Acordei cedo no domingo – sozinha, bateu a idade – e logo peguei o celular. No Twitter, li uma pequena história de fantasmas que recebeu dezenas de respostas de gente assustada. Era um bom tweet, um clássico do gênero “algo aconteceu, parece que há alguém agindo, mas você está sozinho ou é o único acordado na casa”. Logo depois de ler e dar like, pensei: é fic.

Olhei o perfil do autor do tweet para ter certeza disso e encontrei outas histórias lá, assustadoras ou não. O cara escreve bem, e quando se escreve bem às vezes parece que tudo vira ficção. Mas não bati o martelo sobre a veracidade do causo: pode ser tudo real ou pode ser tudo inventado, mas feito para parecer real.

Aí me perguntei: mas tem que ser real? A gente não pode ler algo hoje na internet sem esperar que tenha realmente acontecido? Se a ficção é boa, se ela entretém, qual é a necessidade de vendê-la como algo real? Será que perdemos a capacidade de lidar com a ficção?

Quando um livro, uma série ou um filme vem com o rótulo “baseado em fatos reais”, parece que a história vira algo mais importante. Ela chama mais a atenção do público. É só ver a quantidade de indicações a prêmios e vencedores do Oscar que são biopics. Todo ano tem um favoritinho “baseado em fatos reais”. Ou, então, casos como O massacre da serra elétrica e A bruxa de Blair, vendidos ao público como baseados em fatos reais, mas que são obras ficcionais bem longe da realidade. De repente, as séries mais comentadas são documentários de true crime, revisitações a crimes famosos, resgates de casos quase esquecidos, mas que atraem o público por serem… histórias reais.

Já ouvi muita gente dizer também que prefere histórias reais a ficção. Que não gosta de coisas inventadas, como se a narrativa da vida real não fosse ela própria uma invenção, com memórias falhas e pequenas alterações no discurso para chocar mais ou amenizar um fato. O discurso nunca é verdadeiro; ele sempre é marcado pelo viés de quem fala, pelo objetivo que o indivíduo quer atingir com esse discurso – algum teórico deve ter dito isso, não lembro quem. Dizer que algo aconteceu de verdade, ainda assim, mexe mais com as emoções do público do que algo inventado, como se a capacidade humana de criar não fosse algo maravilhoso.

Hoje tudo tem que ser checado e discutido. Se uma thread faz sucesso no Twitter, logo aparecem os fact checkers para dar o veredito de se é real ou não. Logo aparecem os avaliadores da fanfic da vida real – 10/10. O que é muito importante, é claro, porque ninguém – muito menos eu – gosta de ser enganado. Já sabemos bem quais são os efeitos de uma notícia falsa divulgada como verdade, sabemos de seu perigo. Mas não estou falando de notícias. No caso de uma breve crônica do cotidiano, de uma história de assombração, de uma thread sobre superação, faz diferença se aquilo realmente aconteceu ou não?

Ao questionar isso, meu objetivo não é só dizer que devemos parar de brigar pela realidade das histórias, ou que devemos deixar de se importar ou duvidar da veracidade daquilo que nos entretém. O objetivo é assumir a ficção como leitores e como autores. É podermos contar histórias sem termos que embrulhá-las no papel celofane da realidade. Podemos dizer: “olha, pensei nessa historinha hoje, segue o fio”.

Eu não me importaria de ser enganada por uma fic do Twitter se ela fosse bem escrita e vendida pelo que ela é, uma ficção. Mas essa sou eu, uma consumidora de ficções. E a ficção é isso: levar a gente para um lugar imaginário que parece ser real. A boa ficção faz a gente acreditar nessa “realidade” que ela conta. O que funciona muito bem nos livros, no cinema, na Netflix, mas é um conceito que parece ser incapaz de ser absorvido pelo usuário do Twitter, do Instagram e do Facebook. Ou aconteceu, ou não presta. Ou é real, ou não tem valor narrativo.

Somos bem grandinhos para sermos capazes de assumir que nossas histórias nas redes sociais – as que lemos e as que contamos – são todas ficções.


Taize Odelli, de Witmarsum (SC) para São Paulo (SP). É autora do blog rizzenhas.com e tem uma coluna na newsletter ADSC – Associação dos Sem Carisma. Tem três gatos e milita pela popularidade da capa de edredom.