Preacher começa com uma idéia não muito original: um pastor do Texas é possuído por uma entidade (Gênesis, fruto da inconcebível união de um anjo e um demônio) e com os dons adquiridos — a palavra, que faz com que ninguém possa resistir a suas ordens — resolve ir à procura de Deus depois que sua igreja é queimada e todos os presentes morrem, e tirar satisfações pelo mundo que vivemos. No caminho Jesse Custer encontra sua ex-namorada (hoje uma assassina profissional) e Cassidy, um vampiro irlandês que não gosta de sangue, mas curte beber e viver loucamente.

Por se tratar de uma road story já sabemos que muitas aventuras esperam esse trio. Mas o que pode fazer com que tenhamos interesse em Preacher? E a resposta não é simples: porque foi um título herdeiro do caminho aberto por Sandman, mas que é completamente diferente, mais visceral, cheio de humor ácido e crítica disfarçada. Os fãs de Sandman costumam não apreciar a crueza dessas histórias; e outros tantos, mesmo leitores, adoram o humor desleixado e exagerado das histórias, mas várias vezes se referem ao exotismo do título como um fator para lamentar.

Mas Preacher se justifica como um título histórico da Vertigo (selo da editora DC que lançou Sandman, Transmetropolitan, Homem-Animal, para citar alguns) não apenas pela alta vendagem. Garth Ennis, autor irlandês faz uma verdadeira revista do sonho americano e diz que ele está degenerando em batata frita, perversões, fundamentalismos. E vale lembrar, neste mundo pós 11 de setembro, que adora se referir ao oriente médio como lar dos maiores fundamentalismos, que Preacher começou a ser escrito em 1995. Muito antes de Bush se auto-proclamar bastião dos valores elevados da humanidade, Ennis já fazia uma crítica à maneira, digamos, de faroeste que os americanos tem de resolver todos os problemas.

Porque Jesse Custer sai pela América e se depara com o horror cotidiano e auto-indulgente e tenta fazer alguma coisa, mas sua força é pequena para tudo. Ele pode enfrentar a Ku Klux Klan e dar uma surra neles, mas não pode fazer com que outros deixem de acreditar naquele caminho. Pode acabar com uma fazenda de seus ancestrais, que não passavam de caipiras preconceituosos e maldosos, mais preocupados em tirar vantagem de qualquer situação que apareça e ficar longe do caminho formal da lei. Mas o que pode contra todos os outros que fazem isso?

No fundo a busca de Custer é pelos ideais que deram origem àquela nação e estão desaparecendo sem que ela própria se ressinta. Mas a única maneira que ele tem de fazer isso é bem americana também: levantar os punhos e dar uma surra nos culpados, mesmo que eles continuem por aí. Se olharmos a HQ, pela perspectiva histórica é um recado bem interessante, porque os EUA derrotaram o Iraque no começo dos anos 90 e nada mudou. A surra foi inútil, tão inútil que tiveram que voltar mais de 10 anos depois e começar uma guerra que não sabemos como vai acabar, nem quando.

Pode uma HQ ser tão profunda em suas ambições? Sem dúvida, basta ver exemplos como Palestina, Maus, Gorazde, V de Vingança e tantos outros. Mas Preacher se diferencia por ser uma leitura em que o humor sobressai. E me agrada muito ver como Ennis tinha razão ao apontar os vícios americanos… Leitura obrigatória para qualquer um que se interesse por HQs, ou queira uma maneira menos ortodoxa de enxergar as coisas.

Sobre o autor: Marcelo Delfino é sociólogo, leitor e curioso. Aprendeu a ler com quadrinhos e nunca mais parou de ler. Acredita que são mais do que mera distração, podendo contribuir realmente para entender a realidade e refletir.