O futuro não é mais como era antigamente

em 9 de abril de 2011

Entraram. Com o perfume de âmbar cinzento e de sândalo, o ar parecia quente e pesado. No teto em cúpula da sala, o órgão de cores pintara momentaneamente um pôr-do-sol tropical. […] Como gatos melodiosos ao luar, os sexofones gemeram, nos registros alto e tenor, como se estivessem desmaiando. Com uma riqueza prodigiosa de sons harmônicos, seu coro trêmulo se foi elevando a alturas mais sonoras, cada vez mais sonoras – até que, por fim, com um gesto da mão, o maestro desencadeou a arrasadora nota final de música do éter […]. Fazendo evoluções de five-step com os outros quatrocentos pares no salão da Abadia de Westminster, Lenina e Henry dançavam, entretanto, em outro mundo – o mundo quente, cheio de cores vivas, o mundo infinitamente acolhedor criado pelo soma. Como todos eram bons, e belos, e deliciosamente divertidos! […] E quando, esgotados, os Dezesseis depuseram os seus sexofones e o aparelho de Música Sintética começou a executar o que havia de mais moderno em Blues Malthusianos lentos, Lenina e Henry eram como dois embriões gêmeos, embalados docemente pelas vagas de um oceano de pseudossangue.”

Neste que é um dos bons momentos de Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), o leitor do século XXI terá a viva impressão de que a balada do fim de semana foi sonhada por Huxley em 1931, e de que a Música Sintética que rege o lazer dos casais descompromissados é um nome antiquado para a música eletrônica. Que seja, a ficção científica é feita de sonhos que antecipam o absurdo do futuro. Mas talvez nem devêssemos ir tão longe: já o rock continha os elementos necessários para pintar o quadro da balada embalada por alucinógenos.

Podemos mesmo dizer que, ainda antes, o jazz prefigurava o som e a fúria dos anos vindouros da música de massas nos centros urbanos: no princípio o jazz era sexo, depois dança e a seguir música, segundo o escritor símbolo da Jazz Age, Scott Fitzgerald – e era muito provável que Huxley tivesse algo assim em mente naquele início da década de 1930, quando abria-se a era de ouro de Duke Ellington e das big bands de jazz swing.

O fato é que Admirável Mundo Novo é guindado ao status de clássico em virtude de suas visionárias sondagens sobre a moderna sociedade industrial. Fecundo nas ideias e erudito quanto ao arcabouço de informação do autor, o clássico se revela incapaz de sustentar-se formalmente. Passadas oito décadas desde o choque sobre o público leitore seu impacto sobre as ressentidas nacionalidades europeias do entre-guerras, a distopia perdeu força – não tanto pelo conteúdo programático quanto pela pobreza estética.

Admirável Mundo Novo sofre de dois males que o condenam já no primeiro capítulo, e ainda antes, no prefácio que o autor escreveu quinze anos depois: didatismo, a praga da literatura dita progressista, e seu corolário predileto e mais lamentável, o moralismo. Sim, difícil evitar tais ismos naquele contexto de premência histórica, mas basta lembrar de outros clássicos daquela época para que ponha-se a claro a riqueza dos recursos da literatura diante da realidade; fiquemos com obra semelhante em muitos aspectos: O Lobo da Estepe, de  Herman Hesse, 1927.

Onde Hesse imprimiu sugestões, seduções, dissoluções e inflexões, Huxley construiu rigidez, causalidade, finalidade e previsibilidade – menos pelo caráter próprio de cada autor do que pela capacidade de manusear com criativa ousadia o potencial das letras. Huxley abre sua história com um capítulo que é o espelho do que pretende: alunos são guiados por tecnocratas em visita a complexo tecnológico; evidentemente, o leitor-aluno guiado pelo autor-tecnocrata recebe em minúcias todas as informações sobre o funcionamento daquele cosmo – o problema é que, ao contrário dos personagens, que consomem com prazer neófito as explicações e instruções, não tem o leitor qualquer necessidade de comprazer-se com monólogos tão aborrecidos (e é bom salientar que não são aborrecidos pelo tema, mas pela falta de abertura, pela demasiada evidência com que se apresentam e se resolvem). Didatismo em sua plena forma. Seria preferível enfrentar o livro sem manual de instruções.

O capítulo seguinte injeta algum ânimo no leitor que não tiver desistido. E no capítulo 3 o obstinado leitor é premiado, de fato, por sua persistência; o capítulo é uma exceção notável na obra, todo tramado em diálogos que se sucedem em síncope contrapontística entre vários grupos de personagens (p. 96-97):

– Cortou-se a extremidade superior de todas as cruzes para delas se fazerem TT. Havia também uma coisa chamada Deus.

– É de pseudomarroquim legítimo.

– Agora temos o Estado Mundial. E as comemorações do Dia de Ford, os Cantos Comunitários, os Ofícios de Solidariedade.

‘Ford! Como eu os odeio!’, pensava Bernard Marx.

– Havia uma coisa chamada Céu; entretanto, eles bebiam quantidades enormes de álcool.

‘Tal como carne, como um pedaço de carne.’

