Trond Sander é um homem de 67 anos que vive quase como um eremita em uma região rural da Noruega. Lá ele divide seu tempo entre andar com sua cadela Lyra, ler livros de Charles Dickens, procurar lenha e fazer tarefas domésticas cotidianas. Sua vida não tem nada que ultrapasse a constância de uma vida de quase isolamento.

Essa tranqüilidade é desequilibrada quando um vizinho seu, Lars, lhe desperta memórias de um verão passado, de seus tenros tempos juvenis, quando uma série de eventos mudou a vida de Trond. Esse vizinho assume as vestes de “fantasma do passado”, trazendo de volta reminiscências de tempos idos.

Per Petterson tem uma escrita agradável, pontual, sem informação em demasia, escrita com gosto e capricho. Ele parece ter sido seduzido pela narrativa de tal forma que se perdeu um pouco no que tange a trama. Sua prosa é resultado de um exercício narrativo que se concentra em pequenos detalhes prazerosamente, extraindo deles alguns aspectos que transcendem a esfera literária. Em pequenos vôos, entretanto.

Em seu exílio voluntário na paz rural norueguesa, Trond vê sua solidão ir sendo aos poucos sendo modificada, já que o encontro com seu vizinho lhe causou perturbação que o faz repensar suas próprias convicções a respeito da vida e de suas opções de vive-la.

O autor consegue captar o leitor pela espontaneidade com que escreve, com certos nuances líricos, porém tão naturais que são quase subjacentes. As memórias de Trond, parte importante da história do livro, servem para contrapor e buscar compreender sua opção pela solidão. Elas são parte constituinte das reflexões a que Trond se submete a todo momento, já que é ele o narrador que nos conduz pela trama.

De minha parte posso dizer que o que realmente me absorveu foi a exploração da condição solitária e eremita de Trond, que me fez lembrar da primeira parte de Anjos da desolação, do Kerouac (quando ele narra suas experiências como vigia de incêndios no topo de uma montanha), embora sob circunstâncias diferentes.

Transitando entre os acontecimentos presentes e as rememorações de Trond, Petterson consegue construir uma história tocante sem ser piegas e forte sem ser insensível, versando sobre o rito de passagem para a vida adulta.

Um livro agradável e recomendável, que, se não atinge a perfeição (a meu ver) no que diz respeito a trama, sobra na beleza de suas frases e na sinceridade de sua narração.