Apesar de o artigo em língua inglesa da Wikipédia citar Joseph Brodsky como um poeta e ensaísta americano,  isso é uma mentira. Não tanto por ele ter nascido na Rússia, mas por seu espírito inegavelmente russo. Mesmo tendo vivido a maior parte de sua vida no maior adversário de sua pátria soviética, Brodsky jamais deixou de pensar e de sentir o mundo como o escritor russo que era.

Para provar isso, ninguém melhor do que o próprio Brodsky. Em 1986 ele publicou nos Estados Unidos uma coletânea de ensaios chamada Less than one and other selected essays, publicados no Brasil em 1994 pela Companhia das Letras, com o título Menos de um.  Nessa coletânea, discorre sobre assuntos tão diversos como sua infância, sobre o destino e o papel de Peter (nome carinhoso de São Petersburgo, ou Leningrado) na história e imaginário russos ou ainda sobre a beleza e força de Anna Akhmatova.

Mas não o faz de qualquer maneira: escreve sobre tudo isso de um modo inconfundivelmente russo, da mesma maneira que Czesław Miłosz é inegavelmente polonês – mesmo quando vivia na América. É possível ler, em seus textos, um amargor típico do exilado, certo saudosismo depreciativo da própria pátria e da própria língua – os ensaios foram escritos em inglês e, em diversos momentos, Brodsky fala da insuficiência dessa língua para exprimir suas ideias e experiências.

Os doze ensaios, aliás, estão de um modo ou outro, ligados à língua russa. É a realidade do país, que pulou do feudalismo para um socialismo industrial, passando de modo breve demais pelo capitalismo, e de sua língua – complexa e bastante estranha aos padrões ocidentais – que (de)formam tudo o que Brodsky escreve, que constroem a história pessoal e literária que se pode formar com os ensaios desse volume.

Existem casos, porém, em que a língua russa é mero subsídio – ou ainda, um ponto de partida – para suas análises da civilização e da cultura ocidentais. Em O som da maré, por exemplo, Brodsky pinta a obra de Derek Walcott de modo que, acredito, nenhum anglófono nativo poderia.

No fim das conta, Menos que um é um livro sobre as línguas russa e inglesa, sobre a literatura russa, sobre o triste e cruel século XX. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre a civilização e sua relação com a poesia.

Menos que um

de Joseph Brodsky

tradução de Sérgio Flaksman

232 páginas

R$ 52,00

 

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras