São seus olhos

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“Coloratura” e as possibilidades da ficção interativa

Aviso: o texto a seguir é sobre um game. Peço que, se factível, possíveis preconceitos sejam deixados provisoriamente de lado, pois não se trata de um jogo “tradicional”. Não há qualquer tentativa de testar seus reflexos ao pular em cima de inimigos coloridos com um encanador italiano, ou de matar dragões com espadas e bolas de fogo enquanto se acumula pontos de experiência para aumentar a eficiência de suas espadas e bolas de fogo, tampouco de simular a experiência de metralhar inimigos em alguma guerra aleatória. Não há sequer gráficos: estamos falando aqui de uma obra que pode ser considerada, em partes iguais, jogo eletrônico e conto de ficção especulativa. Leia mais

Os atrasados do ENEM

Os atrasados do ENEM estão desfechando tiros no peito, diria Drummond, se pudesse acompanhar a saga anual do Exame Nacional do Ensino Médio. Como não há mais poetas, resta-nos observar o drama dos vestibulandos retardatários de maneira rasteira: um pouco com o coração apertado, um pouco com a malícia do humor.

Não é por menos – com o mundo conspirando contra os estudantes, surgem algumas histórias de causar inveja ao cinema. Só em dia de ENEM para alguém capotar o carro e achar que o melhor a se fazer é seguir em frente, confiante nos próprios calcanhares, para não perder a hora da prova. Como a máscara da comédia está sempre ao lado da trágica, a gente acha graça naqueles que ficaram de fora por motivos bestas – tipo o rapaz que, já dentro do local, se deu conta que tinha esquecido a água, saiu para comprar e, ao retornar, deu com os portões fechados. Leia mais

A barreira de aparecer no meio literário – entrevista com Bruno Liberal

Bruno Liberal nasceu em Goiânia, no estado de Goiás. Aos quatro anos de idade mudou-se com a família para Petrolina, sertão de Pernambuco. Lá se formou em Economia e deu início paralelamente à carreira de escritor, publicando em 2012 a seleta de contos Sobre o tempo (editora Multifoco). Mas foi no ano seguinte que se destacou, na primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, sendo o grande vencedor, na categoria contos, com o livro Olho morto amarelo (Companhia Editora de Pernambuco).

Nessa obra, Bruno Liberal revela-se um ficcionista notoriamente hábil e talentoso ao nos apresentar em suas breves narrativas doses dicotômicas de violência e poesia, reunindo personagens solitários, psicóticos e excêntricos – vítimas da banalidade urbana –, dentro de uma atmosfera onírica confinada por insights. Leia mais

A vida secreta do Flamingo Sereia

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Berlim, por Joseph Roth

Me lembro que a primeira vez que vi o nome de Joseph Roth foi num livro de Eric Hobsbawm, provavelmente A era dos extremos. Tratava-se de um comentário elogioso, ressaltando o potencial expressivo de sua obra ao narrar a desagregação do finado Império Austro-Húngaro. Segundo o historiador, Roth foi o grande cronista dessa época e desse processo, e sua literatura acabou por se tornar um documento histórico de grande valia para aqueles que quiserem se debruçar sobre o período.

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O menino e seu cavalo

São tantos os dramas dos adolescentes da classe média que demorei um pouco para descobrir que tudo que eu desejava era um cavalo. Nem queria saber como era viajar de avião, não me importava em parcelar tudo em dez vezes e achava OK ter que comprar sempre o iogurte mais barato. Eu só queria um cavalo.

Não para cavalgar aos finais de semana, tipo hobby de gente que não é diferenciada, mas para ser meio de transporte. A verdade é que queria chegar na escola trotando e, enquanto os outros meninos passavam cadeado nas bicicletas, eu amarraria meu cavalo com um nó de porco e entraria três minutos atrasado na sala para encher um balde de água. Leia mais

Bourdieu e o Estado por tentativa e erro

Já tentaram pensar no que é o Estado? Quando aprendemos na escola sobre o conceito de Estado, geralmente lidamos com duas definições, uma geográfica e outra histórica. Talvez a geográfica seja a primeira a surgir: o Estado é apresentado como o país. No nosso caso, o Estado brasileiro é necessariamente o Brasil, assim nos tornamos brasileiros automaticamente por nascer e/ou viver dentro de suas fronteiras apenas. Em seguida, deve vir uma definição histórica: o Estado é o Estado moderno que surge na Europa após a Idade Média, com a ascensão dos poderes absolutistas e, em seguida, burgueses, o que levou à estruturação de um campo governamental. O Estado francês talvez seja o exemplo maior disso. Novamente, Estado surge como um sinônimo, no caso, sinônimo de governo.

