Ébano (Ryszard Kapuściński)

em 3 de janeiro de 2012

O continente africano, para os ocidentais, sempre teve uma aura de exotismo. ‘O coração das trevas’, do polonês que escrevia em língua inglesa Joseph Conrad, é um bom exemplo disso. Outro polonês que pode servir de exemplo nesse caso é Ryszard Kapuściński – foram diversos os livros que publicou a respeito da África, mas quiçá o mais emblemático seja ‘Ébano – minha vida na África’.

Conrad passou pouco tempo na África, tendo apenas participado de uma expedição ao Congo, em 1889. Kapuściński, ao contrário, foi constantemente ao ‘continente negro’ entre 1957 e os anos 1990 como correspondente da agência oficial de notícias do governo polonês, tendo presenciado inúmeros golpes de estado, revoluções, guerras e massacres.

É claro que a África de Kapuściński era profundamente diferente da de Conrad: Kapuściński encontrou um continente que começava a se livrar das amarras do imperialismo. Centenas de povos, muitas vezes inimigos, tornavam-se membros de um mesmo país e deveriam viver em paz – era essa a condição para que lhes fosse concedida a independência. Os resultados, todos sabemos. Anos e mais anos de guerras e fome, níveis extremos de pobreza assolando um continente inteiro.

Os relatos de Kapuściński, porém, revelam algo mais. Essas coisas estão lá porque são poderosas, e ao que parece, estando-se na África, não se pode escapar delas. Em ‘Ébano’, porém, são os indivíduos que o autor encontrou em suas viagens que interessam: a gorda Madame Diuf, que não se cansa de gabar-se sobre os vegetais que compra por um baixo preço na viagem de trem de Dacar à Casablanca; Salim, o caminhoneiro que leva o jornalista através do Saara e acaba por salvar-lhe a vida; os habitantes do beco em que ele alugou um apartamento na cidade nigeriana de Lagos, que o roubam constantemente, mas que ainda assim parecem simpatizar com o branco que foi viver entre eles.

Mesmo os momentos que podem ser considerados históricos que aparecem no livro, ganham vida através dos indivíduos: tendo conhecido muitos chefes de estado e golpistas, Kapuściński é capaz de falar sobre suas personalidades e tergiversar a respeito de seus erros, acertos e motivos.

Inúmeras críticas constantemente são feitas a Kapuściński, tentando-se desacreditar alguns de seus relatos e, especialmente, lançando dúvidas sobre sua ética e indagando a respeito da natureza exata de sua colaboração com o regime comunista. Independentemente disso, ‘Ébano’ é um dos mais interessantes e importantes relatos sobre a África do século XX, abordando inúmeros países de todas as regiões daquele majestoso continente.

Ébano

de Ryszard Kapuściński,

tradução de Tomasz Barcinski.

360 páginas

R$ 61,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

Um comentário para “Ébano (Ryszard Kapuściński)

  1. Obrigada pela descoberta! Sempre acompanho seus artigos e leio as resenhas com interesse.

    Continue com o belo trabalho!

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