Melhor Leitura de 2011 – Parte II

em 28 de dezembro de 2011

(Mary Elizabeth Winsted encarnando Ramona Flowers, ou algo que o valha)

Ontem publicamos a primeira parte de Melhor Leitura de 2011, sempre esclarecendo que a única regra que o Meia Palavra impõe para participar dessa lista é: a leitura do ano não precisa necessariamente ter sido lançada em 2011. Nessa segunda parte, continuamos com os parágrafos de jornalistas, blogueiros, colaboradores, escritores e tradutores convidados.

No próximo episódio da Melhor Leitura de 2011: a última parte irá ao ar amanhã e contará com os textos de toda a equipe Meia Palavra!

Clara V. (colaboradora Meia Palavra): A Estrada (Cormac McCarthy)

Um mundo devastado. Não existe mais civilização, nem alimentos ou abrigos. Muito menos cultura, felicidade e risos. Mas o homem e o menino ainda têm esperança e isso é o que os fazem seguir a estrada, seguir sempre em frente. Li o livro em maio, mas suas linhas ainda me acompanham, quando menos espero me vem à mente uma cena, uma frase. Uma das melhores leituras que fiz em anos.

José Roberto Torero (escritor): Gabriela, cravo e canela (Jorge Amado)

O livro que mais gostei de ler em 2011 foi Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Um dos perigos de um romance que tem a política como assunto, ainda mais escrito por um autor de posição tão definida, é a manifesta simpatia por um dos lados, transformando o outro num partido cruel de homens malvados que esfregam as mãos, dão gargalhadas retumbantes e vestem-se de preto. Não é o que acontece em Gabriela. Ali não há blocos políticos coesos e vemos traições e contradições de ambos os lados. No livro, os partidos políticos não são representações de ideias, mas agrupamentos de homens, e assim sendo possuem tons, matizes, mudanças, particularidades. Além disso, tanto em Ramiro Bastos quanto em Mundinho Falcão há uma rica mistura entre psicologia e política. Por exemplo, Mundinho vai para Ilhéus para esquecer um amor e para se livrar da influência dos irmãos mais velhos. É um caçula querendo crescer. Já Ramiro é um pai com filhos decepcionantes, tanto na família como na política. É o símbolo de um exercício de poder sem herdeiros diretos. Não é fácil mostrar a política com humanidade. Mas Jorge Amado consegue.

Michele Laub (escritor):  Stalin, a corte do czar vermelho (Simon Sebag Montefiore)

Vale muito pela pesquisa minuciosa, a reconstituição histórica de alguns dos momentos mais importantes da história do Século XX e, claro, o folclore em torno dessa figura tanto carismática quanto monstruosa.

Tuca (editor d’O Leitor Comum e colaborador Meia Palavra): Ao Anoitecer (Michael Cunningham)

Num ano de leituras excelentes, opto por um lançamento pouco alardeado. O romance passeia pelos bastidores do mundo de galerias de arte e pelas mentes de pessoas que se dão conta de que não são mais jovens. Peter, o protagonista, vê-se apaixonado por Mizzy, o insensato irmão de sua esposa. Vê nele o ideal de beleza que tanto busca na arte e os traços da juventude que lhe fizeram apaixonar-se por sua mulher. Quem está acostumado com os recursos formais mais utilizados pelo autor do premiado As horas, tal como a divisão de vozes de narradores, talvez estranhe, a princípio, a aparente simplicidade do novo romance. Mas esta impressão é gradualmente demolida no decorrer das páginas, por meio da densidade das camadas da história e da prosa fortemente carregada de poesia, tão característica de Cunningham.

Frances de Pontes Peebles (Escritora): Cléopatra: Uma biografia (Stacy Schiff)

A escritora Stacy Schiff passou quase cinco anos pesquisando e escrevendo essa biografia da rainha egípcia. Schiff mostra uma Cleópatra bem distante da imagem popular – a famosa rainha não era apenas uma linda sedutora. Era uma hábil estratega e negociadora, uma mulher carismática que deteve o destino do mundo ocidental nas mãos.

