Como mudar o mundo (Eric Hobsbawm)

em 27 de dezembro de 2011

Em um mundo que passa por uma recente crise econômica e algumas rachaduras no capitalismo, o historiador Eric Hobsbawm, um dos maiores defensores do socialismo na atualidade, apresenta uma série de ensaios autorais sobre o marxismo, escritos ao longo dos últimos 50 anos, constituindo um importante material de reflexão sobre os séculos XIX e XX. Mais do que isso,  o autor tenta montar alguma base do que podemos esperar do  tempo em que vivemos, mesmo que de forma abstrata.

Com um título sugestivo, espera-se que “Como mudar o mundo – Marx e o Marxismo“, (assim mesmo, sem nenhuma interrogação, mas sim uma afirmação, soando até mesmo como um manual), apresentaria respostas ou palpites sobre a situação econômica atual e rumos a serem trilhados, mas os leitores que se aventurarem por esse material encontrarão, assim como na própria história que vai além dos livros didáticos, mais incertezas do que respostas. O título vem do questionamento essencial para a mudança, como sugere o próprio autor:  “Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século 21, mas quem quiser solucioná-los deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”.

Outra expectativa a ser quebrada, é a busca por textos claros e explicativos sobre o socialismo e suas várias vertentes políticas. Nesse quesito, o livro praticamente não traz contribuição, pois trata-se muito mais de uma reflexão do que informação de forma direta. Já no próprio prefácio, o autor alerta que a maioria dos capítulos é dirigida a um público que possue um interesse maior pelo Marxismo, além de curiosidade.

A ideia proposta, em teoria, pelo autor, é tentar analisar o marxismo como teoria sem associá-lo a modelos práticos que puderam ser eventualmente distorcidos de sua essência. Digo “em teoria” por dois motivos: Primeiramente,    porque é difícil analisar Marx sem esbarrar em suas aplicações históricas, mesmo que equivocadas. É algo que vai além das páginas do livro e está na nossa própria memória coletiva; Em segundo lugar, porque acredito que esta já é uma opção com algum direcionamento político.  O autor reserva, por exemplo, vagos momentos ao citar Trotsky e Lênin, o que é, de certo modo, ignorar uma grande contribuição do marxismo colocado em prática, além de tratar o stalinismo como um exemplo de regime socialista, mesmo reconhecendo que ele é uma má memória para as pessoas. Além disso, ele elege Gramsci em posição de destaque.

Com tudo isso, o foco histórico dos ensaios de Hobsbawm não são os regimes que viveram o socialismo ou se posicionar a favor ou contra, mas sim mostrar os motivos que levaram a sociedade a se afastar e aproximar do socialismo em diferentes pontos da história, além de perceber como o pensamento marxista se aplica à memória, desejos e vontades da sociedade,  e como ele é uma corrente fundamental de pensamento para desencadear vários fatos nesses  anos. O fato é que O capital  é “quase profético” em diversos pontos, ao falar sobre uma crise econômica e uma situação onde poucos possuem muitos bens e dinheiro. Marx, quando morreu, pouco veria as contribuições políticas e históricas que os seus ideais causaram no mundo.

 

Título original: How to change the world
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Páginas: 424
Preço: R$57,00

 

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Um comentário para “Como mudar o mundo (Eric Hobsbawm)

  1. Vico nos avisou de que “as ideias viajam sem etiqueta”, e este livro talvez seja um dos frutos recentes mais interessantes daquilo que o marxismo tem a nos mostrar de melhor: sua capacidade fantástica de tomar novas formas e relevos congruentes com a transformação daquele que é, em primeiro e último ponto, seu objeto de análise, o sistema de organização produtiva capitalista. Mesmo no ápice de uma problemática “pós industrial”, Marx ainda nos pega pela lapela e parece indicar os problemas óbvios que se escondem por trás de máscaras tão transparentes.

    Dizer que Hobsbawm trabalha a crítica socialista de maneira profunda é chover no molhado, ele é um dos grandes que ainda se posicionam com fervor por sobre os trabalhos de Marx. Mas, o interesse que este livro desperta é (ao mesmo tempo aquém e além do significado de outros trabalhos como “A Era dos Extremos”) trazer luz à dinâmica do discurso do historiador. Ele, que já foi extremamente sistemático e quadrado na introdução dos FORMEN, se mostra cheio de floreios quando se põe a falar de Gramsci, e isso é uma delícia para os olhos cansados das tão pesadas estatísticas e tabelas, tão preciosas para os que insistem em coroar a economia como centralidade da vida, mas que não são substitutas para uma prosa bonita e calorosa.

    Bela análise, fico feliz em ver que Marx ainda tem peso de leitura e reflexão justamente naqueles que são seus maiores trunfos: os seus seguidores.

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