O caçador de autógrafos (Zadie Smith)

em 9 de fevereiro de 2012

Informações

  • Autor: Zadie Smith
  • Tradutor:
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 392
  • Ano de Lançamento: 2006
  • Preço Sugerido: R$57,00

Quando se fecha um livro e começa a pensar no que falar sobre ele, primeiro vem o grande atrativo, que pode ser desde um personagem secundário até uma citação incrível, e em seguida o grande problema, se houver, daquela obra. Enquanto lia o romance O caçador de autógrafos, segundo livro da inglesa Zadie Smith – altamente elogiada pelo primeiro romance, Dentes brancos – lançado pela Companhia das Letras, estava encantado com a prosa, talhada com passagens bonitas e outras quase nonsense, e com seus personagens. O principal, Alex-Li Tandem, é um londrino metade chinês metade judeu que vive para vender e comprar autógrafos – só essa descrição já valeria uma vaga nalgum filme de Quentin Tarantino. Sem contar os judeus negros do Harlem Adam e Esther e o rabino anão. Porém, não me foi possível, após as mais diferentes enumerações, encontrar um defeito gritante nesse livro divertido e soturno, seus temas são carregados de referências ao mundo pop – e inclua aí a Cabala e o culto as celebridades -, mas também transpiram questões existenciais através de, digamos, símbolos.

A trajetória de Alex-Li começa pouco tempo antes de completar 13 anos. Seu pai Li-Jin o leva, junto com seus amigos Rubinfine e Adam, para uma luta. Lá eles conhecem Joseph, um garoto fascinado por autógrafos e que conquista Alex-Li pelo entusiasmo com que conta as curiosidades sobre cada um que conseguiu – especialmente a parte dedicada totalmente aos judeus. Nessa abertura já temos um incrível açoite que se torna o primeiro ponto de virada da obra. Enquanto Alex-Li, seduzido pelo poderio dos autógrafos de seu novo amigo, consegue o primeiro de sua vida, que o guiará como o caçador do título, perde seu pai no mesmo instante – isso surge de maneira tão sutil e arrebatadora que é impossível não querer reler para acreditar no que acabou de acontecer. Claro que a autora já havia notificado o leitor que Li-Jin tinha um tumor, que de acordo com um médico charlatão seria causado pelo amor excessivo que ele tinha com o filho.

A carreira de Alex-Li é quase totalmente bem sucedida, só que ele guarda uma obsessão que o faria trocar todo seu dinheiro por aquele item. Ele é apaixonado por Kitty Alexander, uma atriz reclusa que participou da produção “A Garota de Pequim”. Todas as semanas ele escreve diversas cartas pedindo o autógrafo dela e, porventura, consegue o que tanto almeja após uma noite repleta de alucinógenos. Seus amigos acreditam ser uma fraude feita no auge da insana veneração, mas Alex-Li resolve tirar a prova e ir até Nova York para desvendar esse mistério.

O caçador de autógrafos abre com uma citação pertinente de Lenny Bruce afirmando as diferenças entre judeus e góis, o que, na prática, soa como: todos somos judeus, aceite isso antes que seja tarde demais. As referências ao judaísmo, budismo e a cabala estão impregnadas nesse livro, em outra página, antes mesmo do romance começar, temos uma Árvore da Vida – importante símbolo da Cabala – montada com caricaturas de celebridades e figuras notórias, como Bette Davis, John Lennon, Franz Kafka, Muhammad Ali, entre outros, e cada uma delas representando uma ramificação dessa tal árvore. Uma devoção pelo mundo pop do personagem principal que constrói sua própria cabala através daqueles que idolatra. Essa procura por algo maior, uma fé, é um dos pontos mais emocionantes e um dos mais ácidos da obra, pois Alex-Li, como muitos, coloca as celebridades, os artistas, como entidades quase intocáveis, e seus autógrafos são as provas de que eles podem ser alcançados.

Afora o desenho da árvore, existem conversas via MSN pulando na tela, alguns capítulos são abertos com desenhos e em diversas passagens assinaturas, como do próprio Alex-Li ou de Muhammad Ali, aparecem para tirarem a tipografia usual, todos como uma brincadeira gráfica para desconcertar o leitor. Zadie Smith ainda abusa de uma conversa quase direta com o leitor em dado momento ao atribuir um adjetivo para um personagem, pergunta se o leitor tem uma ideia melhor e abre um espaço em branco entre parênteses para ser completado.

O caçador de autógrafos é uma obra fidedigna em que se atrasa a leitura de propósito para degustar as ótimas referências cheias de fôlego, momentos hilários e outros carregados de tristeza. Zadie Smith tem em sua prosa um anzol que consegue fisgar a atenção abordando temas sérios e existenciais com um humor tangendo a tragédia.

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