Maus

em 23 de fevereiro de 2010

maus-splashMaus é uma grafic novel de Art Spiegelman que narra a luta de seu pai, um judeu polonês, para sobreviver ao Holocausto. O livro também fala do relacionamento complicado do autor com seu pai e de como os efeitos da guerra repercutiram através das gerações de sua família. Em 1992 Spiegelman foi agraciado com um “Prêmio Especial Pulitzer”: tal categoria foi proposta pois o comitê de premiação não se decidiu se categorizava Maus como uma obra de ficção ou biografia.

Amélie: Surpreendente. Essa é a palavra que define Maus. O livro tem como cenário a fantasia, aquela antiga briga entre ratos e gatos. Mas a realidade dura da Guerra não aceita superficialidades e esse é o segredo do sucesso em Maus. A caçada é, antes de tudo, um depoimento, relato das lembranças do pai de Art Spielgeman, o premiado quadrinista. Enredo: um comerciante com dinheiro de sobra, mas que precisa trocar diamantes para conseguir um um pedaço de pão. Leva o fardo dos “indignos”: Judeu em uma Europa de Guerra. Os relatos de familias que sobreviveram ao Holocausto têm apelo natural, pela crueldade, chamam mesmo a atenção. E acredite, este é ainda mais especial. A escolha de representá-lo em quadrinhos, é certa: mexe com a imaginação do leitor. A cada fuga dos gatos (Nazistas), o coração do espectador dispara. Pequenas histórias emocionantes ganham as páginas, e a torcida pelos ratos (Judeus) é inquestionável. A partir daqui, guardo o segredo. Para quem ainda não conhece o que é uma Graphic Novel, deveria começar obrigatóriamente por esse livro. É amor à primeira vista, e com razão de ser tão aclamado.Luciano R.M.: Confesso ser um pouco displicente com relação aos quadrinhos: só recentemente eles têm me cativado de forma mais séria. Um dos responsáveis por isso é Art Spiegelman, autor do excelente ‘Maus’ (palavra alemã para rato). Transformando judeus em ratos, poloneses em porcos e alemães em gatos- os dois primeiros tirados da propaganda nazista- ele reconta a história de seu pai, Vladek Spiegelman, e a sua própria, através e graças ao holocausto. Não cai, entretanto, no cliché piegas da maioria das obras a respeito do que os judeus passaram. A tragédia histórica de um povo é apenas o pano de fundo para a tragédia pessoal de seu pai- e, consequentemente, a sua própria. As repercussões e a contradição disso com o presente- como quando o pai de Art teme que um negro o roube, simplesmente por ser negro- é demonstrada, dando a Maus o valor que tem.

Tiago: Seria o caso de se perguntar qual é a vantagem de transferir o relato de um sobrevivente de Auschwitz para os quadrinhos? Se fosse apenas uma variação de meios (a literatura e o cinema já estariam saturados) então “Maus” não teria o valor que tem. Spiegelman, que teve uma longa experiência em publicações alternativas nos anos 1960 e 1970, soube usar os quadrinhos no que eles têm de melhor: seu lugar subterrâneo, como algo que circula por fora, até mesmo junky. Sem dúvidas, é a partir daí que ele consegue contar a história de seu pai sem apelos à dramaticidade barata ou à vitimização, ao que pendem as narrativas mais comuns desse “lugar impossível de se contar”. Seu pai e mesmo o alter-ego do autor são, na maior parte das vezes, absolutamente odiáveis. Mas, poderíamos ir além: mesmo uma certa “sublimidade” inerente e muitas vezes pervesa que clamamos ao assistirmos a um filme ou lermos um livro sobre o tema (entramos em contato com A Literatura, O Cinema, mais do que com um terror inominável) é evitada por Spiegelman. Até mesmo o risco mais provável de seu meio, o da infantilização da história por leitores mal acustumados, é contornada e ironizada pelos usos esteriotipados de animais (rato, gato, cão, etc.), típicos de histórias em quadrinhos. “Maus” faz lembrar, para aqueles que acham que HQ deveria ser Literatura, que, às vezes, é melhor que uma história seja em quadrinhos.

Kika: Não é só a despersonalização dos personagens (gatos, ratos, porcos), ou o assunto altamente contundente tratado – a Segunda Guerra Mundial. Esta obra prima dos quadrinhos me encanta por sua honestidade, pelo veio emocional de um filho contando a história de seu pai,sem esconder seus vícios e manias, boas ou ruins. Li de um só fôlego, chorei, me frustrei e até ri em alguns momentos. Foi o suficiente para despertar meu lado missionário. Genial.

Anica: O importante em Maus não é o enredo em si (que convenhamos, já foi bem explorado em tudo quanto é tipo de mídia). A questão é como Art Spiegelman o faz, contrastando a leveza e o peso de maneira única ao contar uma fábula sobre os horrores do Holocausto. Ao contar a história dos pais e de como ele sobreviveram à Auschwitz, Spiegelman foge do caminho mais fácil de simplesmente vitimizá-los, mostrando que eram pessoas comuns que estavam lá: com todo os tipos de qualidades e defeitos que qualquer um poderia ter. Se você cresceu com a ideia de que HQ são só herois com superpoderes, talvez seja um bom momento para conhecer uma que apresenta como maior ato de heroísmo o fato de simplesmente sobreviver, quando tudo parece ir contra.

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Um comentário para “Maus

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