A perspectiva de ter uma coluna mensal aqui no Meia-Palavra causou-me sentimentos dúbios. Obviamente achei a idéia bastante interessante e um tanto quanto empolgante, mas, por outro lado, logo fui assaltado pela agonia de não saber por onde começar.

Claro, eu sabia sobre o que eu poderia escrever. Meu dia-a-dia no hospital me dá muito no que pensar. Sem contar minhas obsessões, como a cultura do Leste Europeu e, mais recentemente, do sudoeste e do centro asiáticos. E ainda todas as questões do judaísmo- sobre as quais eu já escrevi tanto aqui no blog, de modo um pouco mais distanciado.

Mas nada disso me satisfez. Escrevi e voltei ao começo umas tantas vezes. Até que a França – um pais que me desperta certa antipatia – me fez um favor: cancelaram as comemorações do aniversário de 50 anos de morte de Louis-Ferdinand Céline a pedido de organizações humanitárias e de famílias de vítimas do Holocausto.

Céline escreveu duas das mais importantes obras em língua francesa, Viagem ao Fim da Noite e Morte à Crédito. São obras, realmente, ímpares. Por isso ele tem seu lugar garantido no panteão literário francês. Misturando língua culta e coloquial, num estilo rápido e que despeja ódio, ele criou obras-primas.

Ao lado disso, esquecidos por alguns e glorificados por outros (poucos, e menos ainda de modo aberto), estão seus folhetos antissemitas. São precursores do estilo que o tornou famoso, considerados obras intermediárias, mas o ódio é maior e direcionado aos judeus. Céline ainda continuou sua obra delatando famílias judias durante a ocupação alemã da França.

A grande polêmica foi sobre a ligação entre biografia e obra. Negar a celebração do escritor devido ao antissemitismo do homem? Qual a medida da separação entre os dois?

Sinceramente, não sei. E não sei se considero esse o ponto mais importante. Talvez a relação deva ser invertida e voltada para o leitor: acho que a pergunta deveria ser ‘com quem o leitor está se relacionando, com o homem ou com a obra?’

A respostas, claro, é variada. Individual; ao menos na medida em que nos é permitido ter uma individualidade na sociedade contemporânea.

Mas acredito que relações com os escritores em detrimento da obra são perigosas. Günter Grass foi da juventude hitlerista, Ezra Pound proferiu discursos anti-democráticos e pró-Mussolini nas rádios italianas durante a guerra, a maioria dos escritores israelenses tem suas mão sujas de sangue árabe, toda a geração Beat usou e abusou de drogas e sexo não seguro, Sarah Kane e Sylvia Plath cometeram suicídio. Todos esses exemplos podem ser considerados indivíduos ‘socialmente perigosos’, afinal tiveram comportamentos que – se não a seu tempo – hoje causam asco à maior parte das pessoas.

Por outro lado, se lermos apenas as obras, não nos faltará algo? Extrapolando para o campo das artes visuais, pensemos em ‘A Fonte’ de Duchamp. O que ela seria sem Duchamp? Uma latrina, apenas.

Para continuar essa discussão vou usar um exemplo, um tanto quanto obscuro, mas talvez mais representativo do que qualquer dos autores que apareceram até agora: Pal Vannarirak.

Ela é uma escritora cambodjana, que publicou mais de 40 novelas e 100 contos. Sua literatura é um tanto recatada e pode ser considerada pouco ousada para os padrões ocidentais, mas quase tudo o que ela escreveu durante o regime apoiado pelo Vietnã, no período pós-Khmer, foi censurado. Esse, aliás, era seu trabalho: selecionar livros para censura.

Chegamos, então, ao ponto que eu queria. Ela escrevia e ela censurava as próprias obras. Com os livros recolhidos, ela os copiava à mão e distribuía essas cópias. Deveríamos condená-la por trabalhar para a censura? Ou, ao contrário, deveríamos louvá-la por seu esforço um tanto quanto desesperado por sua obra e pela liberdade?

E Céline? Deveríamos acabar com as comemorações e esquecê-lo, o facista, ou então deveríamos considerá-lo um produto de seu tempo e perdoá-lo de tudo?

Ao contrário de Vargas Llosa – ele que, aliás, tem tendências políticas mais sutis se comparado com Céline, mas ainda assim cruéis – eu não acho que haja resposta para nenhuma das perguntas. Não me cabe ter náuseas pelos feitos de outra pessoa, não me cabe decidir se o que prevalece é o homem ou o escritor.

PS: Meus agradecimentos ao Daniel (@danfalken) que me mandou uns textos sobre essa coisa do Céline, e ao Tiago (aqui do blog) que me deu a idéia de escrever a coluna a esse respeito.

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