The Pedro Franz Book Club

em 23 de janeiro de 2011

Informações

  • Autor: Pedro Franz
  • Tradutor:
  • Editora: Edição do Autor
  • Páginas: 68 (Limbo); 110 (Underground)
  • Ano de Lançamento: 2010
  • Preço Sugerido: R$ 10 (Limbo); R$ 20 (Underground)

Uma das angústias constantes ao comentar a leitura dum livro é a dificuldade em escolher uma abordagem. Deve haver uma espécie de clichê resenhístico que consista numa indecisão inicial a respeito de quais aspectos da obra terão destaque e quais ficarão ocultos no artigo – algo parecido com o apelo dos cronistas à metalinguagem para discorrer sobre a falta de assunto. Isso ocorre, dentre outros motivos, porque, ao citar os melhores momentos da obra em questão, há sempre o perigo de revelar demais o enredo e estragar a surpresa do leitor – já tentou imaginar como seria bom ler Grande Sertão: Veredas sem conhecer Diadorim? (E, se você nada ouviu sobre este personagem, não sabe o que está perdendo: corra, leia o livro e depois me diga como foi a experiência.)

Toco nesse assunto simplesmente para ressaltar um dos pontos positivos em comentar Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo. A hq é um presente para resenhistas indecisos e que temem spoilers: ao discorrer sobre a obra numa plataforma como o blog, pode-se simplesmente assumir que todos a leram.

E é isto que farei no texto a seguir: você pode se adiantar e ir ao blog do autor para baixar os oito capítulos da obra; ou, se preferir, ir para a resenha abaixo e alternar a leitura dela com a dos capítulos (para baixa-los, basta clicar com o botão direito e escolher “salvar como”).

1. Limbo

Confesso que, antes de ir à Itiban Comic Shop para o lançamento, resolvi fazer o download dos oito capítulos disponíveis da hq de Pedro Franz. Pretendia ler tudo para ver se valia a pena comprar, mas depois pensei What the hell? Vou comprar sem ter lido mesmo. Ao menos o nome dado já agradava: Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é um título enorme e bonito, de jeito a capturar, de imediato, minha atenção.

Autógrafos nos dois volumes, já em casa, deito-me para começar a leitura de Limbo – o primeiro deles, em papel jornal, capa colorida e demais páginas em preto e branco.

Capítulo 1 – No qual Lucas Jolly Roger foge de seu esconderijo

A história está apenas começando. Fragmentada, a narrativa mostra helicópteros em busca de suspeitos dum atentado, um rapaz escondido, um outro morto depois de tortura policial, um jornalista indignado com a situação – mas que subiu na vida maquiando informações recebidas da polícia, um garoto (Danilo) que compra uma máscara de caveira e dois amigos (Julia e Rafa) que ajudam o primeiro rapaz (Lucas) a fugir de seu esconderijo.

O bonde já está em movimento em todos os pedaços de história, o que não chega a complicar o entendimento. Apenas duas coisas estranham: Jolly Roger, que é o nome que se dá àquelas bandeiras piratas: fundo preto, caveira e dois ossos cruzados; e os comprimidos Ícaro que, no entanto, só adivinhamos que seja uma nova droga ilegal. Colocar a cena com o corpo torturado do adolescente, convenhamos, não chega a causar um real estranhamento, infelizmente. Está mais pra consequência de Tropa de Elite, do que para o final feliz de Quem quer ser um milionário?.

Depois que os fugitivos se atiram do topo de um prédio, você vira a página rapidamente para ver o que acontece e…

Capítulo 2 – Quando convida-se o leitor a testar sua fé ao julgar a veracidade da história do Padre Julio Siqueira

…ahn?
Antes, temos contato com a história desse padre e do milagre que o fez decidir sua vocação. Ao final do capítulo, numa cena em que o vemos gritar no meio duma praça cheia mas em ouvintes, uma frase do narrador possibilita uma interessante ambiguidade: decidir se acredita ou não que julio siqueira faz o que deus lhe diz e que apenas ele consegue escutá-lo. Fica ao leitor, como apontado no título, a decisão a respeito de crer se apenas o padre ouve Deus e se somente Ele, como parece, ouve Julio Siqueira.

