Histórias e Estórias – Temporalidades – Parte II

em 27 de abril de 2012

No mês passado minha coluna, no intuito de explorar um pouco a temporalidade na constituição da condição dos homens na história, falou sobre o calendário revolucionário francês, instituído em 1792. Nesse mês proponho que nos detenhamos um pouco sobre a temporalidade a partir de um capítulo do livro Costumes em Comum, do historiador Edward Palmer Thompson, “Tempo, Disciplina de Trabalho e Capitalismo Industrial”.

Nesse capítulo Thompson explora como a introdução dos relógios no século XVIII concorreu para alterar também os próprios costumes e usos dos camponeses, e também dos patrões, que passavam a introduzi-lo como elemento crucial do ambiente e do controle da indústria em gestação.

Thompson discute como é que a introdução do relógio e, mais do que isso, a noção de tempo cronometrado, transformaram a maneira como viviam as pessoas naquele contexto. Tais mudanças, longe de estarem restritas àquelas circunstâncias, nos chegam até hoje sob variadas formas, basta, para que sirva de exemplo, notar a presença orwelliana de relógios em todos os pontos cardeais e colaterais do ambiente social.

O tempo, no contexto histórico explorado por Thompson, deixava, aos poucos, de ser usado como complemento ao verbo “passar”, ao passo que vê-se empregado cada vez mais como complemento ao verbo “gastar”. Essa mudança exprime mais do que uma escolha subjetiva ou meramente terminológica. A diferença entre “passar o tempo” e “gastar o tempo” está incrustada nas pressões da sociedade inglesa em vias de capitalizar-se, processo no qual buscou-se fomentar, ideológica e fisicamente, uma nova disciplina de trabalho.

Tal disciplina de trabalho opõe-se diametralmente aos usos e costumes presentes no trabalho e na vida dos camponeses ingleses até então. Enquanto nos séculos passados o trabalho era feito em pequenas propriedades (oficinas, fabriquetas ou nas próprias casas) ou em terras comunais, e estava estreitamente entrelaçado com os próprios nuances da vida desses sujeitos; o modo de trabalho que buscava se inserir, como imperiosidade das novas relações de produção, não comportava esse ritmo e essa forma. Era preciso erradicar as antigas concepções e modos de trabalhar.

Dessas transformações que advém a nova noção de tempo. O tempo que existia anteriormente era ditado pelos ritmos do próprio sujeito e existia de forma intrínseca ao trabalho que esses exerciam. O tempo que procurava se implantar era imposto de forma externa, e extravasava o controle e o modo de vida que esses camponeses, até então, estavam acostumados a cultivar.

A disseminação de relógios foi tanto consequência quanto causa – em alguma medida, obviamente – desse processo. A marcação exata e a quantificação precisa do tempo, empregados de forma “racional” em todos os segmentos e meandros do processo de produção (agora também modificado com a introdução das indústrias) tornavam o tempo não mais uma passagem autônoma ou contemplativa, mas sim os próprios grilhões invisíveis que pressionavam os sujeitos.

Esse processo, no entanto, não foi de mão única. Da mesma forma que as classes dominantes pressionaram essa mudança no modo de vida dos trabalhadores, esses também, diante das exigências, se apropriaram do relógio e desse “novo tempo”. Eles resistiram não somente através da falta no trabalho (a disciplina de trabalho não foi consumada do dia para a noite, se chocou com os hábitos e tradições desses sujeitos) mas também pelo controle, munido de relógios e cronômetros, das imposições de horários. O objeto que lhos agrilhoava passou a ser sua ferramenta de contestação.

Uma concepção utilitária e extremamente racional do tempo passou a se disseminar. Ela compelia os sujeitos a não mais passarem o tempo, mas utilizá-lo ao máximo, em detrimento de seu próprio bem estar. A vida passava, não sem conflitos, a existir sob o estigma do tempo, não aquele “natural” ou dado a contemplações, mas aquele impostos pelas próprias malhas e tramas da sociedade. O tique-taque desse novo relógio, movido a engrenagens e cadenciado com a frieza do metal, ecoa até hoje, como que nos lembrando constantemente de seu império.

3 comentários para “Histórias e Estórias – Temporalidades – Parte II

  1. Provavelmente o trabalho tenha sido sempre a medida de tempo das sociedades. O que parece mudar com a sociedade capitalista foi uma abstração maior. Se antes poderia-se medir o tempo pelas tarefas realizadas, passou-se a medir as tarefas realizadas dentro de determinada medida de tempo.Mas vc tem razão podemos entender algo de uma sociedade pela maneira como mede o tempo. Vc já leu Os Nuer de Evans-Pritchard? tem um capítulo interessante sobre como os selvagens mediam o tempo…

    • Valeu pelo comentário Marc!

      nesse mesmo capítulo que eu citei o Thompson fala sobre os nuer e outros povos que medem o tempo de acordo com as atividades que realizam. Ele se refere a várias medidas de tempo bastante expressivas nesse sentido: tempo de fervura da água, as estações, a posição do sol e, inclusive uma bem curiosa, o tempo de uma mijada.

      São formas de marcar o tempo intrinsecamente ligadas, como você bem ressaltou, ao trabalho. E, como na realidade histórica dos camponeses ingleses nos ‘tempos pré-industriais’ o trabalho e a vida estavam também intrinsecamente ligados, esse tempo cadenciava suas formas sob formas próprias.

      O trabalho, aliás, não somente é medida de tempo, mas fomento da própria identidade e de todo o modo de vida dos sujeitos, precisamente porque ele é a própria ação do sujeito sobre o mundo objetivo. O trabalho é a pedra de toque do indivíduo e da sociedade sob vários aspectos e, embora não seja a única, é aquela que mais diretamente influencia no ‘ser’ do sujeito. A dimensão ontológica do trabalho é algo fundamental para se compreender praticamente todos os aspectos da vida social.

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