Maus – (Art Spiegelman)

em 15 de abril de 2011

É fato que a Segunda Guerra Mundial gerou grandes conseqüências e mudanças em vários âmbitos para os que sobreviveram a ela. Muitas reflexões e traumas ganharam forma na literatura e cinemas. Alguns clássicos, como “O Pianista”, “A Lista de Schindler”, “O Garoto do Pijama Listrado” e “Diário de Anne Frank” emocionam grandes públicos e leitores que mesmo não tendo vivido a época, se chocam e ficam inconformados com os massacres, campos de exterminação e lutas que estouraram a partir do fim da década de 30 até 1945.

Com isso, pensando em um primeiro momento, foi difícil compreender que uma história em quadrinhos pudesse tratar de um tema tão sensível, capaz de imergir o leitor tanto quanto as obras que eu citei. Ao começar a ler “Maus”, de Art Spiegelman, percebi que estava enganada. A Graphic Novel chama atenção por ser bastante original nos quesitos gênero e linguagem. Isso já é visto logo nas primeiras páginas depois da introdução, no momento em que dois ratos, Artie e Vladek, conversam. Artie anota tudo o que seu pai, Vladek, fala sobre suas lembranças na Segunda Guerra Mundial enquanto pedala em uma bicicleta ergométrica.

Seria apenas uma conversa comum, se Artie não fosse uma representação do autor, e Vladek de seu pai em vida real. O autor não só se retrata no livro, como segue (ou tenta seguir) fielmente as reuniões que tinha com seu pai e outros personagens da narrativa. Ao decorrer da história, passamos inclusive por momentos em que ele conversa abertamente sobre os desenhos que está desenvolvendo sobre as memórias e os mostra para Vladek. Temos então uma Graphic Novel com metalinguagem, pois é um desenho falando sobre um desenho, e algo que beira o jornalístico e documental, já que existe uma busca pelos fatos e veracidade dos acontecimentos.

Em “Maus”, os judeus são vistos como ratos, os poloneses são porcos, os americanos são cachorros e você já deve estar deduzindo, os alemães são gatos. Essas representações, evidentemente, são uma crítica a situação da época em que cada grupo acabava por ter características semelhantes aos animais escolhidos por Spiegelman. Mas, fato é que o autor não foi o único a comparar os judeus com ratos, uma vez que esse pensamento era divulgado desde a época da Guerra pelos alemães. A prova disso está, por exemplo, na cinematografia anti-semita da época, com filmes como “O Judeu Süss” (de 1940) que também fizeram essa comparação de forma literal.

Outro ponto interessante de crítica trabalhada no livro está na corrupção e sociedade transformadas com a Guerra. Através das memórias de Vladek, passamos por momentos em que judeus se delatam para tentar salvar suas peles, a troca de mercadorias e busca a todo custo por comida no mercado negro, além da polícia judia, que muitas vezes atuava juntamente com a alemã. Para Vladek, tudo muda nas condições de extrema necessidade por ele mesmo ter vivenciado isso. Não existe família, não existe amigos e nem em quem se confiar. Por exemplo, na introdução do livro, Artie, ainda pequeno, cai de patins e é deixado para trás por seus amigos. Chorando, ele vai até Vladek fala para falar do ocorrido e ele diz que se trancassem todos os seus amigos de Artie em um quarto por uma semana sem comida, o garoto ia ver o que é amigo. Como disse, essa é a introdução do livro e essa ideia se desenvolve muito ao longo da narrativa.

Além disso, essa não é a única lição que Vladek quer passar ao filho. Como Artie mesmo diz em determinado ponto, seu pai parece uma caricatura do judeu avarento: Ele gasta pouquíssimo dinheiro, exige que todos comam toda a refeição do prato e controla todo tipo de gasto dos membros da casa. No início do livro, o foco da narrativa é a vida de Vladek em Sosnowiec até Auschwitz, mas, aos poucos, esse foco se equilibra com as conseqüências da Guerra para a família, o que inclui o comportamento estranho de Vladek, as brigas com Artie e Mala, além da memória do suicídio de Anja, mãe do autor e morte de Richeu, primeiro filho do casal.

Com tudo isso, “Maus” se torna uma brilhante narrativa sobre a Guerra e, mais que isso, sobre o comportamento humano e familiar. Originalmente, foi escrito em dois volumes: “Meu Pai Sangra História” e “Aqui meus Problemas Começaram”, mas, em 2009, ganhou volume único com o selo da Quadrinhos na Cia.

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

Maus
Autor:
Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Editora: Quadrinhos na Cia.
Páginas: 296

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