Mas no meio do capítulo há outras informações. Vemos Danilio usando a caveira no rosto, brincando de ser Jolly Roger e atrapalhando a novela da mãe com uma espécie de coquetel molotov na mão. Também vemos que os fugitivos conseguiram escapar e por algum motivo não se esborracharam. Numa splash-page – duma beleza que estou satisfeito por não precisar descrever, porque você já viu – relata-se que a sensação écomo estar respirando embaixo d’água mas com o vento batendo no teu rosto. É como se a fuga deles obedecesse às leis da gravidade d’O tigre e o dragão.

Capítulo 3 – Após mostrar cenas de nudez, de sexo e de uso de drogas por crianças, utiliza-se uma conversa de bar para comentar a relação entre território e sociedade

E nesse capítulo estão as páginas que Rafael Coutinho mostrou à guria que perguntou algo sobre quadrinhos eróticos.

Na cena com Lucas, ele visita uma guria. Ela grita com ele, depois passa a sussurra (as letras nos balões se deformam, perdem a nitidez e se confundem) até que eles não falem mais nada. A quebra do silêncio pela Te amo, num suspiro sonolento, leva à despedida. Na cena com Danilo, finalmente é visto o nexo causal entre os comprimidos ilegais e o vôo, com o vislumbre de possíveis efeitos colaterais.

O título do capítulo, ainda mais metalinguístico que o anterior, demonstra que o autor não teme expor os artifícios que utiliza na narrativa. Isso porque sempre se busca esconder que a fluidez quase sempre é fruto dum constante processo de revisão e análise dos métodos de criação visando determinadas reações do leitor. O que Pedro Franz escreve seria equivalente a assistir ao Homem-Aranha, antecipado por longos letreiros que discorrem sobre como Há uma relação das cores do uniforme do herói com o desejo de aumentar a moral dos cidadãos estadunidenses após 11 de setembro, bem como a presença da bandeira do país em momentos de forte apelo emocional visam a incentivar o patriotismo.

Enquanto que no Homem-Aranha tais letreiros atrapalhariam a suspensão da descrença que nos leva a aceitar uma aranha transgênica como transmissora de super-poderes, em Promessas ela serve ao propósito de misturar ficção e realidade. As fotos 3×4 (enviadas por leitores para ajudar a narrativa) – que, nas capas, estão em número equivalente ao da numeração dos capítulos – coloca-os, mascarados, como participantes do movimento Jolly Roger. E a partir dessa interlocução com o mundo real, podemos pensar na conversa no bar, localizado em um local aparentemente fictício, como uma forma de revelar que o ocultamento/maquiagem da pobreza talvez não seja uma exclusividade curitibana.

O plano aéreo da ilha de Florianópolis, no final do capítulo, faz a primeira ligação entre as histórias paralelas, e servindo para organizá-las temporalmente.

Capítulo 4 – E Jolly Roger convida todos a tomarem as ruas

Personagem de Chagal, Ícaro, Peter Pan: Lucas. Jolly Roger. Voando com uma ausência no peito. Perguntando-se se quem pôs a bomba é um integrante de Jolly Roger ou se isto foi uma espécie de sabotagem tentando denegrir a imagem do movimento, pacífico. Até que a resposta deixe de importar, em raciocínio mais rápido que o do narrador deClube da Luta: o movimento é maior do que ele.

O ano é 2018, mas parece hoje mesmo: uma postura parecida com a de certos filmes de ficção científica low-tech: deixar de apostar tanto em um futuro totalmente diferente do mundo contemporâneo. E assim ter mais chance de acertos nas previsões – nesse sentido, o jornalista que resolve revelar fatos que ocultara em suas reportagens soa um pouco como o criador do Wikileaks, meses antes do site existir.

As páginas finais constituem uma linha do tempo com pistas, em vez de descrições, sobre determinados momentos históricos. Ao leitor são dadas duas possibilidades: a de sentir a atmosfera que permeia os períodos citados; e a de pesquisar um pouco mais sobre eles. Ambas satisfatórias.

E em 2018, Jolly Roger vai às ruas.

2. Underground

Durante o lançamento na Itiban, muito se falou sobre as definições do adjetivo “experimental”. Pedro Franz, ao comentar sobre sua hq, disse não saber onde pretende chegar com aquilo e que leituras, acontecimentos diários podem influenciar e apontar caminhos não vistos anteriormente.
O volume 2 – Underground – estranha pelo formato. Em vez de livro ou revista, um envelope colorido com 55 lâminas soltas, totalizando 110 páginas. Há a divisão em capítulos, há uma ordem sugerida pelo autor (assim como n’O jogo da amarelinha, de Cortázar, há dois: a ordem de alternância de capítulos e a convencional, necessária no livro de papel e seguida pelos mais conservadores). Ao mesmo tempo, não há numeração de páginas e há a sugestão de que a leitura seja feita em ordem aleatória.

