Primos- Histórias da Herança Árabe e Judaica

em 6 de junho de 2010

A Hamsa é um símbolo comum no Oriente Médio e no norte da África. Uma mão com dois polegares e um olho no centro de sua palma. É conhecida também como ‘mão de Fátima’- uma referência à filha do profeta Maomé. Os judeus a conhecem como ‘mão de Miriam’- irmã de Moisés e Aarão. Por ser um símbolo comum às culturas árabe e judaica, é frequentemente utilizado por organizações que lutam pela paz entre os dois povos.

E é mais ou menos como uma Hamsa o livro lançado recentemente pela Editora Record, organizado pelas escritoras Adriana Armony e Tatiana Salem Levy. Primos- histórias da herança árabe e judaica é uma coletânea de contos de 20 escritores dessas duas origens- nem todos nascidos no Brasil, mas todos adotados pelo Brasil.

O livro divide-se em quatro partes: História, Memória, Alegoria e Tradição e Ruptura.

Na primeira, como o nome sugere os autores passam eventos históricos em revista. Adriana Armony, com Espinosa se deita– um ponto de vista nada usual sobre a vida do filósofo; Alberto Mussa, com De canibus qæstio, uma espécie e conto-ensaio em que Mussa desfila erudição ao falar sobre o cerco de Máara pelos cruzados do Tafur, cães e canibalismo- e na minha opinião um dos melhores contos da coletânea; Flávio Izhak, o conto A última noiteUns de outros, de Julian Fuks; e Samir Yazbek, com seu O último profeta, na realidade uma cena dramatica curta, não um conto.

A parte seguinte, Memória, é bastante semelhante, porém não trata necessariamente de fatos históricos, mas de acontecimentos revisitados por indivíduos. Nessa parte temos Leandro Sarmaz com o escritor solitário de Uma fome; Moacir Sclyar em Na minha cabeça suja, o Holocausto mostra as associações que um menino de 11 anos faz com o holocausto; em Trinta. Ou mais Salim Miguel apresenta um simpático taxista que conta a história de sua família. E essa segunda parte termina com Sonâmbulos, de Whisker Fraga, um texto talvez um pouco hermético e fragmentário, algo que me remeteu ao melhor de Raduan Nassar.

Em Alegoria os textos distanciam-se cada vez mais de qualquer traço de realismo que possa ter existido: Alexandre Plosk sepulta o senhor Weizman inúmeras vezes em Os funerais de Baruch Weizman; em Sessão de Campa Bernanro Ajzemberg nos faz acompanhar um homem de 31 à compra precoce de sua sepultura; Carlos Nejar, com Xerazade, ou a infância das formigas, apresenta uma metamorfose muito mais singela que a kafkina; enquanto que Fabrício Carpinejar traz uma figura quase divina de volta a condição humana em Os Sapos; e terminamos com Georges Bourdoukan e a história mais abertamente alegórica de todas, O homem que libertou a morte, praticamente uma lenda ou fábula.

A última parte, Tradição e Ruptura, mostra o que se salvou das duas culturas no Brasil- e o que se perdeu. Efsher, palavra iídiche significando ‘talvez’ é o título do conto de Arnaldo Bloch, um diálogo cáustico, carregado de cinismo, entre pai e filho; Saul, o gordo e triste protagonista de Ungido como um Rei, de Cíntia Moscovich, vê seu mundo fugir do controle ao decidir mudá-lo; indo no sentido oposto a protagonista do conto de Márcia Bechara, A Travessia, é uma mulher de grande vontade de potência, que carrega a tradição dentro de si. Em A filha única do filho mais velho e em Arroz com lentilhas (respectivamente de Eliane Ganem e Luiz Antônio Aguar) o amor é o tema, no primeiro melancólico e filial, no segundo romântico e acolhedor. O último conto é de Tatiana Salem Levy, Shabat, em que se vê uma desalentadora ruptura com a tradição- o velho mundo não é sequer suplantado pelo novo, é ignorado por ele.

Depois disso ainda existem breves páginas dando mais informações sobre cada um dos autores, explicando sua ascendência e um pouco de sua carreira.

Como toda coletânea, existem contos que agradam mais e contos que agradam menos, ao gosto do leitor. Mas mais que isso, acredito que tenha dois pontos de importância crucial: apresentar escritores para o público brasileiro e mostrar as semelhanças entre os dois grandes povos semíticos- e como tornaram-se ainda mais semelhantes em nosso país.

Saiba mais sobre essa e outras obras no site do Grupo Editorial Record

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Um comentário para “Primos- Histórias da Herança Árabe e Judaica

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