Da sua mesa de trabalho, ele olhava distraído o retângulo da janela onde se destacava a linha do horizonte separando as águas barrentas do rio de um céu azul e límpido. Sua mulher já não estava mais junto dele. Antes, os filhos haviam tomado rumos independentes na vida. Estava só e isso lhe trazia um sentimento estranho de paz, liberdade e solidão Paradoxal. As três não se completavam. Paz e liberdade talvez, mas a solidão doía no fundo da sua alma, trazendo-lhe uma sensação de finitude. Subitamente, uma idéia harmonizadora. Fazia-lhe falta a presença de um ser vivo, algo que respirasse, se movesse, estivesse presente e fosse capaz de reafirmar a sua própria existência, sem, contudo, interferir com ela.

Assim começa do conto ‘Ponto final’, da coletânea homônima de J. H. Bragatti, lançada pela ediotra Dublinense. São vinte e dois contos, todos bastante curtos e com um mesmo fio condutor: a solidão, o abandono, a proximidade da morte e a incerteza da vida.

O autor é neurologista e, por isso, o universo de hospitais, consultórios e doenças é uma presença constante- mas não absoluta- em seus contos. O modo como ele consegue retratar os medos e anseios presentes nesta profissão é- devo confessar- bastante próximo ao real. Isso no entanto é limitá-lo: o que ele consegue retratar de modo verossímil é a angústia de estar vivo e sentir-se sozinho, e não algo específico a uma profissão ou situação.

Esses temas, porém, não são explorados de modo repetitivo. Em ‘A Gravata’ temos um jovem médico que aprende a mentir, em ‘Coronel Valente’ uma estátua de um líder esquecido nos conta suas mágoas. Em ‘Dilema’ um casal que decide terminar seu casamento durante uma viagem ao Marrocos e em ‘O Encantador de Serpentes’ é a cobra quem narra, comparando-se a seu dono.

Retratando uma decadência inevitável e esperada, o escritor gaúcho utiliza de diversas estratégias, que vão do humor à resignação, sem nunca deixar de ser interessante. Em contos como ‘A mulher de Ló’ chegam mesmo a surgir sentimentos um tanto quanto dúbios, em um relato ao mesmo tempo cômico e digno de pena.

Sua escrita é simples, sem muito rebuscamento, o que considero bastante adequado em contos curtos. Que, de tão curtos, aliás, algumas vezes permanecem em aberto, deixando ao leitor uma pergunta como conclusão. O que é, talvez, o maior charme de seus contos.

Ponto Final

Autor: J. H. Bragatti

Editora: Dublinense

Páginas: 96

Preço Sugerido: R$ 25,00

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