O que esperar de um livro narrado por uma adolescente sobre o desaparecimento de uma menina de doze anos fantasiada de Branca de Neve? Acredito que a maioria – assim como eu, a princípio – imaginaria tratar-se de um livro bobo, fantasioso e insosso.  Não é.

A capa de O desaparecimento de Katharina Linden é bem sugestiva, destacando-se um par misterioso de olhos felinos cujas pupilas representam a sombra de uma criança fugindo – e isso é um belo aviso do suspense que está por vir.

Como quem não quer nada, o livro prende e nos presenteia com uma trama instigante e bem escrita. A autora, Hellen Grant, surpreende com viradas inesperadas e um senso de humor sutil, impiedosamente afiado.

A protagonista da história é Pia Kolvenbach, 18 anos, que narra acontecimentos sombrios ocorridos em sua cidade natal, Bad Münstereifel, no interior da Alemanha, quando ela tinha apenas 12 anos. Tais acontecimentos envolvem o desaparecimento de várias meninas, fofocas remanescentes da Segunda Guerra Mundial, suspeitas de pedofilia, rituais satânicos e um gato preto que é a grande chave do mistério.

Estigmatizada pelo acidente que vitimou sua avó paterna, Oma Kristel – incidente que envolveu fósforos, laquê e a idosa sendo transformada numa tocha humana uma semana antes do Natal -, e apelidada de a-menina-cuja-a-avó-explodiu, Pia passa, aos olhos de todos, de criança adorável a uma coisinha azarada, uma pária social a ser evitada, cujo único amigo possível é um garoto esquisito que atende pela alcunha de Stefan Fedido. Ah, e não precisa se descabelar por eu adiantar a informação, o acidente já é mencionado nas primeiras linhas do livro e serve de gancho para muita coisa que vem depois.

Pois bem, isolada e tendo como companheiro o tal Stefan Fedido, Pia encasqueta em descobrir o que diabos houve com a menina que sumiu no Karneval, Katharina Linden, deixando Bad Münstereifel em polvorosa. Intenta com isso tornar-se heroína, reconquistando a tão acalentada aceitação social – e é aí, com uma boa dose de folclore e lendas locais, que a história acontece: ao pé da lareira de velhinhos bonzinhos contadores de histórias, e fugindo na neve de outros, com fama de malvados.

A cidade em que ocorrem os fatos existe realmente – dá até pra encontrar algumas fotos na internet, e é um lugar muito bonito. A própria autora morou lá, isso explica como ela conhece bem os hábitos, cultura e geografia locais. Em determinadas passagens, entretanto, o leitor pode ter a impressão de que Hellen Grant escreveu o livro para sacanear um pouco alguém de lá que a tenha atormentado com futricas. Eu tive essa impressão. Mas isso não atrapalha em nada a trama, ao contrário, torna-a mais divertida.

Além de deixar claro que a fofoca é um péssimo hábito, Hellen explica de forma quase didática que coisas aparentemente inofensivas, como mexericos, boatarias, observações ambíguas, pequenos comentários venenosos e leviandades sussurradas ao pé do ouvido, podem provocar um estrago dos diabos – e com consequências mais do que duradouras – na vida dos outros. E que o ressentimento, o despeito e a inveja são grandes molas propulsoras da língua de quem não tem mais o que fazer. Deixa claro também que a tranquilidade de se viver num lugar pequeno pode ser ilusória e que ficar confinado em um local em que todo mundo “acha” que sabe tudo sobre a vida alheia – e onde qualquer besteira vira escândalo – pode ser uma grande porcaria.

O livro se paga pelo cenário (com direito a perseguições em porões, noites na floresta e desaparecimentos na neve), pelo suspense levemente angustiante e pelas sacadas irreverentes da autora.

Obs: A tradutora manteve muitas palavras em alemão, o que pode ser um desestímulo para alguns leitores. Eu achei interessante, mesmo tendo que ficar parando a leitura em momentos cruciais para consultar o pequeno glossário que há no fim do livro.

Boa leitura.

Sobre o autor: Alexandre Segom é… ama, odeia, sonha, rabisca, sorri, chora, xinga, erra – erra muito, se desculpa, tenta consertar, tenta perdoar, sai pela tangente, caramujeia, encara de frente. Meias palavras, pessoas inteiras. Alexandre lê e comenta. Adorei. Detestei. Reli. Entendi. Abandonei. Sei lá. Por favor, vire a página…

O desaparecimento de Katharina Linden
Tradução de: Flavia Anderson
Páginas: 312
Sugestão de Preço: R$ 39,00

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