Andréa Ascensão (escritora): Vivos embaixo da terra – o testemunho de um repórter no resgate histórico dos 33 mineiros no Chile (Rodrigo Carvalho)

A cobertura de uma grande tragédia com “final feliz” que levou repórteres do mundo todo ao deserto do Atacama. Quem não gostaria de estar na pele de Rodrigo Carvalho, o autor? Antes de responder é preciso saber, se for espere passar por muitos perrengues, o que trouxe toques de humor à narração. Mas o que mais chamou minha atenção foi o ângulo essencialmente jornalístico, sincero e humano escolhido para contar essa história. “O Deserto do Atacama é uma das nove regiões mineiras do país, com nada menos que 884 jazidas, a maioria de pequeno porte. A média de 34 mortes por ano em acidentes é resultado de um número estarrecedor: a fiscalização das 884 minas do Atacama fica nas mãos de três inspetores”. Desta vez os 33 mineiros sobreviveram, mas a história que Rodrigo conta faz parte de algo muito maior, e por mais incrível que tenha sido para o mundo e para o autor ver esses homens ressurgirem das profundezas de uma mina, resta pouco para comemorar quando mais adiante o repórter revela que depois dos “15 minutos de fama” muitos desses personagens estão desempregados e consideram voltar a trabalhar em mineração.

Marcelo Valletta (cineasta e escritor) São Bernardo (Graciliano Ramos)

“Arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.” E poucos neste país souberam arranjar palavras como Graciliano Ramos, de quem sou leitor desde a adolescência. Entretanto, foi apenas neste 2011 (em que li obras de Poe, Shakespeare, Stendhal e Balzac – ou seja, a vitória do alagoano não foi uma barbada) que tive a oportunidade de imergir em S. Bernardo, de onde vem a citação. À parte a complexidade de temas que a obra aborda, com um elenco preciso de personagens, encanta-me o estilo que o autor empresta a seu protagonista, que, apesar de não ser um homem de letras (com exceção das financeiras), sabe do valor das mesmas: “Há por aí volumes que cabem em quatro linhas”. Mas as linhas de Graciliano são impagáveis.

Raquel Cozer (Repórter da Ilustríssima, na Folha, e blogueira d’A Biblioteca de Raquel): o remorso de baltazar serapião (valter hugo mãe)

De todos os livros que me roubaram horas de sono em 2011, o remorso do baltazar serapião foi o mais implacável: me tomou logo a noite inteira. O curioso foi que comecei a ler de má vontade. Aquela coisa de o valter hugo mãe escrever tudo em minúsculas me parecia uma afetação sem tamanho. Mas logo nas primeiras páginas fui arrebatada pela narrativa, de um humor sutil, que transforma numa coisa só o sentimento amoroso mais puro e a violência mais sórdida. O romance não tem mais que 200 páginas, e o fato de ser todo em minúsculas acaba dando ritmo acelerado à leitura, mas é bem o tipo de escrita que faz ter vontade de reler páginas inteiras, para saborear. Isso sem falar no tempo de digestão pós-leitura que exigiu de mim…

Diana Passy (Editora do Blog da Companhia das Letras): Ready player one (Ernest Cline)

Ready player one é exatamente o livro que você poderia esperar de um cara que tem um DeLorean com equipamentos dos Ghostbusthers e que escreveu um filme sobre um grupo de amigos que invade o Rancho Skywalker pra ver o Episódio 1 antes de todos. Num futuro apocalíptico, as pessoas passam a vida dentro de um jogo (tipo Second Life) chamado OASIS. Quando o criador do jogo morre, todos ficam sabendo que ele escondeu uma caça ao tesouro dentro desse universo, cujo prêmio é toda a sua fortuna. O problema é que ele era um über-nerd que cresceu nos anos 80/90, e todos os enigmas e fases são baseados em filmes, músicas e games dessa época (ouvir com atenção as músicas do Rush ou decorar todas as falas dos filmes do Matthew Broderick podem salvar sua vida). O livro acompanha Wade Watts, nosso herói adolescente à la Charlie (da Fantástica fábrica de chocolates) que se apaixona pela cultura pop dessas décadas que não viveu. Pode não ser a mais alta literatura, mas foi o livro mais divertido que eu li este ano, e às vezes isso é (mais que) suficiente.