Essas definições frágeis, fracas como verbetes de dicionário, não podem se manter numa análise mais profunda que qualquer um de nós faça em algum dia. Pode-se imaginar, então, que um sociólogo como Pierre Bourdieu (1930-2002), um dos maiores nomes do pensamento francês do século XX, não poderia aceitá-las também. Muito menos poderia deixar de contestar aqueles que já tentaram redefinir o Estado pela teoria ou pela experiência. Bourdieu, como cientista que era, ao longo de sua carreira, tentou definir as representações e as funções do poder na sociedade, não somente na ocidental, sendo natural que chegasse sempre ao problema do Estado. O que é ele afinal de contas? Sabemos bem o que ele faz em nossas vidas, mas como apareceu? Ele existe concretamente? São essas questões que o autor de Sobre o Estado (2012), volume recém-lançado pela Companhia das Letras, tenta nos responder. Leia mais

Uma ótima história roubada

A entrevista estava marcada para as onze da manhã, horário em que o escritor Jorge Edwards estaria terminando de tomar café. Perguntou se poderia ser em sua pousada para evitar os outros jornalistas. Concordei, mas esclareci que não era jornalista. Era apenas um estudante de literatura terminando um trabalho sobre Rubem Braga. Edwards ergueu as sobrancelhas desregradas de velho escritor chileno: “então posso te confidenciar uma história ótima”.

Um causo inédito sobre Rubem Braga era exatamente o que queria. Uma história tão boa que levaria sempre na carteira, para soltar um trechinho na roda de amigos mas nunca revelar o final, para contar vantagem nas discussões da universidade e fazer inveja aos outros pesquisadores, para confidenciar apenas para a namorada quando quisesse quebrar o silêncio de um fim de tarde contemplativo. Leia mais

Visigodos, bárbaros e ostrogodos

(Foto: Eli Simioni)

por Vanessa Barbara

Nota preliminar: esta resenhista resolveu ater-se exclusivamente ao conteúdo do livro, abstendo-se de opinar sobre o assunto por questões óbvias, ainda que tétricas: na situação atual, não podemos contar com a garantia de direitos constitucionais básicos como liberdade de expressão e reunião – a julgar pelas prisões arbitrárias e pela prática de um certo “direito penal de autor”, que ocorre quando se investiga uma pessoa em busca de materialidade e autoria de condutas delituosas. Portanto, a resenha se limitará às ideias apresentadas pelo cientista político canadense Francis Dupuis-Déri, que não é brasileiro e não poderá ser alvo de investigação por formação de quadrilha armada, corrupção de menores e incitação à violência. (Pelo menos a princípio. Lembrem-se de Bakunin.)

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Escrito por Francis Dupuis-Déri, Black blocs [Les black blocs: la liberté et l’égalité se manifestent] foi publicado originalmente em 2003, e atualizado de forma sistemática até a edição atual, de 2014. O próprio autor revela, nas últimas páginas do livro, que de início julgava que a tática black bloc estava diminuindo em tamanho e importância, mas se mostrou equivocado na previsão: cada vez mais parece ser uma “imagem do futuro” que vem ganhando força e, portanto, merece análises mais detidas e responsáveis.

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Schwarz e suas ideias no devido lugar

Como campos do saber que foram criados baseados em pressupostos e objetivos diferentes, e que tiveram todo um desenvolvimento distinto entre si, a história e as letras serão sempre interlocutores que, embora possam se aproximar e interseccionar, travarão debates acalorados. Isso não se constitui num problema, já que é precisamente na alteridade epistemológica existente entre ambos que surge o espaço para o crescimento e a exploração nos dois sentidos. E é nesse espaço que Roberto Schwarz soube se inserir com perspicácia.

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Crítica: ‘Ricardo III’

Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
– ato IV, cena IV

 

O drama do sanguinolento monarca inglês Ricardo III (1452-1485) foi uma das primeiras obras teatrais de William Shakespeare, escrita por volta de 1592 e 1593, e se mantém até hoje como uma de suas mais populares e respeitadas peças, fascinante não apenas pela síntese histórica da intrincada dinastia Plantageneta, que reinou na Inglaterra por mais de trezentos anos, como também pela construção de um protagonista atraente por sua vilania, soberba e psicopatia, cuja correspondência pode facilmente ser encontrada nos dias atuais.

Passados mais de quatrocentos anos desde sua feitura e literalmente centenas de adaptações de maior ou menor sucesso, hoje a peça permite liberdades adaptativas e até brincadeiras visando não só aproximar o drama histórico dos espectadores contemporâneos, como também facilitar a compreensão de uma história que envolve mais de cinquenta personagens, duas famílias rivais, duas guerras e um punhado de assassinatos. Foi isso o que fez o ator Al Pacino quando, em 1996, quis adaptá-la em Nova York, mas antes construiu um belo documentário, Looking for Richard, em que reflete com acadêmicos, artistas e outros especialistas sobre o lugar e função de Shakespeare nos dias de hoje. Da mesma forma, aqui no Brasil de hoje o ator Gustavo Gasparani e o diretor Sergio Módena foram criativamente ousados ao montar um Ricardo III totalmente clean, com apenas um ator e cujo cenário é composto por uma lousa, um cabideiro, uma mesa e uma dúzia de canetas pilotos. Leia mais