, ter que peregrinar por consulados, conhecer maníacos pelo caminho ou ter que dormir no chão de um aeroporto e ganhar sanduíches da Cruz Vermelha (uma história real, cortesia do aeroporto de Barcelona). Quase sempre a resposta é “imagina, você está exagerando”, ao que posso responder “já fui roubada em um país onde não existe propriedade privada”.

No dia 7 de janeiro de 2014 (data inscrita no B.O) a autora desta coluna foi roubada em Santa Clara, República Socialista de Cuba, enquanto voltava de um cabaré de drag queens. Entre os itens roubados estavam incluídos um bilhete único, um cartão do sistema municipal de bibliotecas de São Paulo, uma carteira de motorista, um óculos de grau de marca francesa e um iphone. Lembrando que mal tinha sinal de celular em Cuba, todos itens eram, claro, extremamente úteis para o autor do roubo. Leia mais

Lugar Nenhum na África

Lugar Nenhum na África: em 38, um juiz judeu sai da Alemanha com sua mulher e filha e vai morar em uma fazenda do Quênia. Lá é empoeirado, isolado, pobre, majestoso, belo, profundamente belo. É um filme bonito, um tanto ingênuo, um tanto esquemático, mas bonito. Sensível é uma boa palavra.

Na casa da minha mãe é possível contar dois faqueiros de prata completos, três jogos de porcelana austríaca estampada de florzinhas e um armário inteiro entulhado de cristais do leste europeu, incluindo um conjunto de cálices com a águia da Polônia. Quem vê, pensa que recebemos a realeza europeia com uma enorme frequência. Ou damos jantares elaborados toda semana. A verdade é que todo ano, em algum dia entre o natal e chanuká, eu subo em uma escada e retiro a porcelana que não é usada desde esse mesmo jantar 365 dias antes. Leia mais

Medi uma Flip em abraços

Na crônica “O legado de Kudno Mojesic” – presente no recém-lançado O louco de palestra, de Vanessa Barbara –, a escritora se dá o direito de medir um corso1 de forma inusitada. Leia mais

  1. Coletivo de “carro (em desfile)” que acabo de descobrir. Creio que engarrafamentos não deixam de ser uma (disfuncional) parada do orgulho automobilístico.

Antes de voltar, amortecer

Faz quinze dias que eu voltei para casa. Quinze dias que durmo na minha própria cama, alimento meus gatos, lavo minha louça e tenho que me preocupar com coisas tipo dar um jeito na vida, arranjar mais um emprego, tentar não atrasar muito os livros da biblioteca. É engraçado isso de ter uma vida normal, cotidiana. Nesse tempo que passei longe, isso deixou de ser automático. Deixou de ser água.

Tenho estranhado muito a pressão do meu chuveiro. Ele sempre foi assim? Quebrou enquanto eu estava longe? É só porque está frio e preciso manter a água quase fechada para não congelar? Esses livros na estante já estavam com a lombada tão queimada? Será que preciso comprar uma cortina? Será que eles sempre estiveram queimando, eu só não reparei? Leia mais

F for Flip

F…

…de Flashes.

Passou-se um ano. Aliás, mais do que um ano; a Copa do Mundo atrasou totalmente a agenda literária brasileira. Pois bem: passou-se um ano e aquela coluna imensa, dividida em três ou quatro partes, que eu prometi (a mim mesmo e em voz baixinha, justo pra não ser cobrado por ninguém) escrever a respeito da Flip de 2013 não saiu do papel.

Pior: não chegou a ele. Leia mais

De Fårö, com amor

Eu passei os últimos dois anos escrevendo um mestrado sobre Ingmar Bergman (e suspeito ser essa a única razão para o editor deixar eu escrever no Posfácio)1, vendo todos os filmes, lendo tudo que havia para ser lido, voltando em A Lanterna Mágica tantas vezes que posso citar parágrafos inteiros de cabeça. Passei dois anos desesperadamente tentando entender o cérebro e a alma de um homem que nunca encontraria, tentando sobretudo conhecer a pessoa que me falava por trás daquelas imagens em preto e branco.

Bergman foi uma escolha de puro amor e o trabalho de entender seus filmes passou em grande parte pelo de entender a pessoa. Entre autobiografias, relatos de ex-mulheres e documentários, fui tentando achar um homem, montar um retrato, ficar íntima de um velho sueco deprimido isolado em uma ilha. O trabalho me trouxe um ser atormentado, violento, corporal a ponto de sentir no estômago qualquer decepção, sensível ao menor estremecimento de ar e surpreendentemente doce. É importante não esquecer que Bergman é alguém capaz de Fanny e Alexander.

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  1. Amanhã é aniversário de morte do Bergman, que faleceu em 2007.

Bola de clichê

Canto mentalmente uma música dos Mutantes por alguns minutos, antes de perceber que a letra está errada. Não, eles não cantam “Ando meio irritado, eu nem sinto meus pés no chão”. Preciso me lembrar disso.

Acho que tudo tem a ver com a dupla que protagonizou uma de minhas colunas, semanas atrás. Um daqueles caras se irrita com a leitura de um livro ruim (“Oh-oh-oh-oh-oooh! Oh-oh-oooh-oh-oh! Caught in a bad romance.”), enquanto o outro começa a gostar do enredo e tenta não ligar para os clichês (“ler um mau romance ajuda a valorizar os bons”).

(O bom de escrever sobre clichês é: esse tipo de texto já foi escrito tantas vezes por tantas pessoas que é um exemplo excelente do que é um clichê.)

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Sem medo de estar sozinha

Um mês atrás, quando eu estava naquele já famoso ônibus (mais precisamente uma van) entre Belgrado e Sarajevo, logo depois que entramos na Bósnia, o motorista parou em um posto de gasolina. Uma mulher entrou, seguida por quatro crianças, falou algo com o motorista, desceu, entrou de novo, sentou no único lugar lá no fundo e sentou as crianças no chão. Em seguida subiram mais duas mulheres e um garoto com os olhos mais azuis do mundo, todos ficaram em pé no “corredor” da van.

Sentado ao meu lado estava um sérvio que há anos vivia no Canadá e sorriu e balançou a cabeça quando contei o que estava fazendo. “Você é como as minhas filhas”, ele me disse, “por que vocês não podem simplesmente ir pro Caribe e ficar quietas em uma praia?” Eu ri e contei que já tinha ido ao Caribe, cruzar Cuba de carro.  Leia mais