– Havia uma coisa chamada alma e uma coisa chamada imortalidade.

– Pergunte a Henry onde a comprou.

– Mas eles tomavam morfina e cocaína.

Bem menos criativos são os diálogos dali pra frente. No capítulo 8 reina o didatismo; o capítulo 10 é de uma previsibilidade francamente frustrante. Seguem-se páginas e páginas no mínimo desnecessárias, quando não excessivas. O tema se mantém interessante, mas a deliberada condução do autor sobre todos os aspectos da história, a impossibilidade de aberturas à intervenção do leitor, o estandarte moral aberto sobre os destinos da história, o compromisso dos personagens em conformarem-se às necessidades da narrativa, a própria narrativa engessada na linha reta e rasa da parábola distópica, a previsibilidade, o didatismo, o moralismo, muitas são as razões que exaurem a legitimidade estética deste romance. Junta-se a A Revolução dos Bichos na medida da proporcionalidade da força de premência histórica da alegoria sócio-política, de um lado, e da debilidade do potencial lírico, de outro – que fazem destas obras monumentos preservados menos por seus méritos artísticos do que por suas relevâncias históricas.

Em determinado momento da história, Lenina cumpre suas funções no manejo do Depósito de Embriões, etapa de produção de seres humanos. Ocorre que instala-se uma instabilidade extraordinária no sistema, sempre perfeito, pois ela está distraída em devaneios de uma incompreendida paixão por John, o Selvagem. É muito para estas poucas linhas, mas o leitor que acompanha a narrativa não tem nenhuma dificuldade em compreender isso e imaginar os desdobramentos daquela imperfeição no futuro do sistema. Entretanto, veja-se como Huxley procede de maneira a subestimar a inteligência do leitor (p. 288):

“Suspirou profundamente enquanto enchia a seringa. ‘John’, murmurou para si mesma, ‘John…’ Depois: ‘Meu Ford, será que eu dei a injeção de doença do sono a este aqui, ou não?’ Simplesmente não conseguia lembrar-se. Afinal, decidiu não correr o risco de dar-lhe uma segunda dose e avançou ao longo da fileira para o bocal seguinte.

(Vinte e dois anos, oito meses e quatro dias depois, um jovem e promissor Alfa-Menos, administrador em Muanza-Muanza, morria de tripanossomíase – o primeiro caso em mais de meio século.) Suspirando, Lenina recomeçou seu trabalho.”

A julgar pelos parênteses, não é desejável a interferência da capacidade imaginativa do leitor. Huxley quer dizer tudo, como o tecnocrata do primeiro capítulo, e assim canalizar o potencial criativo dos alunos-visitantes dentro dos limites da sua cartilha distópica. O próprio autor explicita suas intenções no prefácio (p. 14):

“Se eu reescrevesse o livro agora, ofereceria uma terceira alternativa ao Selvagem. Entre as duas pontas do seu dilema, a utópica e a primitiva, estaria a possibilidade de alcançar a sanidade de espírito – possibilidade já realizada, até certo ponto, numa comunidade de exilados e refugiados do Admirável Mundo Novo, estabelecidos dentro dos limites da Reserva. Nessa comunidade, a economia seria descentralista e georgista, e a política, kropotkiniana e cooperativista. A ciência e a tecnologia seriam usadas como se, a exemplo do sábado, tivessem sido feitas para o homem, e não (como no presente e ainda mais no Admirável Mundo Novo) como se o homem tivesse de ser adaptado e escravizado a elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do Objetivo Final do homem, a busca do conhecimento unitivo do Tao imanente ou Logos, da Divindade transcendente ou Brama. E a filosofia de vida predominante seria uma espécie de Utilitarismo Superior, em que o princípio da maior felicidade ocuparia posição secundária em relação ao Objetivo Final – e a primeira pergunta a ser formulada e respondida em qualquer contingência da vida seria: ‘De que modo este pensamento ou ato ajudará ou impedirá a consecução, por mim e pelo maior número possível de outros indivíduos, do Objetivo Final do homem?’ […] Assim alterado, Admirável Mundo Novo possuiria uma inteireza artística e filosófica (se é admissível usar uma palavra tão importante a propósito de uma obra de ficção) que, em sua forma atual, evidentemente lhe falta.”

Acho oportuno lembrar aos desavisados de que Huxley não está sendo irônico ou sarcástico, mas, pelo contrário, está descrevendo sua concepção de mundo ideal, que está explícita no romance pela ausência, pela inversão. Nestes termos, e dada a maneira como o autor conduz-nos pelo Admirável Mundo Novo, me dou o direito de pensar que a distopia não é tão má assim, e respiro aliviado por saber que o mundo ideal dos moralistas é sempre derrotado pela realidade torta e viva dos homens – e da sua arte.

“Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano, ed. Globo

Sobre o autor: Lucas Petry Bender é graduado em História e vive na região metropolitana de Porto Alegre, mas acredita que a melhor formação se dá através da música e da literatura e que o melhor lugar do mundo para se viver é na arte. Tenta expressar algo assim em seu blog variações sobre o ritmo alfa.

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