Laudo Ferreira (Quadrinista): Três Sombras (Cyril Pedrosa)

Minha melhor leitura de 2011 foi dentro justamente da área de quadrinhos, no qual atuo, e foi o livro Três sombras, de Cyril Pedrosa e que foi publicado pela Cia. das Letras. O roteiro do desenhista Cyril é de um sensibilidade extremada e principalmente sincera, narrando a jornada externa e interna de um pai que se despede do filho que irá morrer, levado justamente pelas três sombras do título. A magia, o encantamento puros dessa obra é arrebatadora. As quase trezentas páginas do livro são degustadas rapidamente, graças à maestria narrativa do autor e um roteiro cativante.

Daniel F. (colaborador Meia Palavra): Catatau (Paulo Lemisnki)

Dos livros que mais me interessaram em 2011, selecionei alguns que são desconhecidos da maioria e outros não tão desconhecidos. Com certeza, o Catatau (1975), do Leminski, resenhado aqui por mim, é dos mais relevantes. Acredito que muita gente pode gostar dessa “leminskíada barrocodélica”, na definição de Haroldo de Campos. O mesmo Haroldo escreveu Galáxias (1984), poema-livro que certamente marcou 2011 para mim em relação à literatura. Essas duas obras que estão na fronteira entre prosa e poesia merecem a atenção de todos por serem sucessos efetivos para a literatura brasileira. Outro dos nossos que merece atenção é Roberto Piva, que escreveu Paranóia (1963), obra cujos poemas são de um nível de absurdo para poucos (ou muitos?). Para além da Terra de Vera Cruz, também cito Alain Robbe-Grillet, romancista de vanguarda francês. Um romance seu é O ciúme (1957), história de uma traição obsessivamente descrita que pode não ter nem acontecido. Por último ainda cito Axël (1890), obra de outro francês, Villiers de L’Isle-Adam. Trata-se de um “poema dramático em prosa” (na definição difícil de Edmund Wilson) no qual temos duas personagens que para viver seus sonhos deixam justamente de viver.

Sergio Chaves (Editor Revista Café Espacial): Umbigo sem fundo (Dash Shaw)

Uma das melhores leituras que fiz neste ano foi a do álbum “Umbigo sem fundo”, por Dash Shaw (roteiro e arte), lançado em 2009 pela Editora Cia.  das Letras. A história é evolvente e muito bem construída, principalmente pela forma como Dash utiliza-se da linguagem das histórias em quadrinhos, que é brilhante. Demorei um tempo para conferir o álbum, mas ele está entre os melhores que já li.

Luciana Thomé (escritora e editora da Não Editora): Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)

Este é um livro difícil de resumir. E não é por sua complexidade. Mas pelo fato de que colocaria em risco a experiência única que é ler pela primeira vez Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino. Li pela indicação de um amigo querido (aquele que mantém a promessa de me indicar livros inesquecíveis) que, como eu, é fascinado em livros que falam de livros, de leitores, da leitura perfeita, de obras marcantes e de todas as leituras que não conseguiremos fazer ao longo da vida (o grande dilema existencial de um leitor voraz e apaixonado). E se o livro mais emocionante da sua vida se interrompesse de repente, numa edição com páginas e mais páginas em branco? Impossível viver sem conhecer o fim dessa história? E se você descobrisse que ele, de fato, nunca existiu? Pois minha melhor leitura de 2011 foi essa grande homenagem à narrativa longa.

2 comentários para “Melhor Leitura de 2011 – Parte II

  1. Adorei (e anotei) as dicas da Raquel e da Diana, essas lindas, já tô querendo ler a dica do Dan há um tempão (mais ainda desde que ele prometeu me emprestar) e assino embaixo das dicas do Sergio e da Lu (Calvino é FUN-TASTIQUE!)

  2. Pingback: Melhor Leitura de 2011 – Parte III

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