Tampouco há quadrinhos como aqueles com que estamos acostumados, com “calhas” separando os quadros. O que está escrito não está em balões, mas em letras brancas e tipografia característica de máquinas de escrever, contra o fundo negro das páginas.

Capítulo 5 – Se você toma as ruas, a polícia toma as ruas também.

A quantidade de referências a artistas e intelectuais dos mais diversos calibres cresce no segundo terço de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo. Neste quinto capítulo, por exemplo, há homenagens/citações/referências a Magritte (Isto não é uma caveira), Picasso (Guernica em versão retardada), a Bíblia (Teu nome é Legião porque sois muitos) e Rudolphe Topffer (que parece descreverUnderground no trecho citado).

O crescendo de tensão nos remete a conflitos iminentes.

Toda ameaça será reprovada, desqualificada, transformada em algo com um código de barras.

Capítulo 6 – Quando a criança torna-se parte da multidão.

Estávamos acostumados a filmes de ação em que não perdíamos um detalhe sequer das brigas, os golpes desferidos e sofridos, até que diretores como Paul Greengrass resolveram tornar a estética e edição cinematográfica em algo que representasse mais fielmente a confusão que é estar no olho do furacão.

Não se sabe quem começou o conflito. E isso é claro tanto nas ilustrações – Pedro Franz desenha aqui mais ou menos como Paul Greengrass filma e edita; afinal, ele quer seu leitor no meio da confusão –, quanto em sua escrita – em momentos que descrevem a humanidade dos que estão nos dois lados do embate: com falhas, defeitos, qualidades e amores frágeis, passíveis de serem destruídos em instantes.

Capítulo 7 – No qual comenta-se Gil Scott-Herom.

The Revolution Will Not Be Televised é o título do poema/canção mais famoso do cidadão citado no título do capítulo.

Danilo é morto. O jornalista provavelmente terá o mesmo destino.

Enquanto isso, a novela das oito sequer é interrompida.

Capítulo 8 – O herói descobre que é parecido com seu inimigo.

O título é o que acontece nos momentos finais do segundo volume. Conjuntamente, aprendemos bastante sobre conceitos de Clifford Geerts a respeito de conjuntos de pessoas que estão entre o grupo e a multidão.

Ainda nos sentíamos mal por Danilo e pelo jornalista e, depois do capítulo, talvez nos sintamos vingados pela pedra na mão de Lucas. Algo que negamos, óbvio, se alguém nos perguntar.
Isso é ficção, se passa no futuro, ouvimos o cérebro dizer. Calma, estou aqui para lembrar que suspensão da descrença não deve se prolongar tanto que lhe faça pensar em sua existência. Ou na violência crescente. Ou nos pequenos abusos que sofremos diariamente. Não: uma hq é para passar o tempo e se não cumpre sua serventia deve ser jogada fora. Ou deletada permanentemente do computador.

Contudo outra voz, diminuta, torna-se grito e repete alguns nomes próprios, tais como Teresa Lewis e Sakineh Mohammadi Ashtianti.

Isso não acontece nos dias de hoje, o cérebro tenta continuar, mas não damos muita trela. Estamos acostumados à ideia de progresso (novas gerações de ipods desbancando as anteriores, novas versões do Windows prometendo maior eficiência) e de que, quanto mais o tempo passa, mais nos desenvolvemos. Não entendemos como absurdos como o Holocausto ocorreram, mas durante a Segunda Guerra Mundial, muita gente ficou sem entender sua ocorrência num mundo em tal estágio de desenvolvimento. No Brasil, não entendemos o atirador que feriu uma deputada americana e matou seis pessoas, mas não vemos um desejo semelhante nas pessoas que conhecemos.

Cada povo ama sua própria forma de violência.

É isso, amigo: a hq de Pedro Franz já fez o estrago dentro da gente. Fez pensar, algo a que nem sempre estamos dispostos em nossas leituras.

Por fim, dá um sopro de esperança: TODAO ORDEM CAOS É APENAS APARENTE. Um sopro que nos sustenta até o próximo volume: Potlatch.